Chegar à COP30 foi um caminho de costura e convergência. Tudo começou com o desejo de Graziela Brum estar presente no evento, um sonho que encontrou terreno fértil quando abri o credenciamento pela Hora do Sabbat. Aos poucos, a jornada foi ganhando corpo — especialmente quando me reaproximei de Carol Tokuyo, da Mídia Ninja, no segundo trimestre deste ano. Nosso encontro na Nave Coletiva abriu espaço para diálogos sinceros sobre comunicação, rede e propósito.
Entre cafés e planos, identificamos afinidades no Planeta Ella e no Som.VC: espaços onde a Hora do Sabbat poderia somar com o conteúdo centrado em mulheres, um campo que é, por si só, vasto e fértil. O grande plano da Ninja — a COP30 — se tornou o ponto de cruzamento natural entre nossas trajetórias.
Minha caminhada vem de longe: fui Fora do Eixo, levei o Grito Rock a São Carlos, e hoje sigo conectando redes, mas com um foco claro — a mulher e a música. Falar de mulher é abrir caminhos, multiplicar sentidos, criar futuros.
Entre protocolos, credenciais e rifas para viabilizar a viagem, fomos — eu, Graziela e Flora Miguel — costurando as etapas para chegar a Belém com autonomia, coerência e presença. Paralelamente, vivi o Latina, encontro de mídias independentes latino-americanas, e reafirmei a potência do jornalismo em rede, coletivo e insurgente.
Cheguei a Belém no dia 6 de novembro. O calor não me assustou: quem vem do Recife já carrega no corpo o ritmo do trópico. O voo atrasou, mas a chegada foi leve — pão, queijo e água mineral. No dia seguinte, café preto, pão na chapa, suco de acerola e a missão de garantir a credencial na Blue Zone. Não é exatamente o espaço das pautas que me movem, mas estar lá é abrir o campo da observação — ver de dentro o que o mundo chama de “transição climática” e nós, mulheres, sabemos ser também um chamado à regeneração.
As ruas próximas ao centro de convenções são cheias de contrastes. Falta sombra, falta lixo no lugar certo, sobra segurança rígida e protocolos de ferro. Entre um café e outro, encontrei histórias — como a de Diego, que abriu uma copiadora 24 horas na porta de casa para atender a demanda do evento. Pequenas economias circulares dentro da grande engrenagem global.

No credenciamento, o bom humor do povo paraense fez tudo correr fácil. Depois, caminhei pelo espaço ainda em montagem. O gigantismo das estruturas denuncia que o evento precisa entregar mais para patrocinadores do que para a Terra. E, nesse paradoxo, mora a grande questão: quem cuida de quem cuida?
No fim da manhã, consegui chega ao Centro de Mídia Marielle Ramires. Levei comigo meu plano de pautas, mas encontrei algo maior: o reencontro com mulheres que mantêm viva a chama do legado de Marielle. O espaço é bonito, acolhedor, pulsante — como a própria rede Ninja. Revi companheiras, conheci novas e percebi que estar aqui é mais do que cobertura: é continuidade.
No meio da tarde aceitei o convite para visitar a Casa Ninja Amazônia, era inevitável. Lá estavam as duas Carol, Ísis, ulheres que tornaram real o sonho de ter uma sede viva e coletiva em Belém, e Heluana que veio lá de Macapá. Me emocionei. É raro encontrar lugares onde o feminino está tão presente na estrutura e no sentido.
Voltei para a pousada com o corpo cansado e o coração cheio. Nenhuma grande epifania, apenas a constatação simples: a presença também é uma forma de militância. Estar inteira, escutar, registrar e descansar — tudo isso faz parte da prática feminista que sustenta a Hora do Sabbat.