Entre poesia, território e palco, a rapper mineira constrói uma trajetória que transforma vivência em presença e palavra em corpo político.
Nascida e criada em Belo Horizonte, Sarah Sampp constrói sua trajetória a partir do encontro entre palavra, corpo e território. Vinda de uma família de musicistas e atravessada desde cedo pela sonoridade dos instrumentos, das ruas e das batalhas de rima, ela encontra no hip hop um campo fértil para organizar pensamento, vivência e presença política. Seu rap nasce da escuta atenta do mundo e se manifesta com cadência, consciência e identidade.
A entrada de Sarah Sampp na escrita acontece em 2018, num momento de ruptura pessoal e coletiva, quando a poesia surge como resposta urgente à realidade. Dos slams aos palcos, o rap aparece como linguagem capaz de dar ritmo, melodia e corpo às palavras que já pediam expansão. A ancestralidade familiar, a vivência na periferia de BH e a experiência coletiva em espaços como saraus e o Coletivo Pretas Poetas moldam uma artista que entende criação como troca, e não como percurso solitário.
Com passagens por praças, bares, festivais e grandes palcos, Sarah Sampp consolida uma presença que se afirma pela prática. Participou do Festival Imune, integrou a turnê Demotape “Inocente” como backing vocal do Djonga em diferentes capitais do país e foi selecionada para o WME, espaço que reconhece e projeta mulheres na música. Entre o reconhecimento institucional e a vivência da rua, ela constrói uma trajetória em amadurecimento constante, onde afirmação não é ponto final, mas exercício contínuo.
Nesta entrevista para o blog da Hora do Sabbat, Sarah Sampp revisita sua história a partir do diálogo entre a menina que criou mundos para sobreviver e a mulher que hoje ocupa palcos, constrói obra e prepara o terreno para o lançamento de sua primeira mixtape. Uma conversa sobre identidade, território, ancestralidade, processo criativo e futuro, guiada pela escuta e pela coragem de existir com verdade.
1 – Sarah Mascarenhas: Você nasce e se forma em Belo Horizonte, uma cidade que tem uma cena de rap muito própria, politizada e potente. De que maneira BH atravessa sua música, sua escrita e sua postura artística no palco?
Sarah Sampp: Belo Horizonte me atravessa de forma estrutural, não só estética. BH me ensinou a falar com profundidade, a pensar antes de gritar e a entender que o rap também é construção política cotidiana, não só discurso direto. A cena daqui é muito única e muito ligada à vivência real, à rua, ao corpo. E isso moldou minha escrita e minha postura artística. Na minha música, BH aparece no jeito de rimar, mais cadenciado, mais atento à palavra, e também na mistura de referências o rap encontra o funk, o hip hop encontra o Congado. No palco eu levo a fala firme, e ocupo espaço com consciência, identidade e responsabilidade.
Nascida e criada em BH por uma família de artistas, posso falar que meu rap é muito mineiro, meu primeiro contato com as batalhas no viaduto Santa Tereza.
2 – Sarah Mascarenhas: Você sempre menciona que tira inspiração da sua ancestralidade e das vivências na periferia de BH. Como essas duas dimensões se encontram na sua música? Tem alguma figura ancestral da sua família que influencia diretamente o seu som?
Sarah Sampp: Eu nasci na periferia de BH e em uma família de músicos, o meu avô materno tocava trombone de vara, o meu tio piston além de quase todos primos tocarem instrumentos musicais, isso sempre foi muito importante na família quase como ter uma faculdade. Então o meu contato com a música foi muito cedo apesar de me ver nela depois de um tempo, cantar não era o meu sonho de criança, sinto que o encontro que tive em 2018 foi um chamado ancestral do que eu precisava fazer e depois disso eu não me vi fazendo outra coisa. A ancestralidade e as minhas vivências me guiaram até aqui, não tinha outro jeito.
3 – Sarah Mascarenhas: Você começou a escrever poesia em 2018 e logo se identificou com o hip hop. O que te levou à poesia naquele momento? E o que o rap te permitiu expressar que a poesia escrita não dava conta?
Sarah Sampp: A primeira vez que eu escrevi foi em 14/03/2018 eu tava em casa começando uma tarefa de redação e minha mãe me ligou chorando por causa da morte da Marielle, ela tava pensando em entrar pra política e tal, foi onde me dei conta de quem eu era socialmente. E depois dessa ligação eu escrevi o que estava sentindo e saiu o meu primeiro slam, a partir disso não parei mais fiz parte de uns coletivos e comecei a frequentar mais saraus e slams. Onde me conectei com o rap que já encaixava com muita coisa que eu escrevia e vinda de uma família de instrumentistas o rap trouxe o que eu achava que faltava na minha poesia, o beat. Além de permitir criar melodias, flows e falar de vivências minhas que não encontrava lugar na poesia.

4- Sarah Mascarenhas: Qual foi a importância do Coletivo Pretas Poetas na sua formação artística? Como a experiência coletiva moldou sua trajetória solo no rap?
Sarah Sampp: O Coletivo Pretas Poetas foi o primeiro e único grupo composto apenas por mulheres pretas e poetas que eu fiz parte, depois de escrever meu primeiro slam ter contato com esse grupo e tudo que essas mulheres eram e faziam foi mágico e muito potente pra minha trajetória em questão de autoestima e confiança. Quando cheguei no rap, que foi pra mim um espaço masculino e desafiador, eu também tinha a minha bagagem. A experiência coletiva me ensinou que ninguém se constrói sozinha, mesmo quando o caminho é solo. A troca é fundamental, eu aprendi a ouvir, a respeitar processos e a entender que o rap não é só sobre a minha história, mas sobre histórias que se cruzam e isso é o que me dá base, direção, responsabilidade e também me lembra que meu sucesso não é individual, ele reverbera.
5- Sarah Mascarenhas: Você já passou por praças, bares, festivais, feats importantes e chegou a palcos como o Pitching WME 2023 e do Festival Imune, além da experiência como backing vocal do Djonga em turnê nacional. Em que momento você sentiu que sua trajetória deixou de ser promessa e passou a ser afirmação?
Sarah Sampp: Eu me reconheço hoje num momento de amadurecimento, entre o que foi lido como promessa e o que já começa a se afirmar de forma concreta. Não foi um momento único ou um marco isolado, é um processo que eu vivo diariamente. Estar em todos esses lugares foi fundamental para minha construção, porque me deu régua, visão e responsabilidade. Essas experiências fortaleceram minha confiança e me fizeram entender a dimensão do meu trabalho. Hoje, eu estou mais consciente da artista que eu sou, do que eu quero comunicar e de como quero ocupar os espaços. Tenho investido em projetos maiores, em mais consistência e em aprofundar minha identidade. A afirmação, pra mim, não é um ponto de chegada, é uma prática e eu estou cada vez mais firme nela.
6 – Sarah Mascarenhas: Você construiu colaborações com artistas de BH, São Paulo e Rio de Janeiro. O que muda na sua criação quando você compartilha o processo com outros corpos, vozes e territórios? E o que você não abre mão em nenhuma parceria?
Sarah Sampp: Eu amo colaborar, compartilhar o processo com outros artistas, vozes e vivências, isso amplia a minha percepção artística. A criação deixa de ser só um espelho e passa a ser uma troca. Quando entro numa parceria, costumo observar o conceito geral ou estudar o artista com quem vou criar. Se ele já chega com algo escrito, eu parto do que foi trazido, pego essas referências e vou moldando para que a música vire um encontro de ideias, de atmosfera e de intenção, algo que se complemente de verdade. E eu não abro mão da minha identidade. Preciso criar junto, estar presente no processo e imprimir minha forma de rimar, minhas melodias, meus flows, minhas vozes e ad-libs. A parceria, pra mim, funciona quando se soma sem apagar ninguém.
7 – Sarah Mascarenhas: Você vislumbra a gravação do seu primeiro EP com músicas e participações inéditas. Que Sarah Sampp chega nesse trabalho? O que você quer que quem escuta leve consigo depois da última faixa?Sarah Sampp: A Sarah Sampp que chega nessa viagem no tempo que será a minha Mixtape é mais consciente, mais inteira e mais responsável com a própria narrativa. É uma artista que já viveu a rua, o palco e o coletivo, mas que agora entende a importância de organizar tudo isso em uma obra. Chego com mais domínio da minha voz, da minha escrita e da minha estética, sem pressa, mas com muita intenção. Quero que quem escute leve a sensação de olhar para tudo que foi com mais amor. E principalmente que saia diferente de como entrou, seja mais fortalecida, mais atenta à própria identidade e às próprias contradições. Que as músicas ecoem depois da última faixa, como um chamado à escuta de si, à memória ancestral e à coragem de existir com verdade.