Há artistas que constroem carreira. ÀIYÉ constrói cosmologia. Sua obra nasce do encontro entre espiritualidade viva, escuta profunda e uma ética radical do cuidado — consigo, com o outro e com o planeta. Em suas palavras, a menina que sonhava em ser grande não foi abandonada no caminho: foi alimentada. É dessa alegria primordial, sentida ao tocar o tambor, que emerge uma artista que entende a música como fluxo, como água que se adapta, evapora, congela e retorna, sem nunca secar. Ser fonte de amor e beleza, para ÀIYÉ, não é metáfora: é missão.
Em “Cores de Oxum”, essa visão se desdobra em gesto político e poético. O amor aparece como fundamento silencioso de transformação, aprendido no terreiro, exercitado na paciência, na guarda baixa e na geração de memória positiva diante da violência. ÀIYÉ afirma, com a serenidade de quem pratica, que a arte é o instrumento mais poderoso de resistência e persistência. Sem panfleto, sem arma, apenas ritual, alegria e a insistência radical em imaginar e sustentar amores possíveis. Sua fala atravessa quem a escutaou a lê como um chamado: artistas são representantes do amor no mundo, portadoras de sementes que precisam continuar sendo plantadas.
Essa mesma lucidez orienta sua relação com tecnologia, política e gestão da própria trajetória. ÀIYÉ reivindica o uso das ferramentas — inclusive a inteligência artificial — para subverter lógicas de poder, criar futuros habitáveis e afirmar uma existência que não se separa da natureza. Feminismo, para ela, é necessariamente ecofeminismo. Autogestão está bem distante do glamour, é prática punk: fazer com o que se tem, alinhar espiritualidade e convicções políticas, compartilhar saberes e construir redes para que ninguém precise começar sozinha no modo guerrilha. Sua trajetória, que atravessa quase duas décadas de música, sem oferta de atalhos fáceis, essa forma de trabalhar, oferece algo mais raro: consciência, generosidade e a certeza de que imaginar outros mundos é um trabalho coletivo, urgente e profundamente real.
Sarah Mascarenhas – Como seria o encontro entre a mulher que você se tornou e a menina que sonhava em ser grande? Essa mulher realizou os sonhos da menina? Qual o recado da mulher para a menina que está começando a sonhar?
A verdade é que a menina é quem me ensina a seguir olhando as coisas com beleza e graça. Eu só existo hoje porque aprendi a alimentar a alegria de criança que sinto quando toco o tambor.
Voltei no tempo pra buscar os sonhos de criança e me dei conta de que, apesar de todo o trabalho árduo e da aspereza do suposto “mercado”, a música me guiou por uma jornada maravilhosa que eu nunca poderia prever.
Sou muito grata, e acho que o recado pro passado é o mesmo pro futuro: Seja água! Respeite seu fluxo, se adapte, evapore e congele se for preciso, mas nunca se permita secar.
Nosso papel é ser fonte de amor e beleza nesse planeta.
Precisamos ter referências de amores possíveis, precisamos cultivar a alegria, e nela encontrar sentido pra vida.
A arte é nosso instrumento mais poderoso de resistência, e de persistência.
Se você aí do outro lado lendo isso é artista, por favor, lembre-se que você é representante do amor no mundo, você tem as sementes e precisa seguir plantando! Esse é nosso papel e é uma missão muito linda e forte, não se permita duvidar da importância disso, tá?
Obrigada por seguir existindo!
Precisamos pensar que é possível, pra que seja. Tem muita gente aqui no Brasil, pensando.
O trabalho da Mayara Ferrão é referência, assim como o da Biarritz nas artes visuais, e da Ana Rüsche na literatura, do Ailton Krenak na antropologia.
No ativismo climático eu aprendi que é impossível ser feminista sem ser eco feminista, por exemplo. Querer existir no futuro significa militar pela preservação dos rios, das florestas, dos animais e da vida. Uma coisa não está separada da outra, e a gente precisa unir nosso fazer artístico a esse entendimento, urgentemente, antes que seja tarde.
Embora seja meu trabalho autoral, intenção é ecoar mundos diversos, discutir futuros e simular encontros estéticos, políticos e filosóficos. Na ausência de recursos, eu tinha a minha própria imagem, e muitos amigos. A diferença desse clipe pros outros foi a existência de um apoio financeiro, ainda que muito singelo, pra conseguir realizar com equipe, personagens, etc etc.
Eu fiz meu disco em casa, sampleando sons de instrumentos que eu nunca pude ter, reciclando gravações que não estavam sendo usadas, com uma placa simples de 2 canais, dois microfones e muitos sonhos (risos).
O espírito é punk mesmo, a gente faz com o que tem.
Internamente eu busco sempre estar alinhada à minha espiritualidade e minhas convicções politicas, o que muda drásticamente é o acesso, ou seja, a possibilidade de realizar mais, porque existem recursos…
Que existam mais editais e fundos culturais que possibilitem a realização de muito mais idéias e histórias necessárias!
Tudo vem daí, e vai praí.
As coisas não estão separadas, e hoje eu consigo entender que sempre estiveram juntas, embora minha mente ainda não soubesse.Eu sou só a linha de costura, o tecido é ancestral.
Cada vez mais eu acredito que essas práticas podem mudar o mundo, e escolho essa linguagem por perceber na prática o quanto é revolucionária, sem precisar de um discurso, panfleto, ou arma de fogo.
Motumbá axé ô
A potência do encontro e convivencia entre mulheres e pessoas não binárias é ancestralmente sabida, não é à toa que sempre existiram tendas vermelhas e covens…Bonito é poder fazer isso em uma instituição de pesquisa, com estrutura e incentivo…
Lá eu tive acesso a muitas referências, nacionais e internacionais, que me abriram pras tantas camadas do som enquanto arte, e infinitas possibilidades de expressão artística dentro desse campo.Sobre gestão de carreira e independência, foi na rua e no erro que eu fui aprendendo, e é por isso que eu ando por aí compartilhando tudo que vi e vivi, pra que se possam criar redes de apoio mútuo e ninguém precise começar no modo guerrilha como eu, rs
Se eu puder dizer algo sobre isso, é: Tenha amigas que te apoiam. Conte com sua rede. Perceba quem está fazendo ao seu redor, se envolva, troque, compartilhe e principalmente, não se isole. Não estamos sozinhas nunca

Sarah Mascarenhas – ÀIYÉ construiu uma carreira que foge dos modelos tradicionais da indústria, articulando música, performance, tecnologia, espiritualidade e gestão própria. Que novos futuros você enxerga para artistas que escolhem esse caminho da autogestão radical, e o que ainda precisa mudar estruturalmente para que ele seja possível para mais mulheres e corpos dissidentes?
Bora valorizar as coisas reais, e subverter os valores virtuais. Não vale a pena se comparar, nem se render aos números, porque o custo disso é muito alto pra saúde mental!
Se não existe um lugar/evento que te chame pra tocar, você pode criar ele e chamar pessoas parecidas com você.
Se não te publicam, você pode criar sua própria publicação/blog/zine, se não te convidam pro Festival tal, você pode criar um Festival que convide pessoas como você.
Como diria Gilberto Gil, “rede é pra deitar”
A gente precisa saber criar nossas redes, pra cada vez menos estar refém das grandes corporações.