Em uma linda cidade de um país qualquer do Planeta Terra, vivia Fauve.
Fauve era uma mulher culta, linda, inteligente e solteiríssima, que, devido a uma questão de saúde na adolescência, tinha uma deficiência.
Ela era uma pessoa introvertida e introspectiva e, por este motivo, gostava de lugares aconchegantes com pequenos grupos.
Ela adorava cantar, dançar e ler muiiiiiito!
Os pais de Fauve morreram quando ela ainda era criança e, por isso, foi criada por sua avó. Ela e sua avó eram grandes amigas. Herdou dela o talento para a culinária.
Quando sua avó morreu, ficou muito triste, mas seguiu em frente com sua vida.
Fauve vivia sozinha numa pequena vila à beira-mar. Era uma praia de águas mornas e tranquilas, com areia fofa.
Ela trabalhava com a fabricação e venda de licor caseiro, que vendia para todo o mundo por meio de sua loja virtual. Seus licores tinham os mais variados sabores e ela adorava inovar neste quesito. Por esta razão, seus principais clientes eram de uma classe social mais abastada.
Nos meses de outono e inverno, promovia, a cada quinzena, um “Chá Cultural”, com apresentações de música e dança, contação de histórias e muitas guloseimas.
Seu objetivo era dar um colorido àquela região nos meses de outono e inverno, mas sem a agitação excessiva do verão.
Desde criança, incentivada por sua avó, Fauve iniciou sua busca espiritual.
Ao longo dos anos, experimentou várias maneiras de cultivar sua espiritualidade, mas sem encontrar algo que realmente a satisfizesse.
Até que um dia encontrou um pequeno templo espiritualista e começou a frequentá-lo.
No começo, estava toda animada, pois acreditou que finalmente havia completado o seu “Caminho de Roma” e encontrado um local sério onde pudesse trabalhar sua espiritualidade.
Ledo engano! Lêêêêdo engano!
Para Fauve, a deficiência nunca foi um problema, apesar de todas as dificuldades que uma pessoa com deficiência enfrenta em seu cotidiano. Muito pelo contrário, a deficiência havia lhe transformado numa mulher radiante. Mas, a partir do momento em que começou a frequentar o tal templo espiritualista, passou a sentir na pele como as pessoas podem transformar a deficiência de uma pessoa em uma barreira difícil de ser transposta.
Muitas vezes chegava ao templo espiritualista feliz e animada e saía de lá em prantos e desanimada.
Gira Roda! Roda Gira!
Roda Gira! Gira Roda!
E mais uma vez o tempo passou.
A primeira mariposa
Certo dia, Fauve percebeu que todas as vezes em que chegava ao tal templo espiritualista, um homem tentava se aproximar dela, sendo gentil e solícito.
Como já estava bem escaldada com as atitudes daquelas pessoas, tratava o tal homem com extrema indiferença.
Um dia pensou consigo mesma:
“Fauve! Fauve! Não seja tão dura com as pessoas daquele templo espiritualista. Procure dar uma chance para que se aproximem de você.”
E assim, ao chegar ao templo, encontrou o tal homem e, quando ele veio falar com ela, procurou ser menos arredia.
Pouco a pouco, achava a gentileza excessiva daquele homem muito estranha.
Um dia, estava a caminho do templo e, para sua surpresa, viu que o homem vinha em sua direção gritando:
“Espere, meu amor! Espere, meu amor!”
Como precisava trabalhar na produção de licor caseiro, sempre que suas atividades no templo se encerravam, saía o mais rápido possível. E ele sempre reclamava que ela estava com pressa.
Ele agia com Fauve como uma mariposa em volta da luz.
Toda esta situação começou a incomodá-la, pois seu sétimo sentido lhe alertava que embaixo daquele angu havia caroço.
Discreta como era, Fauve não se interessava pela vida particular dos membros do templo e, portanto, não sabia que a mariposa era casada.
Quando descobriu, foi falar com ele. O homem logo agiu de modo defensivo e disse que só havia demonstrado gentileza excessiva por causa de sua deficiência, afirmando que aquilo era “coisa da sua cabeça”.
Fauve voltou o mais rápido possível para casa. Ao chegar, deitou-se em uma rede na varanda dos fundos e chorou, chorou, chorou, chorooooooou até quase sufocar.
Ela era mulher, e toda mulher com deficiência sabe distinguir perfeitamente quando um homem se aproxima apenas por gentileza e intuito de ajudar ou quando esconde desejos secretos.
Uma mulher sempre sabe!
—
E toda aquela situação foi adoecendo Fauve. Com a imunidade baixa, ficou ainda mais suscetível às crises respiratórias. Era crise atrás de crise, e isso a deixava debilitada.
Um dia resolveu procurar algum dirigente do templo espiritualista, pois estava determinada a deixar o lugar.
Ao ser recebida, contou tudo o que estava acontecendo e que desejava sair. A dirigente lhe perguntou o nome da mariposa. Fauve, a princípio, não teve coragem de falar, mas por fim acabou dizendo. A dirigente ficou surpresa e confirmou que a tal mariposa era casada.
Ela aconselhou Fauve a evitar qualquer contato com o homem, sem grandes alardes, pois era preciso evitar “criar inimizades”, já que não devíamos levar inimizades para outra vida.
Fauve saiu do templo triste e desanimada. Ao chegar em casa, foi direto para sua rede e mais uma vez chorou, chorou, chorou, sentindo sua alma sangrar de tanta tristeza.
Adoeceu não apenas do corpo, mas também da alma. Por esta razão, decidiu procurar uma psicanalista.
A psicanalista era uma senhora simpática e experiente. A consulta transcorreu da melhor maneira possível, diante da fragilidade emocional em que Fauve se encontrava.
Seu tratamento durou um looooooongo tempo.
Apesar de decepcionada com a atitude hipócrita da dirigente do templo espiritualista, continuou a frequentá-lo, mas passou a direcionar suas atividades para dias e horários em que não encontraria a tal mariposa.
Gira Roda! Roda Gira!
Roda Gira! Gira Roda!
Gira Roda! Roda Gira!
E o tempo passooooooou!
A nova mariposa
Fauve seguia sua vida. Sua loja virtual de venda de licor ia de vento em popa, e ela havia até recebido um prêmio em um concurso internacional pela qualidade de seus licores.
Nos meses de outono e inverno, continuava a promover seus “Chás Culturais” com muita música, dança e guloseimas. Depois da agitação dos meses de verão, quando turistas vinham se esbaldar naquela praia de águas mornas e tranquilas, esses eventos eram uma forma de tornar o período frio mais aconchegante para os moradores locais.
E todos adoooooooravam!
Certo dia, Fauve estava chegando ao templo espiritualista e, como estava cheia de sacolas com doações para as atividades assistenciais, um homem veio ao seu encontro para oferecer ajuda.
Ele parecia um tanto tímido na presença dela, mas como estava precisando de ajuda, não pensou muito nisso.
Ele pegou as sacolas e levou ao destino, depois os dois se separaram.
Dias depois, ela estava se preparando para deixar o templo espiritualista e, de repente, a nova mariposa a viu e deu um longo suspiro:
“Ahhhhhhhhhh!”
Naquele dia, Fauve estava bem elegante em um vestido verde de botões na frente e, além disso, havia cortado, pintado e escovado os cabelos.
Em outra ocasião, estava de costas mexendo em seu smartphone, e ele passou por ela dizendo num tom de voz bem baixo:
“Boa noiiiiiiite!”
Depois disso, todas as vezes que Fauve estava no templo espiritualista e a nova mariposa também, percebia que, apesar da aparente timidez, ele procurava chamar sua atenção.
Desta vez, ela não estava totalmente indiferente aos encantos da nova mariposa.
Num final de tarde, Fauve estava saindo do templo espiritualista e o novo dirigente veio falar com ela. Conversa vai, conversa vem, e ela fez um comentário que envolvia a nova mariposa. O dirigente lhe disse que ele era casado.
Naquele dia, Fauve chegou em sua casa e chorou, chorou, chorou, chorooooooou até quase sufocar.
Ficou pensando no que poderia haver de errado com ela, pois só conseguia atrair a atenção de homens casados.
Na juventude, em muitas ocasiões, havia se deixado levar apenas pelo desejo sexual e, por isso, se relacionou com homens casados. Mas agora não queria mais ser apenas desejada, queria ser amada, muiiiiiiito amada. Do contrário, continuaria sozinha.
E mais uma vez, ela adoeceeeeeeeu!
Toda aquela situação de profunda tristeza foi baixando sua imunidade, e com isso tinha frequentes problemas respiratórios.
Fauve decidiu se afastar por uns tempos do templo espiritualista. Resolveu se dar umas férias e foi passar algumas semanas em um hotel fazenda.
Dias depois do retorno de sua viagem, Fauve estava novamente no templo espiritualista.
Ela estava distraída com suas atividades em uma das salas e nem percebeu que a nova mariposa estava na porta, tentando chamar sua atenção.
Quando notou sua presença, cumprimentou-o, e ele se foi para suas atividades.
Depois que a mariposa saiu, Fauve ficou indignada com sua atitude.
Uma vez que ele era casado, por que precisava chegar ao templo e ir diretamente até a sala onde sabia que Fauve estaria?
Por quê? Por quê?
Dias depois, Fauve se encontrava novamente no templo espiritualista e, desta vez, ficou atenta para ver se a nova mariposa iria até a sala onde estava.
Minutos depois, lá estava ele parado na porta.
Então, com a voz trêmula de nervoso, Fauve disse:
“Pelo que eu ouvi dizer, o senhor é um homem casado, e eu sou alérgica a homens casados. Por isso, gostaria de lhe pedir que não falasse mais comigo.”
A nova mariposa virou as costas e foi embora, sem dizer uma palavra.
E silenciosamente, as lágrimas rolaram pelo rosto de Fauve.
E silenciosamente, as lágrimas rolaram pelo rosto de Fauve.
Ao chegar em casa, tomou um demorado banho, comeu um sanduíche com uma xícara de café e foi dormir.
No dia seguinte, enviou uma mensagem ao dirigente do templo espiritualista, que lhe havia dito que a mariposa era casada.
Contou tudo o que havia acontecido e pediu que reiterasse junto ao homem seu pedido.
E como resposta, Fauve obteve apenas um silêncio retumbante.
Um retumbante silêêêêêêncio!
Todos os dias, pela manhã, antes de se levantar da cama para suas atividades diárias, ficava por um tempo deitada chorando, chorando e chorando.
Quando estava no templo espiritualista, tornava-se mais arredia e silenciosa do que nunca.
Certa madrugada, Fauve acordou em prantos. Pegou seu xale, que estava pendurado perto da cama, e foi para a praia.
Era uma noite fria. Uma suave brisa soprava do mar, e no céu a lua crescente brilhava timidamente.
Fauve foi até a beira da praia, sentou-se na areia e ficou ali a pensar em sua vida.
De repente, o mar ficou agitado. O vento começou a soprar com mais intensidade e a noite virou dia!
E, para espanto de Fauve, do mar surgiu vagarosamente um homem que emitia intensa luminosidade.
A voz do homem se fez ouvir como um trovão:
“Fauve! Fauve! Quantas tempestades você já enfrentou ao longo de sua vida? E você, apesar dos pesares, sempre procurou se manter firme, sem se deixar abater ou esmorecer por muito tempo. Agora, mais do que nunca, é o momento de se manter firme e continuar seguindo em frente como você sempre fez. Infelizmente, os habitantes do Planeta Terra, em especial os do gênero masculino, ainda não aprenderam que o coração dos outros nããããããão é de papel. Que não se pode brincar com os sentimentos alheios. Se casou, foi por livre e espontânea vontade, portanto respeite a sua companheira. Os seres humanos também ainda não aprenderam que templo religioso não é parque de diversão nem local para brincar com os sentimentos alheios. Templo religioso é local para servir ao Criador do Universo! Infelizmente, os livros das principais religiões monoteístas foram escritos por homens e, por esta razão, trazem uma visão pouco caridosa das mulheres. Nestes livros, as mulheres são sempre as pecadoras ou aquelas que levam os homens à perdição!
Fauve! Fauve! Doce e meiga Fauve! Você sempre foi uma guerreira e, mais do que nunca, é hora de guerrear em prol da sua saúde mental! Você não tem por que se sentir culpada pelo fato de homens que frequentam aquele templo espiritualista não saberem controlar seus hormônios e, agindo de modo vil, usarem sua deficiência para se aproximarem de você com desejos ocultos.
Fauve! Fauve! Doce e meiga Fauve! Não se deixe abater! Estarei sempre aqui zelando por você, minha doce e meiga Fauve! Nunca se esqueça disso!”
De repente, o homem sumiu.
A noite voltou a ser noite.
O mar e o vento se acalmaram.
Fauve se levantou, rumou para sua casa e, ao chegar, retirou aquelas roupas sujas de areia, tomou um longo banho e depois foi para sua cama dormir.
Naquela noite, ela dormiu como há muito tempo não dormia.
Na manhã seguinte, ao acordar, abriu todas as janelas de sua casa para que o sol, com todo o seu esplendor, pudesse penetrar.
Foi para a cozinha, preparou um farto e suculento café da manhã para si e ficou ali sentada, ouvindo o som do mar lá na praia e se sentindo mais luminosa que o próprio sol.
Nunca mais! Nunca mais, Fauve pisou seus pés naquele templo espiritualista, mas seguiu servindo ao Criador do Universo.
Reflexão final – Um alerta às mulheres
A história de Fauve é mais do que um relato pessoal: é um alerta para todas as mulheres, especialmente aquelas que vivem com algum tipo de deficiência.
Ela nos mostra como, muitas vezes, homens se aproximam utilizando subterfúgios de gentileza e cuidado, mas escondem intenções que nada têm de puras.
É também um chamado para refletirmos sobre a hipocrisia que reina em certas instituições religiosas, onde o discurso de espiritualidade e amor ao próximo convive com atitudes de desrespeito e manipulação emocional.
E, por fim, é um lembrete de que os livros das tradições judaico-cristãs, escritos em sua maioria por homens, carregam uma visão pouco afetuosa da mulher, retratada quase sempre como pecadora ou responsável pela queda do homem.
Fauve nos ensina que:
– A mulher sempre sabe quando a aproximação não é sincera.
– A saúde emocional deve ser protegida com a mesma força que protegemos o corpo.
– Nenhuma mulher deve se sentir culpada por ser alvo de desejos ocultos ou atitudes vilãs.
– É preciso coragem para se afastar de ambientes que adoecem a alma, mesmo quando esses lugares se apresentam como “templos de fé”.

🌟 Que a história de Fauve inspire outras mulheres a reconhecerem sinais de manipulação, a se valorizarem e a não permitirem que sua luz seja apagada por quem não sabe respeitar.
Nota de Acessibilidade
Este texto é acompanhado por duas imagens criadas por Microsoft Copilot, especialmente para enriquecer a experiência de leitura de As Mariposas e garantir que pessoas com deficiência visual também possam compreender o simbolismo presente.
Imagem 1 – Capa
Banner de abertura da coluna, com o título em destaque . Ao fundo, um pôr do sol em tons quentes. No centro, aparece o título da crônica As Mariposas e o nome da autora, Katya Mattos. À direita, uma mulher de cabelos castanhos ondulados, em cadeira de rodas, olha contemplativamente para duas mariposas que voam ao seu redor, com o mar e o sol compondo a cena.
Imagem 2 – Encerramento da crônica
Ilustração simbólica da personagem Fauve sentada em uma rede à beira-mar, com o sol nascendo atrás dela. O mar está calmo, e uma figura luminosa se dissolve nas ondas, representando a visão espiritual que lhe trouxe força. Mariposas voam ao redor, simbolizando os homens que rondaram sua vida. A cena transmite paz, introspecção e superação.