Março – mês em que toda mulher, de alguma forma, conhece os simbolismos de conscientização sobre a nossa humanidade, capacidade, potência… e o debate sobre a importância de respeitar nossa vida tal qual a sociedade costumeiramente faz com demais sujeitos.
E uma vez que me cansa ver as táticas do mercado para lidarmos com esse lembrete anual (da diversa existência das mulheres em tantas formas, classes, saberes, profissões e demais texturas da realidade), aqui eu vou optar por materializar essa “aura feminina” para além do rosa estampado, para simbolizar nosso gênero, ou mesmo das temáticas costumeiramente abordadas, para invocar certa empatia das complexidades que vivemos.

Pronto, mana: já ultrapassamos o véu da exaustão e agora podemos compartilhar vivências para além de dores e incômodos!
Bueno, março! Este mês é particularmente especial pra mim por tantos marcadores (temporais, de gênero e profissão) que ele representa para e sobre mim: mês em que nasci, mês de celebração das lutas e conquistas feministas e mês em que celebramos o dia da DJzada.
E nessa intersecção toda, logo no começo da minha carreira na discotecagem, descobri Sonia Abreu – a primeira DJ do Brasil!
Imagina isso: 1967, nos primeiros anos de Ditadura Militar no Brasil, Sonia reuniu o melhor do Rock na sua primeira discotecagem, quando tinha apenas 16 anos de idade. Foi radialista na Excelsior (que em 1991 foi extinta e substituída pela CBN), quando também desenvolveu marcantes seleções musicais para as coletâneas lançadas em vinil – “Viaje com a Excelsior, Máquina do som”.
Mas o projeto dela que mais me inspirou mesmo, foi o Ondas Tropicais! Saca só: 1982, já no final da Ditadura Militar, Sonia Abreu inicia uma programação musical no formato de rádio, só que com a diferença de ser feita nas ruas! Sua rádio ambulante teve como estrutura um Fusca, uma Kombi, um trio elétrico… Pra ela não tinha tempo ruim: ela fazia acontecer, com o máximo de otimismo possível. Aliás, aproveito para citar as “palavras messiânicas”, como definiram Claudia Assef e Alexandre de Melo (na biografia de Sonia Abreu), que Sonia disse na edição inaugural da rádio ambulante: “Para vocês que sobem e descem a Rua Augusta, sobem e descem na vida, o sonho não acabou. O tempo é todo o tempo, e a música é a bíblia do futuro. Viva John Lennon!” – uma homenagem póstuma prestada ao Beatle, já que a DJ era fã da banda.
Tive o prazer e a honra de conhecê-la brevemente, entre 2018 e 2019, quando a encontrei algumas vezes na Patuá Discos. Pausa pra absorver a importância absoluta da frase que acabamos de passar: sim (durante os momentos em que nos encontramos), ouvimos as mesmas músicas, curtimos as mesmas mixagens, respiramos o mesmo ar!

Pois é, mana: sou DJ e conheci a primeira DJ do Brasil! Espero estar honrando essa troca ao seguir espalhando a palavra de sua existência, especialmente de seu trabalho, como referência à classe profissional a qual pertenço. Afinal, na minha opinião, ela conseguiu desenvolver o propósito da discotecagem de uma forma inspiradora: Ondas Tropicais democratizou o acesso à linguagem da discotecagem em sua raíz (na rua, direto com o público) e simultaneamente concretizou o objetivo principal e basal da discotecagem que é compartilhar música.
Ok, estamos em 2026 e o significado dessas palavras é outro no nosso modo automático de leitura, então vou pedir sua paciência para mais uma breve pausa, enquanto degustamos o real significado de compartilhar quando falamos, por exemplo, do contexto da América Latina: compartilhar música, na década de 1980, era reunir quem tinha o equipamento de som, com quem tinha a aparelhagem para leitura e reprodução da mídia física, com quem tinha as músicas do momento (sempre em mídias físicas). Era um esforço coletivo motivado por um único motivo: o desejo de xambrar – e claro, a sapiência de que a xambração coletiva é muito mais legal do que a solitária! Enfim, o resumo é que era fácil tudo virar um motivo pra reunir pessoas e isso acabar virando festa.
Aí seguimos no salto temporal: 2026, a gente já não tem mais essa necessidade de juntar as pessoas pra reunir acessos tecnológicos (fazendo o devido recorte de classe e território) pra compartilhar um som – hoje, é só acessar e dar play. Ainda assim, temos o que habitualmente chamamos de “retomada das mídias físicas” pelo grande público. Tem quem define como nostalgia, tem quem chame de “personalidade” atrelada ao consumo musical.

Após muitas reflexões, pra além do que podemos analisar sobre a relação entre indivíduo e mercadoria (forma de consumo como apreço e apreciação; status da exposição pública de gostos pessoais, preciosismo sobre gravação e estado da mídia em si; privilégio sobre a desaceleração e escolha sobre utilização e investimento de tempo, espaço e recursos), acho que é possível dar uma distanciada desse discurso mais frequente e perceber que também há uma busca de outras formas de conexões humanas, para além de um futurismo que é sufocante em sua hipótese distópica.
Sim: eu vou apelar pra teoria de que este comportamento, materializado no consumo, também é uma busca cultural! Ainda não furamos a bolha, por completo, do consumo e vivência individualizados, mas acho que ainda há esperança: buscamos nos conectar de forma mais íntima e pessoal com aquilo que dizemos que gostamos, nos debruçamos em expedições de garimpo em busca de novidade pro acervo, nos dedicamos a manter esse repertório com mais cuidado do que o digital exigiria de nós.
O passo seguinte, é compartilhar. Um bom começo, claro, é a comunicação disso nas redes sociais: criar, de alguma forma, uma comunidade que se entende nessa escolha e gosto. Mas quando a coisa fica só no digital, impalpável, parece que fica o vazio de algo que não foi completamente satisfeito. Porque é isso: quando a solução é fácil demais, resumida a algum dinheiro gasto e pouca energia própria dedicada àquilo, esvazia-se o real sentido cultural daquilo, reduzindo-o apenas ao mercadológico.
Mana, temos que sempre nos lembrar: cultura é sobre cultivar. E o cultivo não é apenas o dinheiro que é gasto em coisas ou serviços para que se tenha o que se deseja: cultivo é sobre a atenção que é dedicada ao que se deseja, o conhecimento adquirido, a forma como compartilhamos e mantemos essa cultura.
A mídia física, geralmente, exige essa relação humana em algum nível, e a conclusão da minha reflexão é exatamente essa: falta nos dedicarmos ao “revival” de nos reunirmos, de ter mais motivos para tudo virar festa. Quem sabe, assim, a gente consiga retirar um pouco da contemporânea culpa sobre o ócio e o lazer; e até excluir o estigma de que festa se resume a algazarra com ilegalidades e imoralidades.
E, simultaneamente, quem sabe a materialidade restituída às coisas, retorne a corporalidade da nossa existência. Corpos livres, compartilhando música e celebrando o momento: um ato político para servir de terreno fértil para cultivarmos a utopia.
Pra encerrar esta edição, trago aqui uma lista de sets de DJs mulheres que se apresentaram ao longo de 2025, no Lacuna Tropical (projeto fundado por mim), pra você se conectar com artistas da cena e ainda curtir uma vibe:
- Bem Lisboa: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-66-bem-lisboa/
- Fê Botelho: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2024-61-f%C3%AA-botelho/
- Jeni Janes: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-73-jeni-janes/
- Lycra Preta: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-90-lycra-preta/
- Paolla B: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-81-paolla-b/
- Raquel Zanella: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-82-raquel-zanella/
- Tiemi Yamamoto: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-68-tiemi-yamamoto/
- Zizi: https://www.mixcloud.com/lacunatropical/radio-show-2025-77-zizii/
Edições de B2B (formato de performance na qual 2 DJs mixam de forma conjunta um mesmo set) entre uma convidada e eu:
- Ella de Vuono: https://youtu.be/eLbyuPegu4g?si=AA802Ffh2Qm91T58
- Paula Chalup: https://youtu.be/oruZ-C9q-SU?si=eCq9PHrcJuc679Ol
- Rafa Jazz: https://youtu.be/p7mECqbOUMc?si=r1beO8_U0Vgv_AHc
Até a próxima edição!