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Antes de ser tudo que se ensina, antes de ser contida, antes que eu, enfim, colocasse sapatos, penteasse cabelo, fechasse as pernas, parasse de usar os vestidos que me faziam borboletear sem apertos ou marcas porque faziam com que eu parecesse com “bujão de gás de capinha”. Era um outro antes, em que ainda desenhava, mandava cartinhas, bilhetes, montava cenários de papel, me entranhava no jardim e me perdia no tempo das coisas miúdas, como eu era.

Isso foi antes ou depois de correr pra casa assustada por ouvir coisas que eu não conseguia entender, mas que sabia que eram perigosas de se ouvir sozinha? Isso deve ter sido um pouco depois que me disseram, por amor, que dali pra frente seria mais adequado vestir preto, com “decote em V”, com mangas que escondessem certas coisas que não me “valorizavam”. Me valorizar, aliás, passou a ser uma palavra importante, incompreensível e inegociável “prás gentes grandes”, como praquela moça que parou o carro num dia qualquer de brincadeira na rua, alertando solidariamente e gritando, “fecha as pernas que sua calcinha está aparecendo!!!” 

Os vestidos! Sempre perigosos os vestidos que nunca mais pude escolher, como parei de poder escolher o que queria vestir e poder parecer.

Ainda aí eu desenhava, pintava, lia, colecionava as fitas k7 de histórias que dividiam comigo a insônia, os medos de escuro e do fogo. Muito medo de fogo! Medo dele tomar conta de casa e não poder salvar meus adultos com meu corpinho que era grande demais pra idade, pequeno de mais pra caber as coisas. Tive amor! Tive afeto, escuta e respeito a muitas outras partes bonitas, quando tínhamos nós o jeito certo de valor. A música, as bibliotecas, os jardins e florestas, chão de terra escura e fina com cheiro de eucalipto, muitos outros tipos de vida e de formas de ser e estar no mundo. Tive por algum tempo a alegria de tagarelar sem fim mesmo sem saber o que queria dizer, contando e cantando as minhas próprias narrativas. Na mesma medida, tinha os dons de ternura silêncio de quem procura mistério no tempo reticente dos adultos.

Gostava dos adultos pelos mesmos motivos de que hoje gosto de gostar dos gatos. Colecionava pausas, gestos e fluxos daquelas mágicas que faziam quando distraídos, entre as gambiarras, datilografias, assobios, copos girando cheios de espuma, o jeito que as facas dançavam sobre o tudo antes de virar outras coisas… 

Tive muito amor! E aos poucos fui entendendo que o silencio me permitia testemunhar dos adultos o melhor e o mais secreto deles. Da mesma forma, eu gostava do meu silêncio e do mundo que ele compartilhava comigo. A música de sempre, a essa atura, já escrevia coisas no quadro verde que meus olhos não conseguiam guardar, em linhas e bolinhas que dançavam ao sabor do astigmatismo, em sequencias de sons desconexos que até hoje não saberia repetir. Eu ainda tinha as tintas, mas elas agora se esfarelavam por cima dos papeis, acumulando formas sem história, casas vazias, natureza morta, pontos de fuga…  Ainda tinha alma e devia lembrar dos caminhos que ela desenhava no corpo mas, por tanto amor, confundi amar com silêncio; um silêncio diferente e cheio de vazios E as tintas secaram; e levaram com elas um punhado das coisas miúdas, ainda úmidas, que quando arrastadas pelo caminho conseguiram, ainda, esgueirar algum limo pelas frestas, entranhar nas rachaduras, se esconder no fundo falso dos armários… 

Peraltas, eu e as infiltrações, construímos abrigos, pontos de encontro esporádicos dentro de baús mais pesados que a vontade dos curiosos. Lá, naquelas gavetas que um dia moraram as historinhas, deixávamos pequenos presentes umas para as outras, como uma pedra, um botão, um rabisco, uma flor seca, um rascunho, uma ideia que precisava ser tagarelada em um outro espaço-tempo. Ali fermentávamos; e assim foi por muitos anos; e de certa forma ainda é. 

Em algum momento, pelo bem e pelo mal, as coisas miúdas ficaram grandes demais, rebeldes demais, com aquele cheiro de levedura que não soube, ou não pude esconder. E muitas vezes escorremos e vasamos, e maior parte das vezes troquei o tamanho das caixas, dos armários, dos conjugados, das metrópoles, sem sucesso.

Tentei caber obstinadamente, eu e as coisas grandes demais, sempre partindo quando apertava muito, sempre tentando assumir outra e mais outra forma, tentando tampar as goteiras, vedar os telhados; desviar córregos; transplantar riachos; fechar a boca; fechar o peito; fechar as janelas; Inutilmente. O que tem que cair, cai; o que tem que rolar, rola; assim como são as águas pro mar e os ventos quando não encontram floresta. 

Tinhosas, as coisas grandes demais são infinitas e terrivelmente irresistíveis pra quem é dado a mistérios. E as coisas miúdas, que não nos ouçam blasfemar, com razão se ofendem quando as salgamos demais no tempo aberto.

Grandes ou pequenas, as coisas que SÃO têm brio! 

Mixuruca somos nós, na covardia do adiamento!

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