Se você, como eu, foi criança na década de 80, vai se lembrar que durante muitos anos 19 de abril era o dia de termos nossas caras pintadas com tinta guache nas escolas, ouvir Xuxa cantar “brincar de índio” e repetir gestos estereotipados para representar o que acreditava-se ser o modo de vida do indígena, reforçando preconceitos. Para uma geração inteira que hoje faz meio século de vida, uma vez passadas as atividades do “dia do índio”, planejadas pelas bem intencionadas professoras da educação infantil, os povos que aqui chegaram muito antes de nós, deixavam de existir, especialmente se você fosse sudestino, urbano e sem contato nenhum com a natureza, esses povos existiam apenas em seu imaginário. E ainda hoje, apesar dos estereótipos enraizados em um Brasil que precisa tratar suas feridas de um passado colonial violento com os povos originários, eles existem, persistem e resistem. Para as 391 etnias que, de acordo com o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), falam 295 línguas indígenas, o mês de abril é mais um abril de luta por terra, por identidade, uma luta que já dura 526 anos.
Tenho pensado muito em identidades, e essa coluna surge dessa necessidade de pensar as identidades, a minha e a sua claro, mas a dos povos originários, palestinos e migrantes também. O que os (nos) torna quem são (somos)? Do que não podem (os) abrir mão para ser(mos) quem são(somos)? Como migrante, cidadã de duas Pátrias, sempre me pego pensando em meus valores, os mesmos que me fazem solidária aos que lutam em defesa dos rios e florestas como parte de um ecossistema muito maior do que a minha (e a sua) breve e curta existência na Terra. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, é mais provável que você, assim como eu, tenha crescido distante de um rio que pudesse nadar em sua infância, ou mais distante ainda, da floresta Amazônica e de sua gigante bacia hidrográfica. Eu cresci no interior de São Paulo, próximo da Bacia Hidrográfica dos rios Sorocaba e Médio Tietê e, como você pode imaginar, não tive a chance de nadar em nenhum deles. Minha memória de infância mais próxima de um rio foi quando meus avós maternos me levaram , aos 11 anos, para um passeio de barco pela eclusa de Barra Bonita. Nunca esqueci a minha surpresa ao almoçar em um barco “elevador”, testemunhando uma monumental obra de engenharia hidráulica que permitia que o navio vencesse um desnível de 25 metros! Muito remotamente me lembro da tentativa de meu avô paterno de levar os netos pescar no rio Tietê, nunca mais pesquei.
Cresci, virei fã de atividades ao ar livre, fiz trilhas e acampei no Brasil e fora dele, mergulhei e nadei em uma cachoeira de água gelada dentro de uma caverna no PETAR (Parque Estadual Turístico Alto do Ribeira), mergulhei em um lago gelado no Canadá e em águas mornas do rio Tapajós. A água, o mar e os rios sempre me seduziram. Não sei explicar minha atração pelas águas, pelos rios. Gosto de pensar que minha ancestralidade não é apenas europeia, mas também indígena, capricho meu. Talvez não. Lendo Viva O Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro – romance épico que narra mais de quatro séculos de história do Brasil desde o período colonial até o século XX – pensei que talvez não.
Capricho ou não, me emocionei muito no último 22 de janeiro de 2026, quando mulheres indígenas – lideradas por Alessandra Korap Munduruku, Maria Leusa Munduruku e Auricelia Arapiun – do médio e baixo Tapajós tomaram a linha de frente na mobilização contra o decreto governamental que abre rios Amazônicos à concessão privada. Foram cerca de 30 dias de ocupação dos povos indígenas no rio Tapajós, no Pará, para pressionar o Governo Federal pela revogação do Decreto 12.600/2025, assinado em agosto de 2025 pelo Presidente da República. Diante da ameaça do projeto que prometia entregar mais de 3 mil quilômetros de trechos navegáveis dos rios amazônicos à iniciativa privada, para atender aos interesses do agronegócio, mulheres, jovens, crianças e idosos dos povos originários do baixo, médio e alto Tapajós, além de representantes Kayapó e Panará, vindos da região do Alto Xingu em Mato Grosso e Pará, ocuparam as instalações do porto da empresa estadunidense Cargill. A pressão funcionou. A notícia da revogação do decreto, no dia 23 de fevereiro de 2026, representou uma vitória concreta da luta contra a privatização dos rios da Amazônia e da mercantilização da natureza. A imagem da larga faixa verde escrito em letras pretas “O rio Tapajós não está à venda”, durante a ocupação, me levou de volta para quando, muitos anos após o passeio na eclusa em Barra Bonita, tomei o banho de rio mais inesquecível de minha vida!
Em janeiro de 2022 – exatos quatro anos antes da ocupação da Cargill – estive no segundo maior estado do Brasil, situado inteiramente dentro da floresta amazônica, centro da biodiversidade mundial e zona de uma disputa violenta movida por interesses econômicos internacionais. O meu destino? Alter do Chão. Em cada um dos oito dias que passei lá, eu desejava que todo Brasileiro tivesse o mesmo privilégio de pisar as areias brancas das praias fluviais do majestoso rio Tapajós, visse o ballet dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa de perto no rio Arapiuns e o inesquecível entardecer na Ilha do Amor – a ponta de areia ligada ao continente – onde de um lado está o Lago Verde e do outro o Rio Tapajós -, subisse o Morro da Piraoca, almoçasse na comunidade ribeirinha Coroca e percorresse a trilha da Floresta Nacional do Tapajós, um dos lugares mais belos da região. Na FLONA Jamaraquá, eu caminhei por 9 km dentro da vegetação densa, pude ver a diferença entre uma mata secundária e primária (pouco afetada pelas ações do homem) e me encantei com a gigante sumaúma – a árvore da vida – tomei banho nas límpidas águas do igapó em meio à mata primária e fiz um passeio de canoa em um igarapé.

As águas do rio Tapajós abraçam a Vila de Alter do Chão e, naquele janeiro de 2022, me abraçaram também. Jamais esqueci o carinho desse gigante amazônico com o meu corpo, nem a sensação de experimentar o verdadeiro açaí paraense – bem diferente do que se tem fora da região norte – a caldeirada, o pato no tucupi, o jambu e os peixes de rio espetaculares como o pirarucu, o tambaqui e o namorado. Enquanto escrevo, salivo e sinto o abraço das águas mornas do rio Tapajós novamente. Infelizmente, nem todos poderão desfrutar desse paraíso dentro da floresta amazônica e, mesmo os que tenham condições, em um futuro não muito distante, podem não desfrutar da mesma beleza que eu desfrutei. Em um de meus passeios de lancha para chegar às praias mais distantes de Alter, o piloto e guia, nascido e criado na vila, me atualizava sobre a crescente especulação imobiliária à beira do rio Tapajós quando, para minha surpresa, em meio à floresta, eu vejo um prédio alto aparentando uma construção abandonada há um bom tempo. Segundo o barqueiro ribeirinho, o prédio era o início da construção de um resort em área ambiental protegida e, por isso, estava em litígio na justiça e a obra parou.
Em meu último dia em Alter do Chão, conheci uma família descendente do povo Borari e a matriarca me contou mais sobre como a especulação imobiliária é um grave conflito socioambiental que pressiona o território, impulsionando grilagem e ocupações ilegais, falou sobre o avanço de empreendimentos turísticos e condomínios de luxo ameaçando a identidade local e provocando a resistência de seu povo contra a destruição da APA (Área de Proteção Ambiental). Enquanto ela fazia sua arte em minha perna direita com os traços que aprendeu com sua avó, eu escutava a história de seus ancestrais e a resistência indígena do povo Borari que luta ativamente contra a grilagem e as construções ilegais em seu território ancestral, incluindo a demolição de muros de futuros condomínios. Desde 2015 o Ministério Público Federal investiga esquema de grilagem e ocupação ilegal associado ao aumento de queimadas na região. A especulação avança disfarçada de “progresso

”, ela dizia enquanto deslizava suas mãos de artista com seu traçado fino em minha perna. “A pressão especulativa gera uma valorização artificial dos terrenos, expulsando moradores tradicionais e comprometendo a função social da terra”.
Eu nunca mais fui a mesma após visitar Alter do Chão, após me banhar no Tapajós naquele entardecer que pintou o céu com rajadas de tons de rosa e laranja em um perfeito encontro com as águas do majestoso afluente do Amazonas. Quatro anos passaram e eu continuo trabalhando no meu letramento sobre os povos originários brasileiros tão importantes se quisermos mitigar os já dramáticos efeitos da crise climática que sofremos.

Conhecer territórios indígenas em santuários ecológicos e explorar a floresta amazônica in loco é uma experiência tão enriquecedora quanto pedagógica. No entanto, não se trata de uma realidade possível para todos, mas há outras formas de viajar para esses mundos e a literatura é a mais mágica delas. No mesmo mês em que as mulheres indígenas lideravam a ocupação em Santarém, eu lia Maria Altamira da autora Goiana Maria José Silveira. Finalista dos prêmios Jabuti e Oceanos, a obra nos leva de 1970 até os anos recentes através dos deslocamentos paralelos de duas mulheres, mãe e filha, impactadas por desastres ambientais. Maria Altamira coloca lado a lado uma catástrofe provocada pela natureza (um terremoto no Peru) e outra provocada por uma decisão humana (a construção da usina de Belo Monte). Ler Maria Altamira é acompanhar a presença sempre ativa da população indígena e ribeirinha no combate contra políticas de aniquilamento que afetam todo o planeta em relação às quais grande parte dele permanece indiferente. Voltei de Alter do Chão, em janeiro de 2022, me perguntando: onde estávamos enquanto toda essa destruição se implantava? Terminei a leitura de Maria Altamira e acompanhei a ocupação indígena no Tapajós, em fevereiro de 2026, me perguntando: “O que falarão, no futuro, dessa geração que paralisou esperando o fim do mundo enquanto os rios viravam mercadoria?”
Nós – os napes (brancos) – temos importante papel nessa luta que não é somente dos povos originários por sua terra e por seu rio. Respiramos o mesmo ar, o rio que nos abastece é o mesmo, a floresta também é nossa, mas chegamos depois e o conhecimento ancestral é dos Boraris, dos Yanomamis, dos Guajajaras, dos Tupinambás, dos Tupis, dos Kaingangs, das quase 400 etnias indígenas brasileiras. Paramos de escutar os povos originários, escutamos o lucro, o capital. O filósofo e antropólogo francês Bruno Latur fala da quarta ferida narcísica da humanidade que é a ferida climática, Latur defende que a crise climática é humana, causada por um narcisismo que se vê como mais importante, separando assim a cultura e a identidade da natureza. Enquanto os povos originários nunca separaram sua cultura e identidade da natureza. Passou da hora de pararmos de “brincar de índio” como cantou a Xuxa na década de 80, ouvirmos os povos originários e curarmos nossa quarta ferida. Afinal, como disse Ailton Krenak em Futuro Ancestral : “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”.