Como é cantar pra si mesmo primeiro?

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Como é cantar pra si mesmo primeiro?

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Encontrando nosso sentir mais sincero

Se você canta no carro, no chuveiro, no karaokê, faz aulas de canto, canta profissionalmente, ou canta em qualquer outra situação: te convido a perceber ou lembrar que a voz está sempre com a gente, ela é íntima e companheira, e costuma nos revelar algo além. Acompanho o processo de investigação, de mapeamento e de liberação da voz de outras pessoas há quase 15 anos e não canso de me surpreender. Confesso que já tive momentos em que eu questionava se esse trabalho ainda fazia sentido, mas toda vez ele renasce diferente, me mostrando novos caminhos pra olhar pra minha voz e pra minha pesquisa, sempre a partir dessa relação que se estabelece quando encontro outro ser cantante. 

Essa semana, tive um papo com o Daniel que já faz essa mentoria comigo há uns 2 anos e fiquei com vontade de trazer esse assunto pra cá. Falamos sobre a consciência da nossa intenção quando estamos cantando, em como isso nos afeta e como muitas vezes pode trazer julgamentos e comprometer nossa conexão com a gente mesmo e com a nossa presença. Quando estamos cantando e nos preocupamos demais com o que o outro está ouvindo, nos esquecemos de que somos a nossa primeira escuta e não fazemos o exercício de auto-apreciação e conexão com a gente mesmo que cultiva essa costura íntima com o nosso canto. Estamos cantando mais para o julgamento do outro do que para o nosso próprio prazer. E então, passamos a fazer aquilo que gostamos de um jeito que não é necessariamente gostoso pra gente, em que a gente se força a ser outra coisa, a cantar de um outro jeito, o que nos cansa, nos machuca e muitas vezes faz perder o sentido que nos trouxe até o cantar.

Acredito que não existe como fazer algo apenas para fora, para o outro. Estamos o tempo todo implicados nessa equação. Quando queremos que a audiência se sinta satisfeita o tempo todo, arriscamos perder não apenas o prazer de cantar mas também a nossa autenticidade, e entrar nesse nicho onde tudo é muito pasteurizado, é mais do mesmo, é a formulinha. No entanto, quando conseguimos afirmar que fazemos o que fazemos pra nós mesmos, que cantamos, dançamos, escrevemos, desenhamos pra nós, porque gostamos, porque nos faz bem, acredito que já estamos muito mais alinhados com a nossa autenticidade porque nossa validação interna, a sensação de que estamos sendo fiéis a quem somos tem mais força e nos orienta muito mais do que a expectativa e o reconhecimento externos. 

Sim, estamos em relação o tempo todo e não é algo do qual podemos fugir. Mesmo que a gente não se importe muito com o que o outro vai pensar, o outro existe e, quando tentamos nos isolar e evitamos outras pessoas, elas se relacionam com a nossa não-relação e isso também estabelece um tipo de relação. Ainda assim, muitas vezes é justamente por nos importarmos com como o outro vai reagir que escondemos e guardamos as coisas que mais amamos fazer. 

Quando passamos a cantar pra nós mesmos primeiro, conduzindo nossa escuta mais profundamente, nos tornamos mais capazes de nos conectarmos com o outro. Nessa escuta profunda podemos tocar aquilo que não é esperado nem por nós mesmos: nossa vulnerabilidade, nossa nudez de alma, nosso sentir mais sincero. “E se me acharem muito louca?” Tem quem vai nos achar muito louca, sim! Quem não gosta vai desgostar, mas temos a oportunidade de encontrar quem vai simplesmente adorar, vai se identificar com a nossa coragem, nossa estranheza, nossa dor, nossa delícia, nossa luz, nossa sombra e nossa humanidade. O gosto ou o desgosto da pessoa fala sobre as referências dela e o que ela aprecia muito mais do que sobre nós e o que criamos ou fazemos.

O interessante é que quando estamos em relação, estamos dialogando em alguma medida. Quando encontro alguém pra conversar, sempre prefiro me sentar de frente com a pessoa, mais do que uma do ladinho da outra. E esse jeito de estar em diálogo corresponde a um posicionamento que na astrologia chamamos de oposição: quem está diante de mim percebe o que eu não vejo enquanto eu observo o que ela não vê. O olhar do outro é complementar e a sua visão, mesmo que diferente da expectativa, pode nos ajudar a construir outras coisas e de outros jeitos. Quem recebe o que fazemos, criamos e somos, nos oferece, então, esse espelho. 

A intenção presume o nosso poder de escolha porque é através dela que decidimos como queremos nos relacionar com tudo na vida. Ela é o que potencializa nossa manifestação, é o que direciona nossa energia, nossa atenção e nossa consciência, nos trazendo foco. Com a clareza da nossa intenção, podemos ultrapassar o medo e os julgamentos pra juntos podermos compartilhar o fato de que aquilo que antes era íntimo e que existia apenas pra mim, agora existe pro outro também. Nos tornamos testemunhas dessa existência e tem tanta beleza em partilhar desse momento…

Trago pra nós algumas perguntas que podem nos guiar nesse caminho:

  • “Qual pode ser a sua intenção quando você fala? Falar mais pausado, respirar melhor, não gritar, não fazer força?”
  • “Qual é a sua intenção quando você escolhe cantar desse ou daquele jeito? É se divertir? É impressionar? É provar algo pra alguém?”
  • “Qual é a sua intenção quando você está cantando e se julgando? É se maltratar? É se desmotivar? Qual é a sua intenção por trás dessa atitude?”
  • “Qual é a sua intenção quando você escolhe cantar apreciando a sua voz? É conhecer mais sobre si? É se aceitar? É brincar com o que já se tem?”
  • “Como é cantar pra si mesmo primeiro? O que te chama mais a atenção? Como é cantar com a escuta curiosa?”

Existem muitas outras camadas pra além dessas perguntas que já podem espelhar diversas possibilidades pra nossa relação com a nossa voz, nosso canto, nossa dança, nossa escrita, e tudo aquilo que queremos realizar no mundo. Nossas intenções podem nos ajudar a encontrar esse estado de imenso auto-amor, podem nos ajudar a abrir essa porta e começar a procurar por maneiras mais amorosas, mais gentis e mais generosas de nos relacionarmos com a gente, com o que a gente faz, e até mesmo com quem a gente encontra pelo caminho. Convido a gente a cantar sem julgamentos, buscando através da escuta  atenta o que já está disponível e experimentar com o que temos, se divertir e fazer ainda mais disso que nos empolga, nos excita e faz o nosso coração vibrar!

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Respostas de 3

  1. Conhecendo o Daniel desde 2009 consigo visualizar essa conversa de vocês hahaha mesmo já tendo banda, mesmo se apresentando pra públicos enormes, ele sempre foi alguém que cantou mais pra si do que pros outros e ter tido a honra de dividir teto com ele por alguns anos não só me mostrou o quanto isso torna as coisas mais felizes como eu SOU feliz de ter aprendido isso com ele. Sábado passado foi numa bateria e guitarra tirando um som em um churrasco entre amigos, em 2016 na sala do nosso apartamento com um violão criando paródias e dando risada sobre nossas vidas, em 2011 no quintal de uma república tocando Katty Perry versão rock’n roll pra uma rapaziada. Ele foi protagonista de todos esses momentos, não só pro seu público, mas principalmente do show que tava rolando na cabeça dele nesses momentos, exatamente o mesmo show que começa quando entramos no chuveiro ou abrimos uma cerveja pra cozinhar sem pressa num final de semana.

    Eu, filho de mineira que ama conversar e cantar, gosto de chamar isso de ser melhor amigo da gente mesmo, de ter sempre alguém pra conversar, de ser o público mais fiel do nosso show. Por mais gente assim que gosta de cantar por gostar de cantar!

    1. Oi Cássio! Adorei saber dessas histórias do Daniel, isso aí ele nunca me contou! Hahahah

      Gosto disso de ser nosso público mais fiel, e faz mais sentido quando a gente busca manter isso, principalmente quando estamos no processo de nos aperfeiçoar no que a gente já gosta de fazer, né?

      Pq as vezes fica difícil quando surgem julgamentos no meio desse processo, então é sempre bom voltar e reconectar com essa primeira faísca!

      A escuta tem sido a chave nisso pra mim pq a gente fica com a referência das vozes das pessoas que gostamos coladas no nosso ouvido, muitas vezes querendo imitar e até ficando chateados ou desmotivados quando não conseguimos…
      O que acho importante é lembrar que o que a gente mais quer é descobrir a gente lá no fundinho da cantoria, pra gente se parecer cada vez mais com a gente mesmo ( e isso dá uma alegria sem tamanho!!)

      Obrigada por compartilhar sua experiência aqui comigo!

  2. Sempre passo a semana pensando e refletindo sobre as trocas e aprendizados que partilhamos nas nossas mentorias semanais e, o que sempre me toca, é como TUDO que falamos é sobre cantar, ao mesmo tempo em que NADA do que falamos é sobre cantar. Com esse texto nao foi diferente!

    Eu me vejo constantemente cantando apenas para “fora”, tentando soar da forma que eu julgo ser a que mais vai agradar o receptor, o externo, o outro… Por muitas vezes falando coisas que querem que eu fale, vivendo experiencias que querem que eu viva…

    Por um tempo isso pareceu funcionar, trouxe algum prazer e conforto, mas chega uma hora que a conta chega. Viver constantemente tentando ser ou soar o que não somos cansa, e cansa muito! O maior medo que tive ao perceber isso foi de talvez ser tarde demais a ponto de nao ser capaz de lembrar quem eu realmente sou (ou fui?).. Mas felizmente, parece que o que somos de verdade nunca morre totalmente, apenas hiberna profundamente hahaha

    Nos ultimos tempos, a Fer tem meu auxiliado no processo de voltar olhar para dentro e calibrar minha intencao, cantando primeiro para mim, sendo meu primeiro e mais apaixonado ouvinte. Tenho aprendido muito ao longo desse processo e, estou ancioso para enfim, descobrir minha verdadeira voz. E como ja disse, como nada é apenas sobre cantar, espero tambem que ser capaz de expandir isso para outras areas da minha vida e quem sabe me conhecer melhor no final do caminho =)

    Desejo que todos sejam capazes de fazer o mesmo =)

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