Crônicas de uma Escrevivente estreia para pensar migrações, multiculturalismo e identidades entre duas pátrias e o “não lugar”

Você está lendo

Crônicas de uma Escrevivente estreia para pensar migrações, multiculturalismo e identidades entre duas pátrias e o “não lugar”

Compartilhar artigo

Escrito por

Deixa eu me apresentar, que eu acabei de chegar, depois que me escutar você vai lembrar meu nome – assim espero – e, se você leu cantando até aqui e já emendou “é que eu sou dum lugar…”, sabe que a dupla Anavitória fez um belíssimo trabalho compondo Amarelo Azul e Branco em 2021. Sou a Paula, e sim, eu sou dum lugar onde o céu molha o chão, mas também sou de outros muitos lugares; não sou dum lugar. Os meus lugares (e não lugares) são múltiplos, multilíngues e multiculturais; devo ser muitas desde quando o amarelo, azul e o branco da pátria que me pariu se fundiram com o vermelho e o branco da minha segunda pátria. Aprendi com minhas andanças por esse mundão de Deus que entre as pátrias e os lugares há não lugares, o que parece (in)completo, vazio está. Ao emigrar dei de cara com o estranhamento, fui do estranho para o estrangeiro, das línguas estrangeiras que conheço para o estranhamento de minha própria língua. Ao emigrar aprendi que o estranho me era familiar e o familiar se tornou estranho. E cá estou eu entre Brasil e Canadá: entre as duas pátrias e um não lugar.

Montagem no Canva

Vivi em Toronto, no Canadá de 2006 a 2013, e lá gestei e pari meu filho; o devir mãe em território estrangeiro é parte de minha trajetória, entender quatro idiomas me formou e pertencer a duas pátrias deixa marcas, vazios; faz brotar novas sensações e (não) lugares. Sou migrante, sempre fui; desde quando deixei a pequena Boituva, no interior de SP, para cursar Jornalismo na capital Paulista, ou melhor, nasci migrante, alma cigana sabe? Espírito viajante e explorador, desapegado, cigano, sagitariana raiz, inimiga do fim, dizem às más línguas!

Cresci com olhos janela; janela de ver o mundo como casa. O corpo menina floresceu jovem mulher e cresceu locomotiva, saltou de estação em estação, algumas mudaram o rumo da minha história, outras nem tanto. Cresci com mente asa, asa que alcança territórios estranhos sem pisar o chão que o outro pisa e, com o passar dos anos, muitos anos, aprendi a compreender o outro sem precisar pisar o mesmo chão, apenas com asas, mente e coração. Minhas idas e vindas, meu desejo nato de entender o estrangeiro e o estranho, impulsionaram meu corpo locomotiva, minha mente asa e meus olhos janela para uma viagem de novas descobertas em meu próprio território estrangeiro; iniciei minha tradução, encontrei outras versões de mim mesma, versões que o vernáculo diverso do outro me ajudou a decodificar. Melhor dizendo, da outra, das outras. Precisei viver cinco décadas para sentir plenamente a força de uma comunidade de mulheres remando juntas rumo ao mesmo norte. Eu teria entendido antes não fosse a contracorrente que, a todo instante, chacoalhava o barco e bagunçava o rumo de gerações de mulheres. Não lamento a minha compreensão tardia dos malefícios do patriarcado sobre nós mulheres. Sabe por quê? Porque celebro a continuidade da ciranda de meninas e jovens adultas que me sucedem já tendo a clareza do patriarcado e sabendo caminhar, não deixando passar, não passarão elas dizem! Elas mantêm acesa em mim a chama que eu sempre tive mas que na idade delas não tive como usar, canalizar. As mais jovens mantêm acessa minha força de mulher, mas não só elas, as que vieram antes, lutaram antes e foram caladas antes de mim também me inspiram a manter a chama acesa e essa linda ciranda rodando. Quantas de nós hoje, aos quarenta e tantos, cinquenta e tantos, vibramos por sentir a roda girando? Não somente a das mais jovens mas a nossa também? 

No ano em que completei meio século de vida, em 2025, entrei para uma das comunidades de mulheres mais potentes que conheço e a comunhão com essas mulheres escritoras de todo o Brasil reacendeu a chama mais forte que possuo, a  da palavra. Criada em 2021, por Débora Porto, doutora em Letras pela PUCRS e pesquisadora sobre a escrita de mulheres,  a escola de escritoras surgiu do desejo da autora de que cada vez mais escritoras possam escrever, publicar e serem lidas. Vale a pena conhecer o trabalho pioneiro no Brasil e os cursos ministrados por Débora Porto aqui. Desde que conheci a comunidade de escritoras, a minha roda não parou de girar e, em 2026, sou selecionada para fazer parte da Hora do Sabbat e cá estou estreando a coluna com muita alegria nesse outro lugar de comunhão de mulheres arteiras e fazedoras que não deixam a roda parar. E a roda gira, e mulheres são ouvidas – na rádio da Hora do Sabbat – e mulheres são publicadas pela editora Polifonia da escola de escritoras. Por isso celebro! 

Gosto de pensar que completar meio século (e mais um ano:) de vida  – uma boa ideia –  me (nos) impede de seguir em frente sem revisitar minha (nossa) própria jornada pelos territórios onde passamos, por tantos outros corpos com os quais cruzei (cruzamos) e que me (te) levaram a saltar de estação em estação e, por vezes, retornar ao destino anterior, sem medo de desistir e deixar malas pesadas e cargas que não eram minhas (nossas) pelo caminho. Sendo uma viajante, turista nata e exploradora de mim mesma há 51 anos, acredito que seja mais fácil – ou menos difícil –  encarar as jornadas de exploração do outro que segue junto ou no sentido oposto, juntas, em comunhão com outras mulheres, em comunidades como a da Escola de Escritoras da Débora Porto e cirandas como a  Hora do Sabbat de Sarah Mascarenhas. 

 Ao deixar uma pátria, viver sete anos em outra e retornar, meu corpo escrevivente sobrevive; exala sua essência, a essência da diversidade. Esse corpo escreve pelos poros que abrem e transpiram as diferenças entre os povos, seus sotaques e culturas. O mesmo corpo vibra com a estreia desta coluna.  Vibra nas ondas do rádio, na frequência certa para se deixar levar pela roda da Hora do Sabbat que agora se abre para mim. O mesmo corpo pede licença para entrar e entra feliz para essa comunidade que dá visibilidade e expressão para tantas mulheres arteiras e fazedoras do Brasil! 

Vem cirandar com as Crônicas de uma escrevivente? Vem cirandar além mar pensando migrações, vem cirandar pelo multiculturalismo, vem cirandar pensando nossas raízes e identidades, vem cirandar pela maternidade atípica? Pode chegar, a roda continua girando mas sempre é bom abrir a roda, enlarguecer…

Escrito por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. 
Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outras histórias que pode te interessar

Cheguei à Casa Azul Jardinagem, em Santos, sob uma garoa leve que parecia...

Nascida na Áustria dos anos 1920, em uma família rigorosa que valorizava uma...

/*; } .etn-event-item .etn-event-category span, .etn-btn, .attr-btn-primary, .etn-attendee-form .etn-btn, .etn-ticket-widget .etn-btn, .schedule-list-1 .schedule-header, .speaker-style4 .etn-speaker-content .etn-title a, .etn-speaker-details3 .speaker-title-info, .etn-event-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-speaker-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-event-slider .swiper-button-next, .etn-event-slider .swiper-button-prev, .etn-speaker-slider .swiper-button-next, .etn-speaker-slider .swiper-button-prev, .etn-single-speaker-item .etn-speaker-thumb .etn-speakers-social a, .etn-event-header .etn-event-countdown-wrap .etn-count-item, .schedule-tab-1 .etn-nav li a.etn-active, .schedule-list-wrapper .schedule-listing.multi-schedule-list .schedule-slot-time, .etn-speaker-item.style-3 .etn-speaker-content .etn-speakers-social a, .event-tab-wrapper ul li a.etn-tab-a.etn-active, .etn-btn, button.etn-btn.etn-btn-primary, .etn-schedule-style-3 ul li:before, .etn-zoom-btn, .cat-radio-btn-list [type=radio]:checked+label:after, .cat-radio-btn-list [type=radio]:not(:checked)+label:after, .etn-default-calendar-style .fc-button:hover, .etn-default-calendar-style .fc-state-highlight, .etn-calender-list a:hover, .events_calendar_standard .cat-dropdown-list select, .etn-event-banner-wrap, .events_calendar_list .calendar-event-details .calendar-event-content .calendar-event-category-wrap .etn-event-category, .etn-variable-ticket-widget .etn-add-to-cart-block, .etn-recurring-event-wrapper #seeMore, .more-event-tag, .etn-settings-dashboard .button-primary{ background-color: