Culpa não é sua

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Oi, deusa. Antes de mergulharmos nesse encontro, gostaria de agradecer a sua presença por aqui. Pra quem não me conhece ou está chegando agora, eu sou dessas que acredita que as palavras têm um poder absurdo de cura, conexão e mudança. 

Acreditando nisso, comecei a escrever como uma forma de deixar a minha marca no mundo, e levo a escrita como um caminho que me conecta aos meus ancestrais e vai me levar como semente plantada no coração das gerações futuras.

Aproveito esse espaço para reverenciar todas as mulheres que ajudaram a construir a mulher que eu sou hoje. Honrar elas e a minha própria história é, antes de tudo, aprender a distinguir o que é meu fardo e o que tentaram fazer eu carregar. E é sobre isso que eu quero conversar com você hoje!

Recentemente, um desses assuntos que a gente preferia que não existissem, mas que cercam a vida de quase toda mulher, bateu na minha porta. Uma amiga me contou que foi assediada pelo marido de uma amiga próxima. Um cara que estava ali, no mesmo grupo, protegido por essa “capa” de bom moço e pela confiança de todo mundo. Ela não contou para ninguém do círculo. Só se afastou, em silêncio.​ 

Nosso papo começou do jeito de sempre: trabalho, família, o caos do dia a dia. Até que o tom de voz dela mudou. Ela descreveu o que aconteceu com uma clareza que doía. Sabia exatamente onde ele tinha passado do limite. Sabia que aquilo tinha sido uma invasão.​ 

E aí veio o soco no estômago: “Eu me senti culpada”, ela disse.​ Nesse momento, a história dela deixou de ser um desabafo isolado e virou um espelho. Antes de apontar o dedo para quem invadiu o espaço dela, ela trouxe o peso todo para o próprio colo. 

Começou a se questionar: “Será que fui simpática demais? Será que eu deveria ter gritado na hora? Se eu contar, vou destruir o casamento da minha amiga?”​. Como se a culpa pelo estrago fosse dela. Como se a violência fosse só um “mal-entendido” que ela precisasse dar um jeito de gerenciar.​ 

Ouvir aquela mulher — que nem era tão próxima assim, mas que viu em mim um porto seguro — foi ouvir um padrão. Não era só a história dela; era a nossa. É o eterno: “O que fiz de errado? O que eu poderia ter evitado?”​ 

O peso que não é nosso

A violência não acaba no ato em si. Ela continua trabalhando na nossa mente, tentando nos convencer de que a gente teve alguma participação naquilo.​ Nós somos treinadas para ser a “cola” dos ambientes, a sustentar vínculos pelo silêncio. Para não criar “climão”, para não estragar a festa, para cuidar de uma harmonia que já foi quebrada pelo outro.​ A gente protege reputações alheias. 

O patriarcado deu aos homens o passe livre para atravessar limites e deu para nós a planilha de custos para administrar as consequências dessa travessia.​ Essa culpa que a gente sente não vem do nada; é uma construção social. É uma ferramenta feita para manter o conforto masculino intacto, enquanto a gente se vira com o peso do conflito.​

Devolvendo o pacote para o remetente​

Reconhecer isso não faz a angústia sumir num passe de mágica. A culpa é insistente, ela foi ensinada para a gente desde o berço. Mas dar “nome aos bois” já muda tudo. É o começo do fim de um ciclo em que a gente vive pedindo desculpas por violências que não cometemos.​

Se tem algo que precisa ficar gravado após uma conversa dessas, é o seguinte: a gente não precisa carregar o que não é nosso. A responsabilidade é de quem atravessa o limite. Ponto! 

Talvez, o maior gesto de autoamor que podemos exercer hoje é devolver a culpa para o endereço certo. 

Entre o que é dito e o que fica, que hoje fique em você a coragem de esvaziar as mãos do que não nós pertence. Se você chegou até aqui, obrigada por caminhar comigo. Que essas palavras sejam sempre no seu solo, assim como foi no meu. 

Nos vemos na nossa próxima conversa!

Com carinho, Carollyne Gregório. 

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