Seria fácil falar do papel que as mulheres desempenham, se os invisíveis realmente passassem despercebidos. Mas o que é invisível, na verdade, só o é para quem não aprendeu a olhar. Porque elas estão ali, todos os dias, ocupando mil lugares ao mesmo tempo, como se o tempo tivesse sido costurado às pressas em suas vestimentas.
Ora são professoras, sentadas à mesa da cozinha transformada em sala de aula, explicando frações enquanto o feijão ferve no fogão. Repetem pacientemente a tabuada, inventam histórias para ensinar gramática ou desenhando mapas tortos do Brasil. Ora são psicólogas, especialistas formadas na universidade da vida, escutando desabafos sobre amizades desfeitas, medos noturnos, inseguranças dos adolescentes e sempre tem um conselho firme ou abraços que funcionam melhor do que qualquer terapia cara.
Em outros momentos, vestem o jaleco invisível de chef de cozinha. Criam pratos mirabolantes com o que há na geladeira, equilibram sabores e vontades, fazem mágica com restos, inventam lanches coloridos para a escola como se cada lancheira fosse uma declaração silenciosa de amor. E quando ninguém vê, comem em pé, encostadas na pia, a comida já fria , porque antes foi preciso cortar a carne do pequeno, buscar o copo esquecido, acudir o chamado urgente vindo do banheiro.
São também organizadoras do lar, estrategistas do guarda-roupa, guardiãs das roupas de frio e calor. Dobram, separam, etiquetam, calculam o crescimento dos filhos como quem prevê o clima. “Vamos aproveitar enquanto ainda serve”, dizem, guardando na memória o tamanho das mangas e das pernas que crescem rápido demais. E como polvas — criaturas míticas de oito braços — equilibram contas, compromissos, horários médicos, reuniões escolares, aniversários, compras do mês e aquele imprevisto que sempre surge às cinco da tarde. E quando não dá para equilibrar, eles caem, se quebram, é um acode aqui, acode ali, e no final, debaixo de caos e tormenta, elas sempre têm um pouco mais de amor para doar.
E existem os papéis invisíveis. Aqueles que não recebem aplausos nem certificados. O papel da mulher cansada que sorri mesmo com os ombros pesados. Da mulher que chora escondido no banheiro, sentada na tampa fechada do vaso, perguntando a si mesma se está fazendo o suficiente. Que se arrepende de ter elevado o tom de voz e, depois, se culpa por horas, como se fosse juíza severa do próprio coração. E fica se perguntando “O que estou fazendo de errado?” “Como posso dar conta de tudo?”.
Há mulheres que se anulam sem perceber. Que adiam sonhos, guardam vontades numa gaveta imaginária, trocam um curso por uma consulta, uma viagem por material escolar, um vestido novo por um par de tênis infantil. Ela se transforma tantas vezes que às vezes mal se reconhece no espelho.
Existe ainda a mulher sobrecarregada, que leva aqui, busca ali, faz aqui, resolve acolá. Que aprende a dirigir com uma mão enquanto com a outra entrega um lanche no banco de trás. Que responde e-mails do trabalho entre uma apresentação escolar e outra. Que termina o dia com a sensação de que faltou algo, mesmo tendo feito tudo. Que limpou a casa toda e depois de minutos está uma bagunça novamente.
E, ainda assim, em meio ao caos, há poesia. Existe uma mulher de potencial imenso adormecido, uma mulher linda por fora e, sobretudo, por dentro, que precisa apenas aprender a se enxergar com os olhos da própria alma.
Há uma essência insubstituível que exala carinho, afeto, serenidade e amor. Uma essência que, tantas vezes, é oferecida ao mundo inteiro, menos a si mesma. Por trás da força de uma mulher, às vezes existe um vazio silencioso, um espaço que pede apenas um olhar sincero e acolhedor para dentro.
Hoje, eu te convido a fazer esse movimento. Olhe para você. Volte-se para o seu interior. Veja o quanto já enfrentou, o quanto suportou, o quanto renunciou. Reconheça cada batalha vencida em silêncio.
E, então, enxergue essa mulher maravilhosa que existe aí: dona de um brilho único, de uma luz própria, que precisa apenas de um olhar interno para se acender e iluminar o mundo.