A cantora e compositora mineira Elisa de Sena é a convidada desta entrevista no blog da Hora do Sabbat, em um encontro que aprofunda os diálogos entre música, palavra e ancestralidade. Artista que constrói sua obra a partir da escuta e do corpo em cena, Elisa vem se destacando na música autoral brasileira por uma criação enraizada, coletiva e atravessada pelos ritmos e histórias do seu território.
Com trajetória marcada pela canção popular, pela percussão e pela pesquisa sonora, Elisa de Sena desenvolve um trabalho que valoriza os encontros e a força simbólica da música como linguagem de memória e pertencimento. Sua atuação revela uma artista atenta aos processos, às parcerias e às escolhas estéticas que moldam uma obra viva.
Em novembro, Elisa participou do quadro Lírica, conduzido por Flora Miguel na Hora do Sabbat, em uma conversa dedicada à palavra cantada, à poesia e aos atravessamentos entre música e literatura. A escuta desse encontro abriu caminhos para aprofundar reflexões que agora se desdobram nesta entrevista.
Na conversa a seguir, Elisa de Sena fala sobre trajetória, criação, ancestralidade e os movimentos que atravessam seu trabalho no presente. Um convite à escuta atenta de uma artista que transforma música em gesto de continuidade e diálogo.

Sarah Mascarenhas: Se a menina Elisa encontrasse a mulher que ela se tornou hoje, ela realizou os sonhos da menina? E qual seria o recado da mulher para a menina seguir adiante?
Elisa de Sena: A menina Elisa, foi uma criança feliz dentro do contexto em que ela vivia. Grandes sonhos não faziam parte do imaginário da menina negra de periferia que pouco conhecia do mundo e que tinha como referência as mulheres do seu entorno e da sua família. Representatividade era palavra que não se usava nos anos 80, a TV ainda era um veículo predominantemente ocupado pelos padrões patriarcal e branco e internet ainda não fazia parte do cotidiano das pessoas.
Eu acredito que realizei sonhos que eu nem sabia que tinha. Ser uma artista é algo que sempre esteve na minha essência, mas que não tinha sido nomeado como sonho pela menina Elisa. A menina não sabia que ser mulher, ser mulher preta, poderia sim ser um lugar de potência para realizações diversas.
O recado da minha mulher pra minha menina é: “O mundo é muito maior do que o você e os seus conhecem. Se firme na sua raiz, mas não deixe que cortem suas asas. Vai, seja livre e se estiver com medo, vai com ele mesmo, depois o medo vai embora e você será acompanhada da coragem. A liberdade te aguarda mais adiante. Quando sua mente estiver livre, seu corpo e seu coração também estarão. A arte é sua companheira e te ajudará a cumprir sua missão.
Sarah Mascarenhas: “Orgânica” nasce como um chamado à ancestralidade. Em que momento desse processo você percebeu que o álbum tinha uma vida própria e estava te conduzindo, e não o contrário?
Elisa de Sena: Em vários momentos eu precisei abrir mão do controle e entender que o Tempo estava conduzindo tudo. O desejo do segundo álbum já estava em processo desde 2022. Mas a aprovação do projeto que financiou a gravação veio em 2024 e a compreensão de quem seriam os produtores musicais também chegou no mesmo momento. O repertório que já tinha sido desenhado foi se ajustando à realidade desse momento. Quando chegou o nome ORGÂNICA, tudo fez sentido e a equipe se alinhou, as músicas que não tinham sido pensadas antes se apresentaram como uma necessidade pra mim e para o trabalho. A composição da música JUREMA se firmou e ela mesma seguiu conduzindo as demais decisões.
Sarah Mascarenhas: O disco é marcado pela força das percussões, cordas e timbres da terra. Qual foi o desafio mais intenso de buscar uma sonoridade realmente orgânica sem cair em fórmulas prontas?
Elisa de Sena: Fazer um disco orgânico é o mais simples e, talvez por isso mesmo, muito complexo. Não buscar ser extraordinário e fazer o básico às vezes é um desafio pras pessoas. Pra mim foi um desafio harmonizar as expectativas e potências de todos os envolvidos (inclusive a minha) para fazer algo vivo e de fato orgânico. Inclusive entender que o diálogo entre o tradicional e o digital é também orgânico.
Sarah Mascarenhas: Suas parcerias são diversas e profundas — de Pedro Luís a Pedro Morais, passando por Manu Ranilla e Nego Moura. O que cada parceria despertou em você sobre a própria identidade mineira que atravessa o disco?
Elisa de Sena: Nego Moura, Manu Ranilla, Alysson e Luísa de Paula, são meus parceiros mineiros de composição e que fazem parte da espinha dorsal desse projeto. Pedro Morais chega depois e traz seu timbre mineiro para a música “Cheiro Mineiro de Flor”, a única canção que não é composta por mineiros, mas que chega com uma roupagem e sotaque daqui.
Pedro Luís também chega depois, o único não mineiro cantando no disco, e que traz o suingue carioca que Avenca pedia na interpretação.
Sarah Mascarenhas: “Amor de Índio” entrou no álbum por um chamado quase intuitivo. Como você viveu emocionalmente o risco e a responsabilidade de reinterpretar um clássico tão emblemático da música mineira?
Elisa de Sena: Apesar da responsabilidade de cantar um clássico do clube da esquina, eu encontrei uma leveza na hora de gravar, porque escolhi fazer uma releitura e não uma interpretação. Eu queria dar vida pras palavras presentes na letra dela que é tão forte e importante. Assim a letra foi me conduzindo para propor uma métrica específica. A partir do canto, a Nath Rodrigues (que assina a produção dela) criou uma harmonia original, forte e envolvente que me fez ter certeza de que essa canção precisava estar no disco. Ela acabou sendo nosso single que antecedeu o lançamento do álbum cheio.
Sarah Mascarenhas: Em várias faixas, a presença de ritmos afro-indígenas se mistura à poesia do cotidiano mineiro. Como você sente que esse encontro reverbera no Brasil que você deseja cantar e construir?
Elisa de Sena: A herança cultural dos povos africanos e indígenas para o Brasil é fundamental. Ainda assim, essa população é a mais marginalizada em tantos sentidos. Reverenciar a ancestralidade negra e indígena e celebrar a herança cultural na nossa música faz parte do ideal de país que queremos ver vivo. Ter esses ritmos na música brasileira é algo natural e comum e pra quem trabalha com a cultura popular é ainda mais fluido. A poética da mineiridade que traz a forte herança da negritude e dos povos originários é algo natural na minha criação artística, assim como na produção do ORGÂNICA.
Sarah Mascarenhas: “Orgânica” conversa com “Cura”, mas aponta para algo novo em você. O que esse disco revela da Elisa que você ainda não tinha mostrado ao público?
Elisa de Sena: o CURA me preparou para chegar ao ORGÂNICA. Sem juizo de valor sobre estar melhor ou pior do que antes. É mais sobre caminho, sobre estar em um momento que só a experiência me permitiria estar. Me sinto mais exposta nesse segundo álbum e também mais viva, como tinha que ser.