Sarah Mascarenhas é jornalista musical no rádio e criadora do programa Hora do Sabbat, onde escuta e amplifica vozes de mulheres nas artes e na vida. Produz conteúdos com afeto, estratégia e compromisso com a transformação.
Cantora e compositora inaugura novo ciclo criativo com Ludom, disco atravessado por ancestralidade, afeto e afirmação de existência
Ludom apresenta ao público seu segundo álbum de estúdio, Ludom, lançado pelo selo Toca Discos, braço fonográfico do estúdio Toca do Bandido. Sete anos após o disco de estreia Liberte Esse Banzo, a cantora, compositora, produtora musical e historiadora inaugura uma nova etapa de sua trajetória artística, marcada pela circulação entre territórios, identidades e estados emocionais, afirmando o direito de existir com inteireza.
O álbum reúne 11 faixas que transitam entre MPB, afrobeat, R&B, hip hop e gospel, com produção coletiva liderada por Felipe Rodarte e participações de Bia Ferreira e Negralha. O trabalho condensa experiências vividas em turnês pelo Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos e Europa, costurando diferentes diásporas em um som afro-diaspórico sensível, sofisticado e acessível.
Mais do que um lançamento musical, Ludom marca um renascimento artístico e simbólico. Ao deixar o nome Luciane Dom e assumir Ludom, a artista afirma autonomia, presença e escolha. Suas letras abordam esgotamento emocional, relações afetivas, injustiça social, fé, crítica política e reconstrução pessoal, sempre a partir de uma escuta profunda de si e do mundo.
Nesta entrevista para o blog da Hora do Sabbat, Ludom revisita a própria infância, reflete sobre vulnerabilidade como resistência, especialmente para mulheres negras, fala das estradas que moldaram sua música e reafirma a sensibilidade como força criativa e política. Uma conversa sobre música como caminho, ancestralidade como sustentação e arte como gesto de permanência.
Sarah Mascarenhas: Lu, se a menina que você foi, essa Luzinha curiosa, intensa, ferida e luminosa encontrasse hoje a mulher que renasce como Ludom… como seria esse encontro? Essa mulher que atravessou continentes, dores, silêncios e reinvenções realizou os sonhos daquela menina? O que a Ludom de agora sussurraria no ouvido da Luzinha que está prestes a começar o próprio caminho. Qual conselho essa mulher, que deixou de pedir licença para existir e simplesmente existe, daria para a menina que ainda não sabe, mas já carrega dentro de si todas essas músicas, todas essas brechas, toda essa força?
Ludom: Eu diria para a Lulu, meu apelido de infância, para acreditar mais em si. Confiar na própria intuição, no propósito e nos talentos que ela tenta esconder para não incomodar ninguém. Sussurraria no ouvido dela para não parar de estudar teclado, mesmo depois de todas as grosserias que aquele menino da igreja iria dizer para feri-la. Diria que a música está esperando por ela lá na frente e que não vai adiantar tentar fugir ou inventar outros caminhos: a música é caminho, não desvio. Diria também: “Você não precisa pedir licença para existir. Caminhe com medo mesmo. Vale o risco.”
A Lulu sempre foi introspectiva, mesmo parecendo descolada e falante, ela fazia isso para não revelar suas inseguranças. Hoje eu enxergo que essa postura foi estratégia, foi proteção, foi a forma que ela encontrou para atravessar um mundo que cobra demais. E por isso, elas se abraçam. Ludom carrega cicatrizes, atravessou dores, silêncios, não trilhou nenhum caminho linear, e é exatamente por isso que a Lulu precisa continuar. Precisa confiar na mãe dela, porque tudo aquilo que a Marta dizia sobre a trajetória internacional era verdade. Já estava no destino, mesmo parecendo exagero ou um sonho grande demais.
“Se prepare, Lulu: estude teclado, estude inglês, estude dança. Não desista. Continue fazendo exatamente o que você está fazendo, só com mais fé em si mesma.”
Ludom para Luluzinha
Sarah Mascarenhas: Você afirma que vulnerabilidade é resistência, especialmente para uma mulher negra num mundo que cobra uma força quase sobre-humana. No processo de criação deste disco, qual foi o momento em que você percebeu que expor suas brechas era também um gesto de poder? Ludom: A percepção veio quando percebi que esconder minhas fragilidades deixava as músicas sem profundidade. Toda vez que eu tentava me proteger demais, o som não chegava na pressão que deveria chegar. Quando comecei a escrever sobre esgotamento, solidão, sobre falhar e me refazer, e amar sem tanto medo, senti que a autenticidade abriu espaço para um outro tipo de força. Entendi ali que vulnerabilidade não me diminui; ela me humaniza. E nesse mundo que exige força extraordinária das mulheres negras, isso é um ato político. Eu tô realmente aberta e preparada para existir.
Sarah Mascarenhas: Você viveu turnês pela América Latina, América do Norte e Europa. De que forma essas estradas — e os corpos, paisagens e lutas que você encontrou nelas — se transformaram em som dentro deste álbum? Existe uma geografia afetiva que te acompanha quando você compõe? Ludom: Essas viagens me atravessaram de forma muito concreta. As estradas, as cidades, pessoas, cada palco, cada mesa de bar ou mesmo momentos de silêncio, influenciaram as texturas deste disco. A geografia afetiva é esta, feita desses encontros, dos sotaques, dos ritmos e das histórias que vivi na pele ou escutei pelo caminho. Quando componho, algumas imagens sempre voltam: conversas depois de shows, paisagens, a luz do dia em cada lugar. Tinha coisa que me lembrava de casa mesmo quando eu estava longe.
Sarah Mascarenhas: Abandonar “Luciane Dom” e assumir “Ludom” é um rito. Um batismo. Um marco. O que exatamente morreu e o que nasceu quando você decidiu se nomear de novo? E como esse novo nome reposiciona a sua arte no mundo? Ludom: Nasceu uma nova pessoa, uma artista inteira. Quando deixei “Luciane Dom”, deixei para trás uma versão de mim que tentava caber em expectativas externas. Morreu a necessidade de agradar, de ser irrepreensível, de carregar pesos que nunca foram meus. Eu Ludom assumo a complexidade dos meus sentimentos, e olhares do mundo, e me renomear é me trazer autonomia: faço o que faço porque quero. Ludom nasce porque tenho escolha, porque construo minha própria história, e não é a história que esperavam que eu contasse. É um recomeço que afirma quem eu sou agora.
Sarah Mascarenhas: Ao longo das faixas, você passa por camadas de intimidade, esgotamento, crítica social, fé, resistência e renascimento. Qual foi a emoção mais difícil de transformar em música — e qual foi a mais urgente? Ludom: A mais difícil foi o esgotamento e ressurreição que tem em Rosa de Lótus, porque aquela sensação que tem no som, pra chegar naquele resultado, me paralisou, secou palavras, interrompeu processos. Esse esgotamento exigiu que eu encarasse meu próprio limite sem romantizá-lo.
A emoção mais urgente foi o renascimento que vem em Iluminados, por exemplo, ou mesmo em Toda Intensa ou I shrug. Foi uma luta poder dizer abertamente que as vezes eu não sei pra onde estou indo, e que só estou indo, ou ser honesta e dizer que se eu tivesse um mapa de sentimentos, eu poderia ir até onde eu conheço, e por isso apareceu na letra a covardia mesmo.
Sarah Mascarenhas: “As Coisas São” tem uma contundência que atravessa, especialmente com a participação da Bia Ferreira. Quando você pensa no Brasil e nas desigualdades que te atravessam como mulher, artista e historiadora, o que ficou impossível de calar neste disco? Ludom: O que ficou impossível de calar foi a naturalização das violências. A desigualdade gritante que estrutura o Brasil. O cansaço de existir sempre à margem, sempre tendo que provar algo.
Com a Bia, a faixa ganhou ainda mais profundidade, porque ela também carrega o corpo e a história de uma mulher negra que não se permite silenciar, e nós passamos por situações similares para existir, e atualmente andamos cruzando os mesmos palcos fora do Brasil. Falamos muito dessa doideira que é sermos reconhecidas fora do país, e aqui, muitas vezes sermos ignoradas.
A gente falou muito sobre parar de fingir que está tudo bem. A Bia fez mais de 70 shows ano passado no exterior, eu fiz mais de 40, para um público que não fala nossa língua, mas enxerga nosso talento, vê que estamos na luta pela arte, pelo som, pela qualidade artística.
Esse lugar de fala que trouxemos não é pessoal, é coletivo.
Ludom
Sarah Mascarenhas: Você encerra o álbum com “Rosa de Lótus”, essa imagem de renascimento que brota da lama e floresce acima da superfície. O que você deseja que floresça na vida de quem escuta esse disco de ponta a ponta? O que você espera que nunca mais afunde? Ludom: Desejo que floresça a coragem, que floresça a capacidade de se olhar com verdade, de honrar a própria história e de reconhecer a força que existe mesmo nos momentos de lama.
Eu espero que nunca mais afunde o brilho interno, o pulso de vida e verdade, que é vital, mas que tantas vezes tentamos reduzir para caber no mundo. Quero que cada pessoa que escute encontre um motivo para continuar se levantando, e se reinventando se for preciso.
Sarah Mascarenhas é jornalista musical no rádio e criadora do programa Hora do Sabbat, onde escuta e amplifica vozes de mulheres nas artes e na vida. Produz conteúdos com afeto, estratégia e compromisso com a transformação.
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