Nascidas e criadas em um mundo que não nos ouve. A cada esquina, notícia de jornal, conversa com amigos e escritório de trabalho somos lembradas que a nossa voz de pouco vale. As estruturas se organizam e se reorganizam para que tudo continue do jeito que está.
Durante a vida, engolimos sapos, sentimentos, raivas, injustiças, opiniões e desejos. Somos moldadas ao bel prazer das instituições sociais em violências, que parecendo minúsculas, nos tiram de nós pouco a pouco.
Em algum momento, entre os 5 e os 90 anos, descobrimos algo aqui dentro. Implorando para sair com vontade. Ela está localizada pelo meio da garganta, reverberada desde grunhidos pequenos até berros ensurdecedores. Como se parecesse que não existe, lá está ela, a nossa voz. As nossas vozes, porque somos muitas!
Lembro muito bem de quando percebi que falava muito rápido. Eu não queria falar rápido, queria terminar meu raciocínio sem ser interrompida. Lembro também de parar de discutir sobre política na época da adolescência, porque eu nunca era respondida, sempre ignorada. E pasmem, eu era uma das únicas mulheres na discussão.
Talvez nesse local eu fosse a única, mas eu sei que em outros sempre existiram meninas querendo ser levadas em conta, não ter a sua fala cortada, distorcida ou menosprezada. Se eu descobri que existo porque o outro, em algum momento, me olhou. Como saber que minha voz importa, se quando falo, parece que tudo se volta contra mim?
A culpa do mundo nasce do ventre de uma mulher. Precisavam de alguém para culpar e fomos AS ESCOLHIDAS. Finalmente alguém nos escolheu, amor!
Singelas, resilientes, brandas, angelicais, humildes, obedientes, gentis, pacientes, benevolentes, mortificadas, puras, maternas. Se fôssemos ouvidas, não abririam a boca para nos intitular assim.
Talvez saberiam que no mesmo ventre que nasce a culpa, o desejo dilacerante sempre morou. Veriam os nossos rostos não tão bonitos quanto parecem quando estamos montadas e ainda assim haveria beleza. Teriam contato com a nossa complexidade e profundeza de existir. Perceberiam que não tem nada de errado em nossos corpos. Escutariam a vontade de deixar as demandas de lado para ter tempo para se divertir. Se dariam conta de que nós movimentamos a vida com as nossas mãos invisíveis.
Somos mesmo as inimigas, as feministazinhas, as putas, as frígidas, as sapatão, as malucas, as bruxas, as destruidoras de lares, as histéricas. Se é pela palavra, que quando conjugada no feminino, logo ganha um ar negativo. Então brinquemos com o sentido, o viremos do avesso.
Para que o que dizem das nossas vozes, tenha um outro significado quando proferido por nós. Se o mundo se organiza para que permaneçamos caladas, sem opiniões, sem saberes, que não tenhamos tanto medo em falar, ter posicionamento e conhecimento.
Porque embora Clarice tenha dito que após o medo, vem o mundo. Talvez ainda não conheçamos o mundo, talvez estejamos construindo, a pequenos passos, o mundo em que possamos ser, com verdade, vistas e respeitadas. Eu também tenho medo do mundo, muito medo. Todas as vezes que quebro em mim um padrão do que o mundo espera de uma mulher, tenho vontade de me trancar em meu quarto e nunca mais precisar sair de lá.
Aos poucos a curiosidade e a vontade retornam, procuro por mulheres antes de mim que construíram coragem para encontrar o mundo já estabelecido e tentar melhorá-lo para as que viriam. Mesmo que fosse uma mudança pequena, porque o pequeno também importa!
Há 100 anos não tínhamos poder de decisão política. Há 60 anos o nosso voto se tornou equiparado ao dos homens e, também, foi permitido às mulheres casadas o trabalho sem autorização do marido. Há 48 anos o divórcio foi instituído oficialmente na legislação, antes os cônjuges ficavam juridicamente atados até a morte. Há 36 anos o estupro ainda não era considerado um crime hediondo. Há 20 anos não existia lei para tipificar e definir a violência contra a mulher. Há 15 anos o Brasil nunca tinha sido presidido por uma mulher.
Grandes conquistas, mas poucas. Já que mesmo gritando pelo direito de estar no mundo em paz, somos mortas, em vida ou até a última gota de sangue.
É adoecedor ser mulher. É preciso estar sempre ignorando o mundo ao redor para (tentar) ser feliz. É preciso ignorar o medo antes de sair de casa. É preciso ignorar os silêncios depois que você passa perto de uma roda de homens. É preciso ignorar os olhares nojentos por todos os lados. É preciso ignorar as notícias cada dia mais horríveis. É preciso ignorar os salários menores. É preciso ignorar a desvalorização, a deslegitimação, o cansaço, as culpas, os assédios. É preciso ignorar o horror de que algo aconteça à sua mãe, às suas amigas, às suas primas. É preciso ignorar a demora da justiça. É preciso ignorar o sistema que se reinventa em nos adoecer.
É preciso ignorar porque se olharmos para tudo e sentirmos tudo, somos arrastadas. Mas as marcas dessa “ignorância” impregnam à pele, aos ossos, às carnes e, em algum momento, entre os 5 e os 90 anos, as redescobrimos. Marcas viram vozes. Marcas abandonadas, vozes abandonadas.
Ser mulher é ser abandono. Contar mentiras a si, para assim, ir em frente. Assumir uma fortaleza que não nos impede de tremer ao ver o tamanho de tanto descuido. Não ser ouvida é também ser abandonada falando sozinha, esperneando, urrando. É anunciar uma invisibilidade, ainda que todas nós continuemos falando.
Como querer ser ouvida se nós é que fomos ensinadas a sempre ouvir?
Sinto que ao escrever todas essas palavras, não surge nada de novo, eu só sou mais uma mulher, sentindo indignação e, PIOR, sentindo que essa situação não vai mudar. Vão continuar existindo mulheres tendo suas vidas interrompidas porque homens decidem se uma mulher vive ou morre, homens decidem sobre corpos que não são deles, homens decidem tudo, em especial quem eles querem ou não ouvir.
E sabe por que é mais fácil não ouvir mulheres? Porque assim eles não precisam se responsabilizar, eles não precisam olhar pras próprias violências, eles não precisam mudar de conduta. Quem escuta, é transformado pela possibilidade de ouvir do outro o que é ser diferente, onde dói e quais as saídas possíveis. Ninguém sai ileso de um diálogo. As palavras nos modificam, porque, como nos fala Larossa, nós pensamos com palavras e o que escutamos nos acompanha.
Eu sinto que nem vou conseguir terminar esse texto, porque fiquei indignada escrevendo. Tudo desemboca em outro problema. Os homens brancos cis heteros ricos não escutam outras pessoas, só a si e aos seus iguais. Essa forma de existir em que todas nós minorias não somos escutadas é insuportável, porque esses homens mandam no mundo. O mundo é deles.
A fome já poderia ter sido resolvida, o racismo já poderia ter sido resolvido, o patriarcado já poderia ter sido resolvido, mas seguimos aqui sofrendo das mais diversas formas. Porque eles não nos ouvem. Se os donos do mundo não nos ouvem, o mundo continua os privilegiando de várias formas. Eles vivem o melhor dos mundos.
Exceto quando a vida cobra e eles são obrigados a se verem humanos frágeis, necessitados de ajuda, de carinho. Exceto quando o mundo começa a se rebelar. Exceto quando a natureza impávida se mostra limitada a os servir.
O mundo dos homens está ruindo, ele já nasceu ruído. Não tem espaço para diversidade ou para paz. O mundo dos homens cria e recria as guerras. Planeja mecanismos para oprimir tudo aquilo que eles não conseguem ser. Oprimem porque alguns esqueceram a humanidade, que cobra empatia e respeito ao diferente.
E seguimos nas estruturas desse mundo, infelizes, estressados, ansiosos, solitários, valorizando os produtos e não as pessoas, com medo de sair na rua, obcecados por um pedaço de papel que tudo conquista.
O mundo dos homens não escuta a si mesmo, muito menos o outro. E ele está fadado a fracassar, seja a raça humana, seja o sistema que vivemos. O novo precisa vir, nós precisamos sonhar com esse novo mundo. Quem sonha, constrói.