Quem pinta os muros da cidade?

Você está lendo

Quem pinta os muros da cidade?

Compartilhar artigo

Escrito por

Muros cinzas fazem parte das cidades e se destacam diante de letreiros luminosos que veiculam todo tipo de publicidade. Embora as mensagens difiram, sua intenção é quase sempre a mesma: consuma. Quando a lata de spray começa a espirrar no cimento frio, porém, algo se rompe. Aquele ponto esquecido se transforma em uma parede repleta de vida e significado. Muitos não imaginariam que por trás da obra estivesse uma mão feminina, mas é justamente a bagagem das mulheres que passa a transformar a superfície em narrativa.

Essa forma de intervenção urbana representa os gritos que escapam das camadas sociais mais vulneráveis. O grafite é, em essência, uma denúncia colorida que escancara desigualdades e dá visibilidade ao povo marginalizado. Ainda assim, apesar de cumprir essa função social, o movimento não está imune aos próprios desafios que denuncia — entre eles, a desigualdade de gênero dentro do universo da arte urbana.

O grafite contemporâneo ganha força entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, especialmente em Nova York, como uma manifestação ligada à contracultura e à ocupação do espaço urbano. Essa expressão artística registrava as violências presentes nas comunidades periféricas e criava um espaço de fala para vozes historicamente silenciadas. No Brasil, a prática se consolida nas décadas seguintes e também assume caráter contestatório. Entre os pioneiros do grafite no país destaca-se Alex Vallauri, enquanto artistas como Eduardo Kobra ajudaram a consolidar essa linguagem nas décadas seguintes. Em sua maioria, homens.

Mas surge então uma pergunta: o grafite é masculino ou a participação feminina foi tradicionalmente escondida nas sombras?

 

Grafite de Panmela Castro. Foto: Ceescamel. Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:P._Castro_(2).jpg. 

 

A artista Panmela Castro, também conhecida por seu antigo pseudônimo Anarkia Boladona, apresenta outra face dessa discussão. Inspirada por suas próprias vivências como mulher, ela criou o projeto Grafiteiras Pela Lei Maria da Penha, que utiliza o grafite e a cultura urbana para conscientizar sobre a violência e a desigualdade de gênero. Em suas intervenções, a arte urbana deixa de ser apenas estética e se torna ferramenta de denúncia. Sob essa perspectiva, essas intervenções rompem com estruturas patriarcais que limitam o feminino a papéis predeterminados.

Em março deste ano, cerca de 200 metros de muro foram transformados em um grande painel artístico em homenagem a Tainara Souza Santos, vítima de feminicídio. O episódio, marcado pela dor, revela também a potência simbólica da arte urbana. Mais do que uma expressão subversiva em meio a uma sociedade movida pelo consumo, o grafite se mostra como um conector: aproxima arte e empatia, iluminando histórias que antes permaneciam ocultas.

No dia 27 de março celebra-se o Dia do Grafite. Entretanto, a pergunta que permanece é outra: quando essa data poderá ser celebrada por todos de forma igual? Quando a ocupação dos muros caminhará lado a lado com a equidade, especialmente a de gênero?

Enquanto esse letramento coletivo ainda está em construção, resta ao público reconhecer, valorizar e apoiar o trabalho das grafiteiras que transformam muros silenciosos em narrativas visíveis de resistência, memória e identidade.

 

Grafite de Mag Magrela em São Paulo. Foto: Duncan Cumming / Flickr (CC BY-NC 2.0). Disponível em: https://www.flickr.com/photos/duncan/39318597831

 

Leituras e referências

JUICY SANTOS. Grafites em Santos: a arte que colore as ruas e a rotina da cidade. Disponível em: https://www.juicysantos.com.br/especial/grafites-em-santos/. Acesso em: 8 mar. 2026.

ESPM. As diferentes formas de olhar: origem do grafite. Disponível em: https://jornalismosp.espm.edu.br/as-diferentes-formas-de-olhar-origem-do-grafite/. Acesso em: 8 mar. 2026.

BRASIL. Ministério das Mulheres. Com 200 metros de grafite, memorial se torna símbolo da luta contra o feminicídio na capital paulista. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2026/marco/com-200-metros-de-grafite-memorial-se-torna-simbolo-da-luta-contra-o-feminicidio-na-capital-paulista. Acesso em: 8 mar. 2026.

MEDIAÇÃO UNINTER. Arte e poder feminino em forma de grafite. Disponível em: https://www.mediacaouninter.com.br/single-post/arte-e-poder-feminino-em-forma-de-grafite. Acesso em: 8 mar. 2026.

UFRGS. Iluminuras — artigo sobre grafite e cultura urbana. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/116357/pdf. Acesso em: 8 mar. 2026.

GELEDÉS. Grafite valoriza a mulher brasileira. Disponível em: https://www.geledes.org.br/grafite-valoriza-a-mulher-brasileira/. Acesso em: 8 mar. 2026.

GALERIA LÍVIA DOBLAS. O grafite e a arte brasileira: tudo que você precisa saber. Disponível em: https://www.galerialiviadoblas.com.br/blog/o-grafite-e-a-arte-brasileira-tudo-que-voce-precisa-saber/. Acesso em: 8 mar. 2026.

 

Escrito por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. 
Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outras histórias que pode te interessar

Se você, como eu, foi criança na década de 80, vai se lembrar...

Nambiporã significa “brinco grande”. Ainda que não trabalhe com brincos tradicionais de pena,...

As mulheres que acreditam na vida, que cultivam a esperança e mantêm a...

/*; } .etn-event-item .etn-event-category span, .etn-btn, .attr-btn-primary, .etn-attendee-form .etn-btn, .etn-ticket-widget .etn-btn, .schedule-list-1 .schedule-header, .speaker-style4 .etn-speaker-content .etn-title a, .etn-speaker-details3 .speaker-title-info, .etn-event-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-speaker-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-event-slider .swiper-button-next, .etn-event-slider .swiper-button-prev, .etn-speaker-slider .swiper-button-next, .etn-speaker-slider .swiper-button-prev, .etn-single-speaker-item .etn-speaker-thumb .etn-speakers-social a, .etn-event-header .etn-event-countdown-wrap .etn-count-item, .schedule-tab-1 .etn-nav li a.etn-active, .schedule-list-wrapper .schedule-listing.multi-schedule-list .schedule-slot-time, .etn-speaker-item.style-3 .etn-speaker-content .etn-speakers-social a, .event-tab-wrapper ul li a.etn-tab-a.etn-active, .etn-btn, button.etn-btn.etn-btn-primary, .etn-schedule-style-3 ul li:before, .etn-zoom-btn, .cat-radio-btn-list [type=radio]:checked+label:after, .cat-radio-btn-list [type=radio]:not(:checked)+label:after, .etn-default-calendar-style .fc-button:hover, .etn-default-calendar-style .fc-state-highlight, .etn-calender-list a:hover, .events_calendar_standard .cat-dropdown-list select, .etn-event-banner-wrap, .events_calendar_list .calendar-event-details .calendar-event-content .calendar-event-category-wrap .etn-event-category, .etn-variable-ticket-widget .etn-add-to-cart-block, .etn-recurring-event-wrapper #seeMore, .more-event-tag, .etn-settings-dashboard .button-primary{ background-color: