Nambiporã significa “brinco grande”. Ainda que não trabalhe com brincos tradicionais de pena, conhecidos por sua imponência e destaque, o conceito de grandiosidade atravessa as criações de Nathalia Maria Martins Pêgo, Nhy’ã te-ē em sua língua materna, mulher do povo Tupinikim, moradora da aldeia Caieiras Velhas, no Espírito Santo.
A escolha do nome foi intencional.

O artesanato, no entanto, não é novidade em sua trajetória. Desde criança, por volta dos 10 ou 11 anos, Nhy’ã te-ē já criava com as próprias mãos. A madeira tornou-se base para suas peças. A partir dela, surgiu a demanda crescente por cintos tradicionais de diferentes formas, largos, finos, com grafismos ou não, sempre guiados por uma liberdade criativa que, como ela mesma diz, não precisa de limites.
Mas essa história não é individual. Ela se soma ao desejo de outros artesãos de ver o trabalho reconhecido para além das peças, e de fazer com que o modo de confecção com contas de madeira, moldadas e lixadas à mão, seja associado ao povo Tupinikim.
Na família de Nathalia, esse legado é perpetuado. O avô paterno, por exemplo, realiza todo o processo com a madeira: coleta, corta, serra, lixa e enverniza, até que a peça ganhe forma em um processo completamente natural.
Ao mesmo tempo, o fazer também se constrói no presente. Seu companheiro, Paulo Henrique, da aldeia de Comboios, aprendeu o fazer artesanal para somar à produção, contribuindo diretamente para o desenvolvimento das peças da Nambiporã.
Esse fazer também ganha novos espaços. Uma prima de Nathalia, que também trabalha com etnojoias, levou esse modo de criação para o Brasil Eco Fashion Week, com roupas confeccionadas à mão a partir de contas de madeira. Um caminho que reforça o reconhecimento desse saber e aponta para sua continuidade.
As peças nascem sem roteiro rígido. A criação é um processo vivo que começa com uma ideia, passa por tentativas e erros, até alcançar o resultado desejado. Madeira, sementes naturais ou tingidas, miçangas e fibras compõem os adornos que carregam não apenas estética, mas significado.
As etnojoias expressam uma relação profunda com a natureza. Todos os elementos remetem à mesma origem: “O respeito por quem nos oferece tudo de graça: a Mãe Natureza”, afirma.
Esse fazer também é político. As peças atravessam o campo da estética e se afirmam como prática de resistência. Inseridas em uma perspectiva de moda decolonial, questionam lógicas dominantes de produção e consumo.
Para Nhy’ã te-ē, ocupar espaços por meio da arte é essencial. Usar intencionalmente um cinto tradicional, um colar ou um bracelete no cotidiano ou em eventos é levar o território junto ao corpo.

O cinto, inclusive, carrega um significado especial dentro dessa trajetória. A peça nasceu como uma inovação a partir da adaptação. Nhy’ã te-ē queria usar um cinto de sementes que dialogasse com sua cultura, mas que não fosse de outra etnia. Foi então que começou a criar e desenvolver o que hoje entende como um cinto tradicional, algo que até então não existia entre os adornos de seu povo.
Com o tempo, a peça foi sendo reconhecida dentro da própria comunidade. Produzida com contas de madeira, a peça per

mite encaixe e caimento ajustados ao corpo, passando a dialogar de forma harmônica com os trajes tradicionais. Hoje, é vista como uma peça simbólica e também como um diferencial inserido na cultura.
A criação da Nambiporã circula entre vendas online e feiras, onde o contato direto com o público revela outro impacto: o reconhe
cimento. Nathalia afirma que muitas pessoas se surpreendem ao perceber que povos originários seguem vivos, produzindo, criando e ocupando espaços. “As etnojoias foram pensadas para mostrar que a gente ainda está aqui”, diz.
Na comunidade, o retorno também é significativo. Em meio a influências externas, o trabalho de Nhy’ã te-ē e de outros artesãos têm ajudado a reacender o interesse pelo que é próprio.
Um dos momentos mais marcantes dessa caminhada aconteceu na festa dos povos originários, na aldeia Irajá. Foi ali que, pela primeira vez, venderam suas peças.
Para quem conhece o trabalho pela primeira vez, Nhy’ã te-ē resume o que move cada criação: “Artesanato é ancestralidade em forma de arte.”
E, em cada peça, mais do que beleza, há permanência.
Para acompanhar de perto as criações e conhecer as peças, o trabalho da Nambiporã pode ser acessado pelo Instagram:@nambipora