Recentemente eu escrevi um texto que começa com a seguinte frase: “Se eu fosse eu, verdadeiramente eu, não teria desistido de mim todas as vezes que eu desisti”. Apesar do texto ter seguido o seu caminho, a frase me acompanhou por semanas, mesmo depois de ter sido despejada no papel. Ressoando como um jingle de propaganda chiclete que cola na mente ou ainda um fantasma que tem assuntos inacabados para resolver antes de finalmente partir desse mundo.
Então aqui vai, um desabafo honesto do que a frase tanto me incomodou para dizer: eu desisti de mim. Mais vezes do que eu posso contar. E talvez você também tenha desistido de você em algum momento da sua vida. Isso porque a desistência nem sempre vem carregando um crachá de identificação e anunciando a sua intenção aos quatro ventos. Muitas vezes ela vem fantasiada de deveres, escolhas, responsabilidades que se escondem sob a frase de “eu tenho que…”. O resto da sentença você pode completar como se sentir mais confortável, mas aqui vão algumas velhas conhecidas minhas: dobrar a roupa, arrumar a casa, lavar louça, cuidar da família, cozinhar, ajudar fulano, resolver problema, apagar incêndio e por aí vai.
Essa desistência é perigosa porque ela não é clara nem honesta, ela é velada. Ela chega em silêncio, preenche o espaço que deveria ser dos seus sonhos e ainda te enche o peito com o sentimento de dever cumprido porque, no final das contas, você fez aquilo que deveria fazer, o que foi educada para fazer. O que era esperado que fizesse: cuidar, se responsabilizar, resolver. Mesmo que o problema, no início da questão, não seja seu, ou só seu, pelo menos.
Mas a origem do incêndio não importa, não de verdade, porque a vida requer urgência e “capacidade de priorizar” é uma qualidade tão valorizada no currículo quanto na rotina. Saber o que é pra hoje, pra agora, o que era pra ontem e o que pode esperar. Saber resolver, o que fazer, para onde ir e quem procurar. E, de alguma forma, por alguma coincidência do destino (contém ironia), normalmente são as mulheres que possuem essas tão sonhadas habilidades. Sabe aquela frase “o melhor homem para esse trabalho é uma mulher?”. E então você resolve. Tudo que aparece, você resolve. E, no final do dia, ainda fica com o gostinho na boca de não ser o suficiente, porque tanta coisa ficou para trás. Seu sonho, entre elas.
Pois é, aí vem a pergunta: a quem interessa te manter tão ocupada que não sobra tempo para correr atrás dos seus sonhos? A quem interessa mascarar desistência por responsabilidade, por obrigação? A verdade é que essa desistência tem raízes fortes em uma cultura patriarcal que naturalizou a acumulação de demandas pelo rótulo gourmetizado de “multitarefas”. Que romantiza a mulher que dá conta de tudo, que acorda cedo, que faz jornadas duplas, triplas, quádruplas mas que esconde com cuidado o custo desse “sucesso”: os sonhos abandonados pelo caminho. Largados pela casa como peças de roupa que esperam o momento em que serão recolhidos do chão e devidamente cuidados.
Eu espero, de coração, que quando você olhe para trás e encare de frente a sua trajetória, não encontre os momentos em que deixou teus sonhos de lado em prol de ser aquilo que deveria ser ou fazer, do papel que deveria cumprir. Que não tenha deixado de lado seu estudo, sua escrita, sua música, sua arte, seus objetivos, enquanto preenchia a lista de afazeres da mulher moderna. Mas eu, quando olho para trás, eu vejo esses momentos, claros como o dia, gritando que eu cumpri o que deveria, eu fui quem eu deveria ser, mas deixei uma parte de mim no processo.
Por isso esse texto é tanto um lavar da alma quanto um lembrete para nós duas, você e eu, de que os nossos sonhos valem mais, de que nós valemos mais. É um lembrete para ficar atenta a todas as armadilhas que o mundo cria para nos fazer desistir, sejam elas diretas ou indiretas, expostas ou veladas. Esse é um lembrete de que os nossos dias são contados aqui nesse planeta e a sua primeira e maior responsabilidade é consigo mesma e com tudo aquilo que você quer ser ou fazer na Terra. Que seu sonho vale a pena, mesmo que outras coisas fiquem para trás.
– Pronto, pensei alto.