Zeferina atravessa 2025 com a firmeza de quem sabe onde pisa e a delicadeza de quem honra cada passo. Mãe, avó, compositora, cantora, escritora e produtora musical, ela é uma das artistas mais queridas da comunidade do Hora do Sabbat. Neste ano, lançou quatro músicas que expandem sua assinatura estética e espiritual — obras que passeiam pelo amor, pela matéria, pelo invisível e pelo sagrado com a mesma elegância de quem carrega a própria linhagem no peito. Zeferina é presença constante desde o ano 1 da nossa temporada de estreia, e o programa vibra cada vez que um novo lançamento dela chega para nos atravessar.
Se há algo que define 2025 na trajetória da artista, é a maturidade criativa com que ela costura passado, presente e futuro. Cada faixa lançada nesse ciclo vem carregada de camadas, dores transformadas em canto e a percepção fina de que a música preta brasileira é um território de cura e permanência. No Hora do Sabbat, acompanhamos essa travessia desde os primeiros passos, celebrando a potência dessa voz que nos ensina a sustentar o brilho e a revolução a partir da sensibilidade.

“Xangô Alapalá”, seu lançamento mais recente, é mais do que música: é fundamento, reza, oferenda. A faixa marca o encontro raro entre Zeferina e Mateus Aleluia, um dos maiores griôs da cultura afro-brasileira. Não é todo dia que uma canção nasce do fogo — e esta, certamente, nasceu. Para além da sonoridade, o clipe amplia ainda mais essa experiência, criando imagens que habitam a terra, o céu e o cotidiano com a mesma força.
A Hora do Sabbat recebe esse lançamento com o carinho de quem reconhece Zeferina como uma das artistas que moldaram nossa identidade desde o começo. É uma honra conversar com ela neste momento tão simbólico, em que sua obra oscila entre o gesto íntimo e a dança ancestral do mundo. A seguir, a entrevista completa.
Sarah Mascarenhas:
Como seria o encontro da Zeferina mulher com a menina Zeferina? Essa mulher realizou os sonhos da menina que você já foi um dia? E essa menina imaginava que se tornaria essa mulher?
Zeferina:
A Zeferina de hoje abraçaria a menina com muita ternura. Diria pra ela: “Você não está sonhando errado. Continua.” E seguiria ecoando até que esse país escute.
Essa mulher aqui fez muita coisa que aquela menina nem sabia colocar em palavras. Ela não imaginava se tornar essa força toda — mas já carregava a semente, que eu só deixei florescer com o tempo.
Sarah Mascarenhas:
Seu novo lançamento, “Xangô Alapalá”, nasce como uma oferenda sonora. Como essa música chegou até você?
Zeferina:
“Xangô Alapalá” chegou como um fogo manso que vira labareda. Não foi uma música que decidi fazer ao acaso, ela me chamou desde o princípio. Senti que precisava afirmar, na matéria, um pedido de justiça, de equilíbrio, de verdade. Não só por mim, mas pela minha ancestralidade.
Na verdade, essa música é uma oferenda. Uma reza cantada. Eu só fui o instrumento dela.
Sarah Mascarenhas:
A faixa marca o encontro entre você e Mateus Aleluia, um dos maiores griôs vivos. O que significou cantar ao lado dele?
Zeferina:
Cantar com Mateus Aleluia é tocar o tempo com as mãos. Ele é um griô que carrega gerações na voz. Cresci indo pra balada ouvindo “Cordeiro de Nanã”, por exemplo. E nesse reencontro há uma história inteira se reconectando. Estar com ele foi um prazer — como receber uma vitória que atravessa temporalidades. Artisticamente, é um aprendizado profundo.
Espiritualmente, é uma confirmação.
Eu estou no caminho que meus mais velhos abriram.
Sarah Mascarenhas:
A produção de Malka Julieta é um capítulo à parte. Como foi esse processo criativo?
Zeferina:
Trabalhar com a Malka é um prazer imenso. Ela entrega um produto que você escuta com o corpo inteiro. Trouxe contemporaneidade sem apagar a força ancestral, o respeito, a canção e quem fez a canção. Ela respeita minha história e oferece uma perspectiva de criação coletiva muito generosa, independente de religião, crença ou segmento.
Ela se entrega para a arte.
Do começo ao fim, foi uma vibração positiva.
E a gente já sabia que não era só uma faixa — era um fundamento.
Sarah Mascarenhas:
O videoclipe também é muito simbólico. O que vocês quiseram revelar em imagem?
Zeferina:
No clipe, quisemos mostrar que a presença do Orixá não está só no terreiro. Ele está no cotidiano, na rua, na vida comum, nos gestos e escolhas. O Daniel Fagundes conseguiu transformar tudo isso em imagem com muita sensibilidade — uma mistura de fé, memória e liberdade. Pra mim, Xangô caminha com a gente ali, lado a lado.
Sarah Mascarenhas:
O lançamento acontece no Dia da Consciência Negra. O que essa data representa para você nesse contexto?
Zeferina:
Lançar essa música no Dia da Consciência Negra é assumir responsabilidade. É lembrar da luta, mas também celebrar a permanência do nosso povo.
Quero que quem escute sinta força, orgulho, a nossa história vibrando — e não só a dor. Essa música é potência, beleza, símbolo e sinônimo de continuidade.
Sarah Mascarenhas:
Cantar sobre justiça no Brasil de hoje é um ato político e sensível. O que significa isso para você?
Zeferina:
Cantar sobre justiça no Brasil hoje é, antes de tudo, existir sendo uma mulher preta e artista.
É denunciador, mas também anuncia um futuro. A minha voz é política por natureza própria.
Quando eu canto justiça, estou dizendo: não vamos aceitar menos do que a dignidade.
Atravessar essa canção é pisar num chão aceso de ancestralidade, memória e coragem. O clipe amplia a força que a música já carrega, transformando fogo, tempo e fé em imagem sensível e necessária. Para quem acompanha Zeferina desde o começo — e para quem chega agora —, é uma experiência que marca e permanece.

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Escute mulheres. Sempre.
Na Hora do Sabbat, acreditamos que escutar mulheres é um gesto de mundo: transforma, ilumina, desafia e afina o futuro. Zeferina é presença viva dessa potência, soprando justiça e beleza em cada verso, em cada harmonia.