Sou vulcão. Sou lava.
Sou redemoinho. Sou ventania.
Sou jardim. Sou terra.
Sou rio. Sou corredeira.
Nessa dança que é a vida, me pergunto: quem sou? O corpo-solo ancestral, onde gestaram minhas avós e ancestrais, podem sugerir meus costumes e indicar hábitos, expressões, o sangue que corre em mim. O corpo-solo natal, onde nasci, pode interferir diretamente (ou não) em minha forma de estar no mundo. O corpo-solo acolhimento, onde moro atualmente, pode apresentar grandes paradigmas rompidos.
Mas ainda assim: quem eu sou? O que me descreve nesse momento de vida?
os seres que foram portais para mim
minha família nuclear
meu companheiro
meu trabalho
os animais que me acompanham
meus espaços de desejos e prazeres
o corpo enquanto veículo nessa grande escola
as dores que se fazem presentes no corpo e n’alma

Foto: Laryssa Gaynett
Envelheço. As marcas são claras, não só em rugas, mas nos órgãos, na derme. O dar-me conta está mais rápido do que eu imaginava. Não consigo parar o tempo, apenas, sentir o fluir dele na pele e entre os dedos.
A apropriação desse corpo está mais convicta. Eu me aproprio de mim mesma, ninguém mais. Falo para mim todos os dias, inclusive para as minhas células lembrarem e ficar o registro no sangue e no ar.
Você se apropria de si mesma?
Esse verbo denota diversos significados, mas ficarei com este: tornar algo próprio. Quantas vezes fazemos, sentimos, reproduzimos algo que não é nosso? Quantas situações na vida nos inserimos a partir do que adquirimos a partir das pessoas que estão ao nosso redor ou do que a sociedade vai alimentando em nossas mentes?
Nesse mundo de IA’s, estar convicta de quem sou me torna genuína e ousada. Nessa dança que é a vida, vou me empenhando em sentir o dia. Nesse fluir, vou buscando olhar meu interior, repleto de belezas, potencialidades, dores, sombras. Sou uma mistura: texturas, cores, sabores, aromas, solos que me compõem, e vou semeando e plantando, todos os dias, nos encontros que ocorrem, seja comigo ou com os outros corpos dessa existência.
Ao envelhecer, sentir o ritmo do corpo se torna concreto, diário. Parece clichê, repetição… mas percebo, ao longo do tempo, seja cronológico ou psicológico, que o apropriar-se é o aspecto necessário para se sustentar diante do mundo.
Quando sinto meu corpo, suas limitações e potencialidades, o que me nutre e o que me sucumbe, consigo estender essas verbalidades para as relações entre os corpos, para os encontros e presenças.
Essa convicção é um reafirmar diário, seja na comida que preparo sem tantos conservantes ou químicos até mesmo no tipo de trabalho que me sustentará financeiramente, mês a mês. Há momentos que esse reafirmar gera um cansaço…
Mas sigo, andando nos caminhos que se abrem e construindo percursos também. E nesse movimento, meu corpo vai se nutrindo, pausando, relacionando-se, respirando, existindo.
O sou é permeado pelo estou.

Acervo pessoal

Catarina Araújo. Mulher, nordestina, psicóloga, terapeuta integrativa, arteterapeuta, poetisa, origamista, amante da Arte e da Natureza. Escreve poemas, contos, registrando para o mundo sobre a beleza, as dores da vida, os aprendizados e transformações em sua jornada.