Pintar e resistir: uma conversa sobre arte urbana

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Pintar e resistir: uma conversa sobre arte urbana

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Um paredão multicolorido combinava com precisão, uma tonalidade à outra. Bem ali, no coração da cidade de pedra, ele era um dos poucos vestígios de cor que vi naquela semana. A cidade cinza estava encoberta pelas chuvas torrenciais de abril, que pareciam engolir tudo. Ainda assim, os murais espalhados pelas avenidas vibravam como quem tenta contar, com urgência, uma história.

Aquilo me marcou de um modo que, arrisco dizer, foi mais profundo do que os quadros de pintores renomados que vi no MASP (Museu de Arte de São Paulo). Acontece que aqueles grafites, em uma rua qualquer, num muro qualquer, falavam diretamente comigo.

E o que queriam contar? O que queriam dizer? Esses muros, reais e simbólicos, separam o centro das periferias, guardam e também apagam memórias. É um paradoxo: artistas vindos dessas mesmas periferias usam o que nos divide como suporte para narrativas que resistem, forçando sua presença. Nas quebradas, a arte nos muros é protesto e provocação, mas também estética e afirmação.

É justamente nesses muros que a cidade se expressa. Muros de construções improvisadas, marcados pela ausência de planejamento urbano, refletem a desigualdade social e o descaso com a habitação. Contudo, a arte está ali, nos becos, nas vielas e nos grandes centros. E os muros, por vezes riscados e perfurados nos conflitos constantes — sobretudo pelas ações violentas do Estado —, servem de tela para a denúncia que ela a arte faz.

 Arte como Resistência

Grafite (ou Graffiti), muralismo, stencil, tags (assinaturas), pichação, skate, hip-hop, rap… todas essas expressões vão do protesto à ironia, da resistência político-cultural à tentativa de reconstrução de identidades silenciadas. Nesse contexto, o rapper Djonga acertou ao cantar: “Falar de paz nem se for pras paredes, já que até elas tomaram tiro. A angústia do artista que se arrisca é saber que só o fútil te interessa“.

Quando não se pode viver em paz, a arte se torna salvação. Em tempos em que projetos de lei tentam criminalizar o hip hop, o funk e tudo que vem das margens, silenciar essas expressões é mais uma vitória do fútil sobre o essencial.

Essas expressões da arte provocam reflexões sobre o cotidiano e permitem que grupos historicamente marginalizados — negros, indígenas, mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+ — ocupem estantes, galerias, palcos e redes, resgatando espaços antes negados. Nesse contexto, ela catalisa diálogo, reflexão e ação coletiva.Pensando na importância de conceder espaços, a atuação das mulheres na arte urbana é, por exemplo, essencial para reconstruir suas próprias narrativas.

Para aprofundar essa perspectiva e entender como a arte se manifesta na vida de quem a faz, convidei a artista Alexandra Baum — artista visual, grafiteira, diretora de arte e mãe do pequeno Caio, de três anos. Convidei Alexandra (Alex) para uma conversa sobre trajetória e resistência feminina na arte urbana.

Arte de Alexandra Baum – Arquivo Pessoal

“Conheci a cultura hip-hop na adolescência, por volta dos 14, 15 anos, quando comecei a frequentar batalhas de rima em Vila Velha. Desenho desde que me entendo por gente, mas foi nesse ambiente que tive meu primeiro contato direto com o graffiti. Ao ver outras pessoas pintando, soube imediatamente que queria fazer o mesmo”, relembra.

Apesar do encantamento imediato, Alexandra só começou a grafitar aos 19 anos. Na época, trabalhava em um shopping, onde conheceu Sulla, uma jovem que já fazia intervenções nas ruas e a convidou para pintar juntas. “Foi o início da minha trajetória. Depois, me aproximei de outros artistas, como o Fred Farias (vulgo SAMO), meu parceiro de rua por muito tempo. Com o tempo, fui participando de eventos e me envolvendo cada vez mais com a cena”.

As referências de Alexandra vêm, sobretudo, de outras mulheres capixabas que abriram caminho no graffiti, como Kika, Chama Amanda e Keka. Também se inspira no trabalho da muralista Hanna Lucatelli. “O trabalho dela tem uma força enorme e, ao mesmo tempo, muita sensibilidade. Ela retrata mulheres, especialmente negras e indígenas, e resgata uma ancestralidade muitas vezes apagada. Além disso, ela também foi mãe jovem, e eu me identifico profundamente com essa experiência”, afirma a artista.

Para Alexandra, a arte é uma extensão da própria vivência. “Falo dos meus sentimentos, das minhas vulnerabilidades. Isso nasce da minha experiência como mulher e mãe — e acredito que muitas outras se identificam”. 

O processo criativo da artista parte da escrita: “Gosto de escrever e também me inspiro em textos de outras mulheres. Vários dos meus trabalhos têm base na obra de Conceição Evaristo”.

Além da escrita, ela também se conecta à espiritualidade e às mensagens do inconsciente em suas criações. Questionada sobre as temáticas mais urgentes que tem buscado retratar, Alexandra é enfática: “A violência contra a mulher, inclusive a violência patrimonial, e a sobrecarga materna. A carga invisível que recai sobre as mães na sociedade é brutal”.

A arte de rua exige tempo e dedicação, e para muitas mulheres, isso é um desafio ainda maior. É o que expressa esta artista, ao descrever sua relação com a rua: “A rua, para mim, é um espaço de resistência. Ainda mais sendo mulher e mãe de uma criança pequena. É um desafio ocupar esses espaços, que são historicamente hostis às mulheres. A rotina já é sobrecarregada, então estar nas ruas pintando é, por si só, um ato político”.

Ela destaca que a presença feminina no graffiti sempre existiu, mas foi sistematicamente apagada da cena. “Hoje, temos mais mulheres nas ruas, em eventos feitos por e para mulheres. Isso cria uma rede de apoio essencial para quem está começando”.

Embora reconheça a importância das redes sociais para a divulgação do seu trabalho, Alexandra acredita que a presença offline é indispensável. “A visibilidade digital ajuda, mas não é tudo. É essencial participar de eventos de cultura hip-hop, trocar com outros artistas e fortalecer as conexões reais”.

Para ela, o maior papel da arte urbana é democratizar o acesso. “Pintando na rua, conseguimos impactar quem passa. Seja para tocar, inspirar ou simplesmente despertar o olhar. A arte precisa ser para todos”.

A história de Alexandra é um eco potente da urgência e da força que a arte urbana carrega. Conheça mais sobre o trabalho da Alex no Instagram (@alex027_).

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Respostas de 8

  1. Que texto lindo! Parabéns, Shirlane, sua escrita nos emociona. Muito interessante conhecer como funciona a arte de rua, principalmente a que é realizada por mulheres. ❤️

  2. É oficial, a melhor matéria da Shirlane vai ser sempre a próxima! 💖 Eu amo os detalhes perspicazes que dão vida às histórias das entrevistadas de uma forma bonita e potente! ✨Por um mundo com mais mulheres artistas e autênticas que saibam expressar seus sentimentos preservando suas raizes e identidades.✨

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