Tenho pensado muito, ultimamente, sobre o que significa existir no mundo sendo uma mulher indômita. Não no sentido romantizado da palavra, mas no seu peso real: indomável, não adestrável, não obediente. Um corpo que não abaixa a cabeça com facilidade, que não se encaixa no lugar esperado, que não aprende rápido a pedir licença para existir.
Ser indômita, para mim, não é ausência de medo. É existir apesar dele. É acordar todos os dias com a consciência de que esse corpo negro, feminino, artista, mãe, educador, é lido

socialmente como excesso. Excesso de opinião. Excesso de presença. Excesso de palavra. E, ainda assim, escolher não diminuir.
Há um cansaço que me atravessa. Uma solidão que não é apenas afetiva, mas política. A solidão de quem escreve e se pergunta se será lida com seriedade. A solidão de quem cria e sente que sua produção artística precisa ser constantemente justificada, explicada, defendida. A solidão de quem ocupa espaços sabendo que, muitas vezes, está ali como exceção — e não como regra.
Desde cedo, nos ensinam que mulheres devem ser dóceis. Que mulheres negras devem ser gratas. Que o silêncio é uma forma de proteção. Que baixar a cabeça evita conflitos. Mas o que acontece quando um corpo se recusa a esse roteiro? Quando uma mulher negra não performa a obediência esperada? Quando ela escreve, fala, cria e se posiciona sem pedir autorização?
O mundo responde com estranhamento. Com tentativas sutis — e nem tão sutis assim — de enquadramento. Questionam nossa postura, nossa linguagem, nossas escolhas estéticas. Colocam em dúvida nossa capacidade, nossa inteligência, nossa legitimidade. E, muitas vezes, nos fazem duvidar de nós mesmas.

Eu duvido. Não romantizo isso. Duvido das minhas escritas, das minhas criações, do alcance do que produzo. Pergunto se estou indo longe demais, se estou falando alto demais, se estou sendo “difícil demais”. Mas também sei reconhecer que essa dúvida não nasce do vazio — ela é construída socialmente, especialmente sobre corpos como o meu.
Ser indômita, nesse contexto, é também um gesto de cuidado consigo. É escolher não se domesticar para caber. É entender que a minha palavra nasce da vivência, da escrevivência, daquilo que me atravessa como mulher negra no mundo. E que essa palavra tem valor, mesmo quando incomoda.
Não escrevo para convencer. Escrevo para existir. Escrevo porque o silêncio nunca foi uma opção segura para nós. Escrevo porque acredito que quando uma mulher negra ocupa a palavra pública, ela abre frestas para que outras também se reconheçam possíveis.
Essa coluna nasce desse lugar: da recusa ao adestramento. Da afirmação de que é possível — e necessário — existir de forma indômita. Com medo, com dúvida, com solidão, mas também com lucidez, força e criação.
Que esse texto provoque perguntas. Que incomode. Que convoque outras mulheres, outros corpos, a pensarem sobre quantas vezes aprenderam a se encolher para sobreviver. E, principalmente, sobre o que pode nascer quando decidimos não baixar mais a cabeça.
Eu sou indômita.
E essa escrita também.
As fotografias presentes nesta coluna são registros do vídeo-dança Entrenós – pele em escárnio, criação das pesquisadoras Agrestinas Bianca Quaresma, Cíntia Souza, Mylene Ferreira.
A obra completa pode ser acessada no link: https://www.youtube.com/watch?v=cxhkphtFhXI&list=RDcxhkphtFhXI&start_radio=1