No episódio “Armadilhas”, a Hora do Sabbat parte de uma experiência pessoal para afirmar o descanso como escolha política, enfrentar as violências do patriarcado e pensar redes em que responsabilidade, reconhecimento e cuidado circulem entre todas
Voltei de viagem falando sobre descanso.
Falando sobre o direito de respirar, de cuidar das minhas plantas, de assistir a uma série, de viver um domingo sem transformá-lo em extensão da jornada de trabalho. Falando sobre a urgência de preservar o corpo e a mente antes que o esgotamento cobre a conta — sempre com juros patriarcais, porque até nisso o sistema é agiota.
Tenho me tornado uma militante do descanso.
Escolho essa palavra, militante, porque descansar ainda exige posicionamento. Mulheres aprendem cedo a demonstrar amor por meio do serviço, competência por meio da sobrecarga e compromisso por meio da disponibilidade permanente. O cansaço ganha medalha. A exaustão recebe aplausos. A mulher que resolve tudo vira exemplo — e continua resolvendo tudo.
Eu escolho outro caminho.
Descansar preserva a mulher, sua criatividade, sua saúde e sua capacidade de decidir. Descansar também sustenta projetos, relações e coletivos, porque uma construção duradoura precisa de mulheres inteiras, vivas e capazes de sentir prazer naquilo que fazem.
Foi desse lugar que nasceu o episódio Armadilhas.
Quando a roda parou
No dia 26 de julho, estava marcada uma reunião da equipe da Hora do Sabbat.
Eu esqueci. Outras mulheres também esqueceram. O encontro ficou pelo caminho.
Dias depois, uma mulher da equipe perguntou se a reunião havia acontecido. Quando contei que o encontro passou, ela lamentou:
— Ai, que pena. Porque é tão legal.
E é legal mesmo.
Estar juntas, trocar ideias, planejar, criar e perceber a potência de tantas mulheres reunidas faz parte da beleza da Hora do Sabbat. Ao mesmo tempo, uma rede se fortalece quando cada mulher também assume o gesto de convocar, lembrar, perguntar, propor e fazer acontecer.
Há oito anos, dedico parte do meu tempo a abrir essa roda. Convoco, organizo, escrevo, cobro, publico, acompanho e resolvo. Durante muito tempo, associei esse movimento à minha responsabilidade como coordenadora. Minha competência parecia justificar cada nova tarefa.
A reunião esquecida trouxe outra leitura.
Quando eu parei, a roda também parou.
Essa percepção produziu uma pergunta incômoda e necessária: estamos construindo uma rede responsável ou nos habituando à presença de uma mulher que sempre resolve?
Também reconheço a minha participação nessa engrenagem. O “deixa que eu faço” oferece rapidez, controle e a sensação imediata de eficiência. Depois, transforma uma liderança em ponto obrigatório de passagem para tudo.
Agora escolho uma liderança que circule.
Escolho uma vida em que sustentar seja um gesto compartilhado. Uma rede na qual cada mulher reconheça a própria capacidade de propor, decidir, executar e cuidar do espaço comum. Uma construção em que o descanso de uma preserve a continuidade de todas.
Descansar é uma escolha política
O patriarcado prospera com mulheres exaustas.
Uma mulher cansada encontra menos tempo para perceber a violência, construir autonomia, participar da vida pública, criar alianças e imaginar outros futuros. Sua energia fica concentrada em sobreviver ao próximo prazo, à próxima demanda, ao próximo problema que alguém deixou em suas mãos.
Por isso, defender o descanso ultrapassa a conversa sobre bem-estar.
Descanso é direito.
Descanso é saúde.
Descanso é tempo para pensar.
Descanso é autonomia sobre o próprio corpo.
Descanso é também uma escolha política, porque devolve às mulheres uma parte da vida que a divisão desigual do trabalho insiste em consumir.
A militância do descanso afirma que nossa existência possui valor para além daquilo que produzimos. Afirma que uma mulher continua merecendo cuidado quando fecha o computador, silencia o celular, falta a uma reunião ou admite que chegou ao limite.
A mulher forte também dorme. A líder também esquece. A militante também deseja um domingo tranquilo. E cada uma dessas experiências confirma sua humanidade.
Uma rede madura acolhe essa humanidade e distribui responsabilidades antes que alguém precise adoecer para ser substituída.
As palavras bonitas do controle
Agosto é lilás porque a violência contra as mulheres precisa ser reconhecida, enfrentada e interrompida.
Em 2026, a Lei Maria da Penha completa vinte anos. Essa conquista histórica ampliou a compreensão da violência doméstica e familiar ao reconhecer cinco formas de agressão: física, psicológica, sexual, moral e patrimonial.
Essa compreensão oferece às mulheres instrumentos para nomear experiências que durante muito tempo foram tratadas como normais dentro das relações.
A violência também aparece quando alguém controla o dinheiro, vigia o celular, destrói documentos, impede uma mulher de trabalhar, afasta-a de suas relações, ameaça, humilha ou produz nela uma dúvida permanente sobre a própria lucidez.
Algumas armadilhas patriarcais vestem palavras bonitas.
O controle se apresenta como cuidado.
O ciúme se apresenta como amor.
A vigilância se apresenta como preocupação.
A proibição se apresenta como proteção.
Reconhecer essa troca de nomes ajuda a desmontar a armadilha. Informação abre caminhos. Autonomia fortalece escolhas. Políticas públicas, orçamento, acolhimento e responsabilização dos agressores transformam a luta em proteção concreta.
Por isso, nossa pergunta também precisa mudar. Em lugar de cobrar explicações de uma mulher por sua permanência, podemos investigar as condições emocionais, econômicas, familiares e institucionais que sustentam o agressor e dificultam a saída.
Essa mudança carrega uma escolha política: a responsabilidade pertence a quem pratica a violência e às estruturas que a autorizam.
A lucidez de Helena Lahis
O episódio aborda o caso da escritora Helena Lahis, internada contra a própria vontade durante o processo de separação de Paulo Henrique de Lima, presidente da Universal Music Brasil.
Helena permaneceu por 21 dias em uma clínica psiquiátrica no Rio de Janeiro, com a comunicação externa interrompida. Sua saída ocorreu por determinação de um habeas corpus.
Uma pessoa próxima à escritora informou que a condenação da clínica, em uma das ações relacionadas ao caso, foi mantida por unanimidade na segunda instância. O inteiro teor dessa decisão ainda aguarda publicação; por isso, a Hora do Sabbat trabalha com os fatos que puderam ser confirmados.
A história de Helena expõe uma estratégia antiga do poder patriarcal: apresentar a lucidez feminina como desequilíbrio quando uma mulher reivindica autonomia.
Durante séculos, mulheres que desobedeceram, recusaram casamentos, manifestaram desejos, denunciaram violências ou enfrentaram homens poderosos receberam os rótulos de loucas, histéricas e incapazes.
A aparência institucional se atualiza. A lógica atravessa o tempo.
Contar a história de Helena significa reconhecer sua voz, sua capacidade de decidir e seu direito de conduzir a própria vida. Significa também escolher de que lado estamos: ao lado da autonomia das mulheres.
Sororidade com trabalho, conflito e responsabilidade
O patriarcado também fabrica rivalidade.
Mulheres foram colocadas diante de espaços escassos e ensinadas a disputar a única cadeira oferecida. Quando apenas uma pode entrar, cada mulher passa a enxergar as demais como ameaça.
Uma política feminista abre mais portas e coloca mais cadeiras na sala.
Mulheres podem discordar, estabelecer limites, disputar oportunidades e escolher relações diferentes. A sororidade ganha força quando deixa o campo da simpatia obrigatória e entra no campo da responsabilidade política.
Sororidade é reconhecer a humanidade da outra.
É oferecer uma crítica honesta sem recorrer à destruição.
É repartir trabalho e reconhecimento.
É sustentar acordos.
É atravessar conflitos preservando a dignidade de todas.
É perceber quem continua carregando as cadeiras, organizando a pauta e apagando a luz depois que o discurso sobre união terminou.
A cooperação exige prática. Exige retorno, inclusive quando a resposta é a impossibilidade de participar. Exige cumprimento dos combinados, reconhecimento das tarefas invisíveis e disposição para ocupar os espaços que outra mulher trabalhou para abrir.
Uma porta aberta cumpre sua potência quando muitas mulheres atravessam e ajudam a mantê-la aberta para as próximas.
A competência merece companhia
“Você é forte.”
“Você dá conta.”
“Você sempre resolve.”
Essas frases reconhecem uma capacidade real. Mulheres criam, lideram, sustentam famílias, organizam equipes, administram crises e fazem muito com recursos escassos.
A escolha política está em oferecer companhia a essa competência.
Em casa, isso significa compartilhar o planejamento, os cuidados, as contas, as compras e a carga mental.
No trabalho, significa distribuir prazos, decisões, acolhimento e reconhecimento.
Nos coletivos, significa transformar participação em presença ativa: convocar, escrever, responder, propor, produzir, divulgar e assumir responsabilidades.
Pensar pelo grupo inteiro também é trabalho.
Lembrar por todas também é trabalho.
Manter uma estrutura emocionalmente funcionando também é trabalho.
Quando esse trabalho circula, a competência deixa de produzir isolamento e passa a criar potência coletiva.
Autonomia e abandono ocupam lugares diferentes. A autonomia oferece condições para escolher, agir e descansar. O abandono concentra em uma mulher a responsabilidade pela continuidade de tudo.
Nós escolhemos a autonomia.
Uma rede responsável
Em oito anos de Hora do Sabbat, aprendi que uma rede se faz no cotidiano.
Ela cresce nos grandes encontros e nas pequenas respostas. Ganha consistência quando cada participante compreende que também possui poder de iniciativa. Respira quando a liderança circula. Floresce quando reconhecimento, trabalho e descanso são distribuídos.
Cooperação inclui conversa, negociação, conflito, reparação e limite.
Inclui também o direito de dizer: hoje eu descanso.
Essa frase preserva uma mulher e convida a rede a se movimentar. Ela abre espaço para que outra pessoa convoque, proponha, decida e descubra a própria capacidade de liderar.
A reunião esquecida virou aprendizado. Um acontecimento pequeno revelou uma estrutura inteira e confirmou uma escolha que venho afirmando desde que voltei de viagem:
Quero continuar fazendo a Hora do Sabbat. Quero continuar criando, pesquisando, entrevistando, escutando música e reunindo mulheres. Quero fazer tudo isso inteira.
Meu descanso faz parte desse projeto.
O descanso das mulheres da equipe também.
Nossa continuidade depende da capacidade de construirmos uma rede responsável, na qual todas possam trabalhar, criar, participar, recuar, respirar e retornar.
Memória, escolha e permanência
Em Contos Sagrados, Camila Genaro apresenta uma narrativa sobre memória, permanência e resistência. Enquanto flores são destruídas, uma pequena flor roxa, semeada pela Deusa da Memória, continua renascendo.
Ela recebe o nome de perpétua e carrega uma afirmação essencial: a história mantém viva a presença daquelas que vieram antes de nós.
Em Diário de uma Bruxa, coluna ficcional escrita e produzida por Alessandra Xavier, a personagem Amanda atravessa escolhas, culpas e a cobrança pela decisão sempre correta.
As duas histórias conversam profundamente com este episódio. Uma preserva a memória diante do apagamento. A outra afirma que autonomia também inclui experimentar, mudar de ideia e acolher a própria imperfeição.
A seleção musical reúne La Muchacha, Ekena, Nina Oliveira, Flaira Ferro, Kynnie, Pitty, Antonia Medeiros, Rita Lee e The Breeders — artistas que transformam palavra, incômodo e liberdade em música.
As armadilhas do patriarcado nos ensinaram a sobreviver sozinhas.
Nossa escolha política aponta para outro horizonte: mulheres inteiras, responsabilidades compartilhadas e redes capazes de sustentar tanto o trabalho quanto o descanso.
Porque juntas podemos contar umas com as outras.
Inclusive quando a mulher que sempre convoca a reunião escolhe respirar.
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A Hora do Sabbat é uma revista radiofônica feminista produzida pela Sabbazeira Comunicação.
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Uma resposta
Quantas mulheres precisam ler e entender isso. Muito, muito bom! Descansemos.