“ …uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção….”, já dizia Virgínia Wolf.
São muitas as escritoras, mas, se compararmos aos escritores, ainda somos minoria. No Brasil, as mulheres só foram autorizadas a frequentar a escola pública em 1827. Se olharmos para a estante de livros ou para a biblioteca que temos em casa, é fácil perceber que a maioria dos títulos é de predominância de autores. E aí fica a pergunta: como anda a igualdade de gênero na literatura? Talvez, um dos parâmetros para responder a essa pergunta seja a premiação máxima – o prêmio Nobel de Literatura – que contemplou até hoje, 17 escritoras, desde 1901, dos 120 prêmios Nobel de Literatura.
A escritora russa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2015, com a obra A guerra não tem rosto de mulher, narra a saga para publicar seu livro recebendo recusas das editoras por dois longos anos tendo como justificativa “não ser a guerra certa a ser mostrada”. Mas, afinal, por que a recusa em dar voz às mulheres? Por que ainda escolhemos narrativas contadas a partir de uma perspectiva masculina? Por que a insistência no apagamento e no reconhecimento da legitimidade de outros sujeitos? “Nenhuma área de conhecimento pode ser plenamente fecunda e criativa se guardar tamanha desigualdade”, ressalta Yara Frateschi, professora de Ética e Filosofia Política na Unicamp.
Mas para que serve um livro? Fico com a citação da escritora Lygia Bojunga, escritora gaúcha, nascida em 1932, no livro Feito à mão: (…)“É que sempre eu usei livro pra tudo: pra saber ler, pra altear pé de mesa, pra aprender a usar a imaginação, pra ter companhia dia e noite, pra chorar de emoção, pra banquinho de pé, eu sempre usei livro pra tanta coisa, que a coisa que mais me espanta é ver gente vivendo sem livro” (…).
Apesar do vasto celeiro de escritoras que admiro, escolhi falar de algumas que me tocam profundamente, não só pelos seus escritos e conjunto da obra, mas pelo seu “ser e estar no mundo”.
Literatura feita por mulheres
Começo com a escritora, jornalista e roteirista de séries, Giovana Madalosso, colunista na Folha de São Paulo e ativista, curitibana radicada em São Paulo, autora de A Teta Racional, Suíte Tóquio e Tudo pode ser roubado. Durante a pandemia foi uma das colaboradoras do projeto Invisíveis, que produziu obituários das vítimas da covid-19, numa tentativa de elaboração do luto, a partir da escuta de cada pessoa que perdeu um ente querido.
Seu livro de estreia A Teta Racional, finalista do Prêmio Biblioteca Nacional, no qual abordava a sua experiência de maternidade e amamentação, enfrentou a resistência das editoras.
A Teta Racional fala desse lugar da mulher: o da maternidade. Da desconstrução de uma maternidade idealizada e seus desafios. Da construção do amor entre mãe e filha. “Escrevi esse livro desse lugar, de muito amor, muito prazer, mas também da dor que a maternidade traz”.
Tal qual a russa Svetlana, Giovana conta que ficou com esse manuscrito embaixo do braço por dois anos. À época não conhecia ninguém do mercado editorial. “As editoras gostavam do livro, mas me chamavam e diziam: você escreve tão bem, mas essa temática é muito complicada, quem vai se interessar pela história de mãe amamentando filho”.
Outra recomendação foi a mudança do título do livro, o incômodo com a palavra teta, apontada como chula. “O que me deixou indignada na ocasião e me fez pensar que os homens, talvez, prefiram pensar na palavra seio por ser mais sensual. Isso me deu um aprendizado sobre as questões do feminismo, de que temos que tomar conta das palavras, e de que lutamos não só pelos nossos direitos, mas que lutamos por palavras que por algumas questões moralistas foram proibidas para nós”, comenta.
Os dois outros livros de sucesso, Suíte Tóquio e Tudo pode ser roubado, trazem, o primeiro, a história entre uma mulher e a babá da filha, desenhando as nuances desse convívio, a relação de poder entre a patroa e a empregada e a forma como a mãe delega os cuidados da filha para a babá. Em um certo momento, a babá percebe que será mandada embora e decide sequestrar a criança. O casal que está em crise, agora precisa procurar pela criança. “Este é um livro que fala de maternidade, de afeto, da questão de classe, do casamento e a crise da monogamia”. Em Tudo pode ser roubado, ambientado em São Paulo, temos um clássico sendo roubado – a primeira edição do livro O Guarani – onde a própria cidade é uma personagem. “Este livro nasceu, a partir da minha observação da cidade de São Paulo, que proporciona oportunidades, cultura, gastronomia, entretenimento, mas que ao mesmo tempo, produz um vazio existencial nas pessoas. As personagens do livro, na verdade, são muito solitárias. Eu coloquei São Paulo como personagem, até para mostrar o quanto a cidade que você escolhe morar influencia na qualidade de vida e nas relações. A mesma cidade que abraça, também pode esmagar”.
Falando da sua relação com a literatura e a escrita, Giovana costuma dizer: “sou feminista, minha literatura não”. E continua…“Eu escrevo para todo mundo, não quero ser uma escritora de nicho. Não gosto desses rótulos, literatura feminina ou literatura feminista, pois isso aprisiona novamente a literatura feita por mulheres dentro de um gênero. E quando a gente cria um gênero e coloca a literatura que a gente faz, que é uma literatura universal como a literatura feita pelos homens, a gente se coloca de novo no cantinho, tornando a nossa literatura, uma literatura especializada. Prefiro chamar, portanto, de literatura feita por mulheres, o que não exclui um olhar feminista da autora. A arte deve ser livre, não gosto de levantar bandeiras ou dar aos meus livros um caráter panfletário. Se amanhã ou depois, eu não quiser tocar nesses assuntos ou escrever na voz de um homem, não tem problema nenhum. A arte é um lugar que cabe tudo. Gosto muito de escrever, mais ainda de ler. Posso dividir minha vida, inclusive, pelo ciclo de leituras. Me constituí como sujeito, a partir das leituras que fiz. Me encontrem nos livros, que é o melhor lugar para me encontrar”.
A autora acaba de lançar Batida Só, seu último romance, que conta a história de uma jornalista que após desmaiar durante um assalto e acordar em um hospital descobre que tem uma arritmia grave e precisa evitar emoções fortes – uma tarefa quase impossível em meio ao caos da cidade grande e da rotina profissional. Em busca de paz, ela se refugia na casa dos avós, em Moenda, cidade onde passou a infância, e tenta silenciar o coração com antidepressivos.
O plano de isolamento começa a ruir quando Nico, um garoto curioso, aparece com um oratório. Nico é filho de Sara, amiga de infância que ficou na cidade. Religiosa no estilo “flex”, dona de uma autoescola e tudo que a protagonista não é, Sara desafia seu ceticismo e seu autocontrole. Ainda assim, os três embarcam juntos numa jornada inesperada – em busca de uma cura que, talvez, não tenha a ver com o corpo.
A escritora, roteirista, dramaturga e feminista Renata Corrêa, autora de Monumento para a mulher desconhecida – Ensaios íntimos sobre o feminino acredita nos livros para transformar o mundo. “A escrita é o lugar onde sempre consegui me expressar melhor. Quando criança, não tinha a noção de que isso poderia ser uma profissão. Era um universo muito distante. Mas sempre escrevi histórias, mesmo sem saber se elas poderiam ser publicadas ou encenadas”.

O livro, com prefácio da jornalista e comunicadora Sarah Oliveira, é uma viagem ao mesmo tempo pessoal e abrangente pela experiência feminina no século XXI. São abordados temas como saúde mental, relacionamentos, aborto, machismo… nada aqui é tabu. Baseando-se na sua vida e em dados e entrevistas com especialistas, a escritora e roteirista mergulha profundamente nos questionamentos do que é ser mulher trazendo uma coletânea de ensaios, artigos e impressões. Renata dedica um capítulo a um tema ainda tabu no Brasil: o aborto. “Estamos atrasados em relação a muitos países por termos uma legislação muito conservadora. Esta é uma questão que abraça todas as classes sociais, religiões e recortes raciais e deve ser tratada como saúde pública”.
Renata conta que a escrita tem um lugar central em sua vida. “Eu sempre quis trabalhar com escrita, é uma das formas de me relacionar com o mundo. A escrita é um lugar de elaboração. Falando especialmente do Monumento da mulher desconhecida, ele foi pensado para dar corpo e forma a esse feminismo mais teórico que eu já vinha pensando. Eu já publicava textos sobre o feminismo, mas de uma forma muito pulverizada. O universo da internet é bastante interessante, pois chega a muita gente, mas não necessariamente dá corpo a um pensamento. Como é um livro de ensaios, ele tem um escopo bem amplo e um aspecto bem fluido. Ele foi pensado como um ponto de partida para uma conversa. Não tem um caráter lacrador, de fechamento. Mas de início e possibilidade de uma abertura”.
O exercício da escrita é insistir, persistir e resistir. Renata diz: “verbalizar o desejo pode ser uma ação completamente devastadora e também a única posição possível para se manter íntegra”.
Na telinha, Renata é autora na série Rensga Hits e também assinou o roteiro da novela Vai na Fé, ambas na TV Globo.
Já a jovem escritora, poetisa e atriz Luiza Romão, ganhadora do Prêmio Jabuti 2022, na categoria Poesia, com o livro Também guardamos pedras aqui, há anos participa da cena de saraus e slams na cidade de São Paulo. No ano em que Luiza concorreu, também estavam na disputa nomes como Laurentino Gomes, Tatiana Nascimento, Ricardo Aleixo e Arnaldo Antunes.
Nessa obra, ela cria um diálogo direto com a Ilíada, de Homero, considerada a narrativa que inaugura a literatura ocidental. Os poemas seguem o ponto de vista de personagens da epopeia grega, mas com uma visão mais crítica da guerra.
Também guardamos pedras aqui inspirou um curta-metragem homônimo, de 2021, dirigido por Eugênio Lima. Áudios dos poemas “Ifigênia”, “Ilíone” e “Andrômaca” foram cedidos pela autora e fazem parte desse episódio.
Formada em artes cênicas, Luiza se aproximou da poesia atraída pelo modelo performático do slam, que começou a frequentar em 2013. “Às vezes, eu só entendo meus poemas quando performo. Esse trânsito entre linguagens é indissociável. É a gente que tenta categorizar as coisas.”
Ao falar sobre sua relação com a literatura e o feminismo, a força política da escrita de mulheres e como pensa resistência, cultura, diversidade e representatividade, aponta: “Não dá mais para o mercado literário ignorar a poesia independente”.
Faz parte deste time de mulheres incríveis, a escritora Natalia Timerman, autora do sucesso Copo Vazio, que trata da vivência do abandono amoroso nos dias atuais, a partir da personagem Mirela. Mulher inteligente e bem-sucedida, a protagonista conhece Pedro em um aplicativo de relacionamentos. Eles se envolvem, se apaixonam e vivem meses de um romance intenso e feliz. Pedro, porém, em um belo dia, do nada, sem explicações, desaparece. Angustiada e sofrendo de ansiedade, Mirela se vê obrigada a lidar com a falta de sentido do abandono. Não houve término, apenas um corte seco.
Se em Copo Vazio, a autora trata do ghosting, que fala dos nossos afetos e da forma como alguns sujeitos lidam ou, melhor, não lidam com os seus afetos e relações nos dias atuais, em As pequenas chances, Natalia trata do luto.
Uma pequena sinopse sobre o livro: Enquanto aguarda um voo, Natalia encontra o médico de cuidados paliativos que atendeu seu pai Artur. A conversa desperta nela toda a experiência da perda, ainda próxima e repleta de cicatrizes. E é a memória dos meses e dias finais do pai da narradora que compõe a base deste romance de extraordinária beleza, uma indagação cortante sobre família, lembrança, judaísmo, vida e morte. Artur era médico, então a notícia de que o câncer havia retornado vem seguida da certeza da finitude ― não há meias-palavras ou possibilidade de esperança. Essa cena se dá em um aeroporto – lugar de chegadas e de partidas.
Já na epígrafe do livro, a autora traz uma frase de Annie Ernaux: “história familiar e história coletiva são uma única coisa”. Será preciso coragem para trazer à tona uma história tão íntima?
O livro ainda conta a viagem da irmã, engenheira náutica, para chegar a tempo de despedir-se do pai, o resgate das origens, no caso aqui, a judaica, e dos ritos da religião, o judaísmo. Em As pequenas chances, a vida vivida e a vida narrada se encontram em uma linha muito tênue.
Desterros, o primeiro livro da autora, que acaba de ser relançado, retrata de forma literária, as histórias reais de presos, carcereiros e médicos que encontrou ao longo de seus oito anos trabalhando no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário. “É a cada pessoa cuja história faz parte deste livro, a cada pessoa presa que me confiou a narrativa da sua vida, que eu devo esta reedição. Pois além (e antes) de me possibilitar escrever, Desterros permitiu que essas histórias fossem contadas, que fossem salvas do esquecimento”.
“A arte é a mais inútil das coisas imprescindíveis”, diz Liana Ferraz, autora dos celebrados Um prefácio para Olívia Guerra, Sede de me beber inteira e Poemas no divã.
A autora acaba de lançar Pequeno manual de como me amar e não tem medo de se mostrar nua e crua. Coloca o coração na ponta dos dedos e divide suas entranhas, seus devaneios e seus desejos. A obra oferece um mergulho íntimo nas emoções humanas, ajudando o leitor a refletir sobre si mesmo com sensibilidade e profundidade.