Estou entrando em um grande galpão, caminhando. Minha caminhada não é apenas uma caminhada, é uma dança. Danço enquanto caminho, e é assim que me movimento pelo espaço. Estou acompanhada de outras duas mulheres, todas nós caminhamos dançando. Movimentos de braços amplos e leves, somos vento. Giro, dou passos adiante, minha trajetória não é linear, é aleatória, sou guiada pelo gesto e o desejo de mover. Esses gestos tocam meu corpo, ora sim, ora não, são afagos suaves e prazerosos que me dou enquanto sigo pelo espaço.
Atravesso o galpão dessa maneira, e então avisto portas abertas, uma ao lado da outra. São infinitas portas. Chego até a primeira, examino da entrada e vejo um quarto com uma cama e uma janela ampla. Por ela, bastante sol entrando diretamente, deixando o quarto todo iluminado. É tanta luz que mal consigo abrir os olhos e enxergar o que havia ali. Saio. Da segunda porta, observo de longe o outro quarto, também com uma cama e uma janela ampla, sol entrando. Dessa vez consigo enxergar melhor o quarto mas não gosto da decoração, da posição dos móveis, e saio mais uma vez.
Chego então no terceiro quarto. De sua janela entra luz mas não tanta luz quanto nos outros, fico curiosa e entro no cômodo. A distribuição dos móveis e a decoração me agrada mais, vou até a janela e descubro que, na verdade, é uma vitrine com duas persianas do lado de dentro e duas do lado de fora. Por dentro, a primeira está aberta, enquanto a segunda está fechada. Por fora, o exato oposto acontece, a primeira fechada, a segunda aberta. Abro a segunda persiana de dentro e penso “Pelo menos, quem chegar vai conseguir ver o que já está aqui”.
Por algum motivo entendi que não poderia voltar para os quartos anteriores, algo me dizia que as duas outras mulheres já estariam ali. Poderia seguir espiando os infinitos quartos adiante, mas pensei que havia a chance de seguir sem nunca escolher um de fato. Fiquei neste terceiro. Quando senti que ali era meu espaço, me perguntei “o que faço agora?”, e ouvi uma voz interna dizendo que tudo o que eu precisava fazer era continuar dançando, me acariciando e sentindo prazer ao fazer isso. Desfrutar de mim mesma era minha única tarefa.
Esse sonho me ocorreu nesse último mês, depois de uma conversa que tive com a professora Juliana Amaral, com quem tenho feito aulas no curso livre de performance na EMESP, aqui em São Paulo. Depois de uma apresentação que fizemos, quis saber das suas impressões e sugestões pra seguir trabalhando e lapidando minha presença no palco. “Falta você desfrutar mais desse momento, estar menos ansiosa para as próximas partes. Curte o que você acabou de criar e não fica preocupada em cantar o que vem depois.” Essa rápida conversa reverberou nesse sonho e nesses tantos símbolos que me chamam a atenção.
O caminhar-dançar
Há muitas formas de estarmos no mundo, de nos movermos. Num outro sonho que tive na mesma semana eu caminhava e fazia parkour pelo caminho, subia nas árvores e seguia pulando aqui e ali. Era mais uma forma de ocupar os espaços fora do padrão, do esperado, do que convencionamos socialmente e isso me chama a atenção. Experienciar esses dois modos de mover tão distintos no plano onírico, me faz questionar a maneira com que temos caminhado pelo mundo, literal e simbolicamente.
Nossa caminhada não precisa ser apenas uma caminhada, pode ser uma dança. Isso altera nosso olhar diante das coisas, dos espaços, das pessoas com quem cruzamos pelo caminho. Pode ser que ninguém perceba mas por dentro, podemos dançar. Podemos escolher ser conduzidas por outros guias que não nossa cabeça, nossa mente, nosso pensamento lógico. Podemos conferir nosso estado interno com o nosso toque, com auto-afagos sem constrangimento, nos oferecendo gotas de presença. Não precisamos ser lineares, sair daqui e chegar ali numa belíssima e perfeitamente indesviável rota. Podemos escutar o nosso desejo de mover e respirar no nosso prazer. Tudo isso enquanto tudo a nossa volta nos diz o contrário. Desobediência. Tudo isso diante dos que correm e se enrijecem para manterem-se dentro das regras do esperado. Tudo isso enquanto ninguém tem tempo pra prestar atenção em nada. Podemos estar no mundo de outras formas, inaugurando outros mundos internos. E se acaso alguém prestar atenção, pode ser que também se inspire a dançar.
A escolha (im)perfeita
Acho curioso ter escolhido justamente o terceiro quarto, aquele cuja vitrine estava parcialmente obstruída. As outras janelas-vitrine se mostravam com mais luminosidade e visibilidade, mas eram tão expostos e sua claridade me incomodava tanto que eu não poderia permanecer ali. Escolhi o que me oferecia o suporte necessário diante daquele estado de prazer em movimento que eu queria sustentar.
Afinal, o que nos leva a fazer nossas escolhas? Podemos traçar raciocínios lógicos para nos justificarmos ponto a ponto mas quando sentimos que estamos onde precisamos estar e confiamos no nosso instinto, é suficiente.
E por que não seguir adiante, caçando o quarto perfeito? Porque ele nunca existiria, simples assim. O que importava não era fazer a escolha perfeita, e sim seguir dançando. O que nos importa é seguir realizando aquilo que queremos que exista, que desejamos sustentar com todo o nosso prazer.
Uma vitrine dentro do quarto
Aquela vitrine, em particular, tinha algo muito próprio. Era possível fechá-la por dentro também, não apenas por fora. Quem quer que ocupasse aquele cômodo tinha o poder de escolher quando se deixar visível para o exterior e quando não, ao mesmo tempo em que o trabalho de levantar as persianas exteriores não era de sua responsabilidade.
A vitrine, símbolo de exposição, está dentro de um quarto, um ambiente íntimo. O que será exibido ali é do campo dos segredos, do mistério, daquilo que se faz quando se está sozinha e reservada, no espaço mais privado de toda casa. A arte (e toda criação) nos exige habitar nossos ambientes, ocupando e nos apropriando dos espaços, através do convívio, da prática, gerando intimidade, proximidade e até cumplicidade com esse ambiente. O palco, a folha em branco, a palavra, o vídeo, qualquer que seja o canal através do qual nossa expressão se faz é esse ambiente, o qual visitamos constantemente até o habitarmos com segurança e relaxamento necessários para que façamos a escolha de revelar o nosso mistério.
Sustentar o “ser vista sentindo prazer”
Intimidade leva tempo e para que possamos fortalecer essa conexão com nosso ambiente de expressão precisamos acessá-lo constantemente. É preciso praticar a exposição, o ser vista, e é preciso gentileza conosco e com quem mais está ali praticando sua conexão diante de nós, nos colocando como testemunhas da sua expressão íntima.
Apropriadas de nossos espaços, dos nossos lugares de intimidade, relaxamos e podemos nos deleitar em nossas presenças. Porém, quando abrimos a vitrine e somos vistas gozando de nossas existências, em momentos de elevada fruição, isso se mantém? Porque é tão difícil suportar que o outro nos veja desfrutando de nós mesmas?
Gozar de nossa existência está frequentemente ameaçado pelos assédios e repressões machistas e abusivas. Diante da insegurança e em busca de proteção, eu mesma já me vi me escondendo em minhas roupas, em um corpo retraído, e por muito tempo cantando da pele pra fora. Não raro, observo outras performances-presenças também orientadas exclusivamente para o externo, para o prazer do outro, para que o outro veja isso ou aquilo, querendo controlar sua experiência e percepção. O prazer verdadeiro requer honestidade. Porém honesto significa disposto à imperfeição, ao erro, à surpresa, ao que pode surgir, ao não-saber, ao aprendizado, a novas formas ser, se perceber, se expressar. Performar se relaciona então com nossa disponibilidade de sermos vistos no que temos de mais humano, sermos vistos de alma nua.
Não é tarefa fácil, já sei que o tempo do corpo é imensamente mais lento que o tempo da mente: penso sobre isso hoje e sou capaz de realizar, de trazer para a matéria daqui a pelo menos 9 lunações (veja, por exemplo, a gestação: quanto tempo leva desde a concepção?). O processo de sustentar nosso estado de prazer diante do outro requer um ambiente seguro (leia-se sem ameaças e assédios constantes), tempo, paciência, gentileza, experimentação, espaço de prática, um público-testemunha de nossa vulnerabilidade, e nossa coragem de não sucumbir à tentação dos caminhos em que tudo se torna posado, e que nos esquivam do que verdadeiramente sentimos e somos.
Que minhas palavras nuas te toquem, essa tem sido minha busca de vida: sentir o meu prazer verdadeiro sem medo, e parar de performar para o entretenimento alheio, enquanto sigo vazia de sentido. Parar de fingir gozar. Que seja possível presenciar outra pessoa criando, e cantando, e se expressando, e performando, sendo testemunhas do seu prazer real. É o que desejo para nós, com todos os meus sonhos revolucionários.