Passei boa parte da minha vida rejeitando a feminilidade clássica e as histórias que a representam. Hoje, muita gente chamaria isso de comportamento “pick-me”, mas, na verdade, esse é um traço comum de quem cresceu nos anos 2000.
Aprendemos que as mulheres podiam ser tudo o que quisessem — desde que abandonassem a magia, os contos de fada e a cor rosa. Para ser respeitada, você não podia ser “como as outras”.
Essa mensagem foi repetida e vendida por toda a cultura pop. E é sobre isso — e sobre como a Cinderela virou vítima colateral desse processo — que quero falar.
Por que tantas meninas deixaram de gostar de princesas?

Os anos 2000 voltaram com força, acompanhados de uma onda de revisionismo. O discurso midiático atual passou a apontar a misoginia profunda presente naquele período, reflexo de um momento em que muitos já declaravam o feminismo “desnecessário” — o chamado período pós-feminista.
A partir do final dos anos 1990 e ao longo dos anos 2000, a cultura pop passou a celebrar protagonistas como as de Sex and the City (1998), Legalmente Loira (2001) e O Diabo Veste Prada (2006). Essas obras apresentavam mulheres bem-sucedidas, independentes e com um padrão de vida completamente distante do ideal doméstico associado aos anos 1950.
Tudo parecia indicar que a tão sonhada igualdade de gênero já havia sido conquistada. E, se ela existia, bastava que cada mulher fizesse as escolhas “certas” para alcançar seu espaço.
Ainda que, de fato, tenha havido um enorme avanço nas políticas de gênero em comparação ao passado, a sociedade ainda pulsava uma misoginia intensa, principalmente no que diz respeito aos signos associados à feminilidade. Termos como “basic” e “not like other girls” ganharam força nesse contexto.
Como observa Silver Rose, em um ensaio publicado no Queer Majority:
“Lembro de uma fase, no ensino fundamental, em que eu queria usar esmalte e maquiagem, mas evitava fazê-lo por medo de parecer ridiculamente vaidosa. Também me lembro de uma amiga que escondia o quanto gostava das músicas da Taylor Swift para não ser rotulada como ‘básica’.”
Segundo a filósofa Beatrice Harvey, essa tendência representa um caso clássico de misoginia internalizada: a mulher aprende a associar características culturalmente femininas a algo inferior e passa a buscar reconhecimento justamente por se afastar delas.
Foi na década seguinte, já nos anos 2010, que essa linha de pensamento foi absorvida no mundo corporativo por meio do termo “GirlBoss”. A ideia de que o auge do feminismo já havia sido alcançado fez com que a igualdade passasse a ser tratada como uma escolha individual, ignorando seu caráter estrutural. O empoderamento passou a ser medido pelo consumo, pela aparência e pelo sucesso profissional. Em outras palavras, tratava-se da lógica neoliberal aplicada ao movimento.
Mas essa mudança de mentalidade não afetou apenas o mercado de trabalho ou a forma como enxergávamos o sucesso feminino. Ela também transformou a maneira como passamos a olhar para personagens que fizeram parte da infância de toda uma geração. E foi assim que as princesas da Disney deixaram de ser vistas apenas como protagonistas de contos de fada e passaram a ocupar o centro de um férreo debate cultural.
Por que a Disney reformulou suas princesas?

Essa nova forma de enxergar a feminilidade inevitavelmente alcançou as princesas da Disney.
Foi também nos anos 2010 que o debate sobre o impacto dessas personagens explodiu na internet. Frases como “A Pequena Sereia trocou a própria vida por um homem”, “a Bela tem síndrome de Estocolmo” (uma das leituras mais equivocadas, na minha opinião) e “a Cinderela era fraca e sem graça” passaram a circular como verdades absolutas.
O problema é que essas leituras ignoram partes essenciais das histórias — e erram em dois pontos centrais.
Primeiro, quase sempre partem exclusivamente das adaptações da Disney, excluindo as demais versões dessas histórias.
Segundo, mesmo dentro do universo Disney, nenhuma dessas leituras se sustenta: Ariel já sonhava com o mundo da superfície muito antes de conhecer o príncipe; Bela estabelece um acordo com a Fera — chamado explicitamente de “promessa” no filme de 1991 — e a pior delas é a que interpreta a resiliência da Cinderela diante do abuso doméstico como fraqueza.
Foi nessa maré de meias-verdades que a Disney decidiu reescrever essas personagens na era dos live-actions. Comprovando que as marcas absorvem o contexto de sua época sem, necessariamente, se aprofundarem nos motivos pelos quais certas mudanças são necessárias.
As princesas mudaram, mas também perderam parte da magia que as tornava tão marcantes, porque, na preocupação de cumprir uma agenda, esqueceram-se da base que sustentava essas personagens tão amadas.
Na tentativa de provar que essas protagonistas eram fortes, muitas adaptações passaram a associar força ao afastamento dos elementos tradicionalmente considerados femininos. Como consequência, delicadeza, romantismo e gentileza passaram, outra vez, a ser vistos com certa desconfiança.
Essa ironia me chama atenção porque ela repete exatamente a lógica que marcou boa parte dos anos 2000: a de que uma mulher só pode ser admirada quando demonstra não ser “como as outras”.
É justamente nesse ponto que acredito que algumas críticas às princesas acabam reproduzindo aquilo que pretendiam combater.
Pesquisadoras como Rosalind Gill observam que o pós-feminismo frequentemente transforma conceitos como autonomia, escolha e empoderamento em valores individuais, deslocando a discussão das estruturas sociais para o comportamento das próprias mulheres. Talvez seja por isso que, em muitos debates, a feminilidade tenha deixado de ser entendida como uma possibilidade legítima de expressão e passado a ser tratada quase como um obstáculo a ser superado.
O verdadeiro significado da história da Cinderela
Os contos de fada carregam camadas sutis, construídas para transmitir lições simples e duradouras às crianças — e é exatamente isso que se perde quando reduzimos essas histórias a interpretações desconectadas da narrativa original.
A história da Cinderela nunca foi sobre se conformar com uma realidade injusta. É sobre resistir a ela sem deixar de ser quem você é. É sobre manter a própria identidade — inclusive a feminina — mesmo quando o mundo ao redor tenta corroê-la.
Revisitar histórias é, sim, um processo necessário, desde que seja feito em harmonia com os conceitos que sustentam o material original. O live-action de Cinderela (2015) é um ótimo exemplo. A inclusão do lema “Tenha coragem e seja gentil” reforça, de forma sutil, a agência de Ella dentro da própria história. No mundo contemporâneo, sonhar não basta (como no filme de 1950); é preciso ter coragem para agir, enquanto se permanece fiel aos próprios princípios diante das adversidades (seja gentil).
Em defesa da Cinderela

Reconectar-se a esses contos, tão elementares para a nossa formação, é também uma forma de resgatar nossa criança interior.
Essas narrativas acompanharam nossa infância, moldaram nosso imaginário e nos ensinaram a reconhecer virtudes como coragem, esperança, perseverança e compaixão. Crescer não deveria significar abandonar tudo isso, mas aprender a enxergar essas tramas com novos olhos.
Pouca gente imagina que o conto da Gata Borralheira circulou durante séculos pela tradição oral, sendo transmitido principalmente por mulheres e assumindo diferentes formas conforme atravessava culturas e rotas comerciais. Muito antes de ser registrado por autores como Charles Perrault e, mais tarde, pelos Irmãos Grimm, a história já fazia parte do imaginário popular e acumulava inúmeras versões ao redor do mundo.
Cada geração reconta a Cinderela à sua maneira, funcionando como um cristal que espelha nossos medos, desejos e inquietações.
Não importa a versão, um traço permanece: a recusa em permitir que a crueldade do mundo determine quem ela será.
Durante séculos, mulheres contaram essa história umas às outras. Talvez tenha chegado a hora de fazermos o mesmo.
Por isso, convido quem lê a revisitar essa aventura e reencontrar, dentro dela, tudo aquilo que o mundo te convenceu a deixar para trás.
Até a próxima!
LEITURAS E REFERÊNCIAS
HARVEY, Beatrice. “Not Like Other Girls” and Internalized Misogyny. The Prindle Institute for Ethics, 30 abr. 2021. Disponível em: https://www.prindleinstitute.org/2021/04/not-like-other-girls-and-internalized-misogyny/. Acesso em: 1 jul. 2026.
O GLOBO. Cinderela já foi um conto feminista, mas ideia original foi apagada por versões escritas por homens. Celina, 30 ago. 2021. Disponível em:https://oglobo.globo.com/celina/cinderela-ja-foi-um-conto-feminista-mas-ideia-original-foi-apagada-por-versoes-escritas-por-homens-1-25092002. Acesso em: 1 jul. 2026.
ORENSTEIN, Peggy. Help! I’m a Feminist But My Daughter Is a “Princess Fanatic”! Disney’s Transformation of Twenty-First-Century Girls. Children’s Folklore Review, v. 32, 2011. Disponível em: https://scholarworks.iu.edu/journals/index.php/cfr/article/view/25082/30959. Acesso em: 1 jul. 2026.
TIME. A Researcher Thought Disney Princesses Had a Negative Impact on Young Girls. The Results of Her New Study Surprised Her. Time, 23 jul. 2021. Disponível em: https://time.com/6086875/disney-princess-culture-study/. Acesso em: 1 jul. 2026.
RAWLINGS, Adam Saraswati. Why the 2000s was a Misogynistic Wasteland. The New Feminist, 13 abr. 2022. Disponível em: https://thenewfeminist.co.uk/2022/04/why-the-2000s-was-a-sexist-wasteland/. Acesso em: 1 jul. 2026
QUEER MAJORITY. I’m Not Like Other Girls: The Trope That Just Won’t Die. 19 set. 2024. https://www.queermajority.com/essays-all/im-not-like-other-girls. Acesso em: 1 jul. 2026
JONES, Daisy. Yes, The Girlboss Is Dead – But Here’s Who’s Replaced Her. British Vogue, 9 ago. 2023. Disponível em: https://www.vogue.co.uk/article/girlboss-culture-is-dead. Acesso em: 1 jul. 2026
NIEMIEC, Charlsie. When Empowerment Became Aesthetic, Not Equity: The Collapse of the Girlboss Movement. Charlsie Niemiec, 17 ago. 2025. Disponível em: https://www.charlsieniemiec.com/blog/2025/the-collapse-of-the-girlboss-movement. Acesso em: 2 jul. 2026.
GILL, Rosalind. Postfeminist media culture: elements of a sensibility. European Journal of Cultural Studies, London, v. 10, n. 2, p. 147–166, 2007. Acesso em: 2 jul. 2026
Se este conteúdo fez sentido para você, fortaleça a comunicação independente feita por mulheres.
O Hora do Sabbat é um veículo colaborativo que há mais de oito anos pesquisa, registra e amplifica a produção artística feminina brasileira. Seu apoio ajuda a manter entrevistas, reportagens, programas de rádio, podcasts e conteúdos que valorizam mulheres na cultura.
💜 Apoie o projeto:
https://apoia.se/horadosabbat
Respostas de 2
curti! acho q a gente esquece da criancice quando cresce e isso pode ser perigoso. principalmente p meninas… algo a se pensar
É um texto consistente dentro de um tema relevante. A argumentação é coesa, porém a revisão dos contos sempre se faz necessária.