Todo Mês Sangra: a arte como fio de cura e denúncia

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Todo Mês Sangra: a arte como fio de cura e denúncia

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por Sarah Mascarenhas

Quando li pela primeira vez sobre o espetáculo Todo Mês Sangra, algo em mim pulsou com familiaridade e reverência. Não só pelo tema urgente e sempre latente — a violência contra a mulher em suas múltiplas formas —, mas pela origem: a peça vem de Alta Floresta, extremo norte do Mato Grosso, onde o grupo TEAF, com quase quatro décadas de existência, mantém viva a chama do teatro como ferramenta de formação, provocação e transformação.

A peça une dança e teatro para contar uma história que é íntima, mas também coletiva. Com atuação solo de Cassiane Leite, dirigida por Clodoaldo Arruda, a obra não apenas denuncia, mas ressignifica dores, buscando caminhos de libertação, cura e autonomia. É um solo que sangra memórias e abre espaço para que outras mulheres também reconheçam suas feridas — e sua força.

Nesta entrevista exclusiva para o blog da Hora do Sabbat, Cassiane Leite compartilha os bastidores do processo criativo, o desafio de produzir arte no Portal da Amazônia, a recepção do público masculino e o que significa ocupar um espaço simbólico como o Centro de Referência da Dança em São Paulo com uma obra nascida no coração da floresta.

Entrevista com Cassiane Leite sobre Todo Mês Sangra, do grupo TEAF

Sarah Mascarenhas: Se a mulher que protagoniza “Todo Mês Sangra” pudesse encontrar a menina que foi um dia, o que diria a ela?
Cassiane Leite: Eu acho que ela diria para essa menina não se prender nas expectativas de outras pessoas e para confiar nas próprias escolhas.

Sarah Mascarenhas: Como foi o processo de criação de um espetáculo que parte das vivências íntimas da Cassiane Leite para tocar uma ferida tão coletiva como a violência contra a mulher?
Cassiane Leite: Foi um processo de muitas descobertas. O que eu vivi, apesar de serem coisas difíceis, acontece o tempo todo com muitas mulheres, de todas as idades, lugares e classes sociais. Infelizmente, o que eu vivi ainda está longe de ser das piores coisas que acontecem com as mulheres. Foi um processo cheio de escolhas, desde ponderar as formas de violência abordadas no espetáculo, investigar como retratá-las de forma poética e, no meio de tanta violência e tragédia, falar disso tudo de modo a ressaltar a força das mulheres e o peso das conquistas daquelas que vieram antes de mim.

Sarah Mascarenhas: A união entre dança e teatro é uma estreia para o grupo. O que essa linguagem híbrida permite expressar que outras formas talvez não abarquem?
Cassiane Leite: O TEAF tem uma característica muito marcante de incentivar os desejos dos integrantes. Em 2017 eu pesquisava violência de gênero e o grupo embarcou na proposta de montar um espetáculo para tratar desse tema. A escolha da Dança-teatro vem da minha trajetória na dança e da vontade de contar a história a partir deste corpo feminino que é submetido às violências que a gente aborda.

Sarah Mascarenhas: Vocês vêm do Território Portal da Amazônia, em Alta Floresta. Como é produzir arte e manter um grupo de teatro há quase quatro décadas fora do eixo Rio-SP?
Cassiane Leite: É difícil, assim como é aqui, manter a estabilidade financeira, conciliar o trabalho artístico com as nossas outras ocupações, seguir fazendo arte apesar da desvalorização do nosso trabalho… A diferença, eu diria, está principalmente na forma que a gente escolhe para abordar os temas: por aqui esse assunto já é discutido nas artes há mais tempo e, de alguma forma, as pessoas podem achar que o nosso trabalho não ataca o tema como deveria, mas no nosso território os tempos e os temas são mais dilatados. Nossa forma de abordagem é definida em grande parte pelo lugar onde vivemos e, em algumas situações, manter uma discussão viável é fundamental para continuar acessando públicos variados e levar a nossa mensagem a mais pessoas.

Sarah Mascarenhas: A obra aborda cinco tipos de violência contra a mulher: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Como vocês percebem a recepção do público masculino diante dessas camadas de denúncia e reflexão?
Cassiane Leite: O público masculino é reduzido, cerca de 10% do total, apesar de a gente sempre reforçar a importância da presença de todas as pessoas no espetáculo. Normalmente as reações dos homens são silenciosas, mas nós entendemos que isso também é uma resposta. Então, a gente aproveita as apresentações fechadas com o público escolar para trabalhar diretamente com a base, os adolescentes. É uma oportunidade de atingir melhor o público masculino e as reações que são inicialmente de estranhamento ou de chacota vão se tornando mais reflexivas, algumas vezes até com relatos importantes dos meninos.

Sarah Mascarenhas: “Todo Mês Sangra” é também um grito de autonomia e cura. O que vocês esperam provocar nas mulheres que assistirem à peça?
Cassiane Leite: É uma forma de provocação, de cutucar a mente das pessoas para prestarem atenção nas violências que sofrem ou que eventualmente cometem, desde as mais sutis, que podem passar despercebidas para algumas pessoas. Mostrar essa situação pelo viés da arte é uma forma de fazer as pessoas refletirem sobre esse tema por meio de argumentos que não venham só do noticiário ou das experiências individuais.

Sarah Mascarenhas: O que significa, para vocês, ocupar um espaço como o Centro de Referência da Dança em São Paulo com uma obra forjada no coração da floresta?
Cassiane Leite: É um momento importante, sem sombra de dúvida, na trajetória do TEAF, mas eu proponho uma reflexão: qual é o significado de o Centro de Referência da Dança receber uma obra como esta, forjada no coração da floresta? A gente está aqui por conta das conexões que fizemos na nossa caminhada. Os encontros que essas conexões nos possibilitam são potentes e necessários, é uma coisa fundamental nas artes da cena. A estética do nosso espetáculo, criado há oito anos em uma cidade mato-grossense que tinha 50 mil habitantes, atinge as pessoas de lá de um modo bastante diferente do que quando apresentamos aqui, onde esse tema já é discutido há mais tempo e em vários outros segmentos artísticos. É outra dimensão de reflexão. Isso é o que a gente busca: por meio de novas conexões com pessoas, territórios, grupos e lugares, circulando com nosso espetáculo, gerar reflexão e trazer novas perspectivas para um tema que ainda está longe de ser exaurido.

Serviço

Espetáculo: Todo Mês Sangra
Datas: 16 e 17 de maio (sexta e sábado)
Horário: 19h
Local: Centro de Referência da Dança (CRD)
Endereço: Galeria Formosa – Baixos do Viaduto do Chá, s/n – Praça Ramos de Azevedo, Centro Histórico, São Paulo/SP
Ingressos: Gratuitos, distribuídos com 1h de antecedência na bilheteria do CRD
Duração: 40 minutos
Classificação: 12 anos

Sarah Mascarenhas é jornalista no rádio e criadora do programa Hora do Sabbat, onde escuta e amplifica vozes de mulheres nas artes e na vida. Produz conteúdos com afeto, estratégia e compromisso com a transformação.

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