Existe uma imagem muito vendável da mãe.
Ela acorda cedo, resolve tudo, trabalha muito, ama mais ainda, e no fim do dia ainda sorri — cansada, mas plena. A exaustão dela vira filtro quente de rede social. Vira prova de amor. Vira medalha.
Eu desconfio profundamente dessa estética.
Porque a exaustão de uma mãe não é bonita. Ela é estrutural.
Sou uma mãe artista, negra, interiorana. E isso não é detalhe biográfico — é contexto político. O mundo espera que eu dê conta. Que eu produza. Que eu eduque. Que eu cure. Que eu seja referência. Que eu seja forte. Que eu não desmorone.
E, se possível, que eu faça isso sorrindo.
Existe um pacto silencioso que transforma mães em amortecedor social. Se o pai falha, a mãe cobre. Se o dinheiro falta, a mãe inventa. Se o afeto não vem, a mãe multiplica o próprio. E quando alguém diz que o pai “ajuda”, eu me pergunto: ajuda quem? Ajuda como? Desde quando responsabilidade virou favor?
Pai não ajuda. Pai assume.
Mas vivemos numa cultura que naturaliza a ausência masculina e romantiza a sobrecarga feminina. E nós, mães, vamos acumulando funções como quem empilha pratos em cima de uma mesa já trêmula.
Eu trabalho muito. E ainda assim o dinheiro não acompanha o esforço. Eu organizo casa, agenda, vida escolar, emoções, futuro. Eu ensino minha filha a não aceitar qualquer coisa de ninguém. Dou flores para que ela reconheça quando tentarem lhe entregar migalhas.
Mas quem ensina a mãe a não aceitar migalhas?

Desde os 18 anos eu corro atrás de um sonho. Só que no meio do caminho aprendi que para mulheres como eu o sonho nunca vem sozinho: ele vem acompanhado de cobrança, de culpa e de uma pergunta constante : “você vai dar conta?”
Às vezes eu acho que não vou.
E admitir isso já é quase um escândalo.
Porque a sociedade tolera mãe cansada, mas não tolera mãe que diz que está no limite. Querem nossa resistência, mas não querem ouvir nosso esgotamento. Querem nossa força, mas não querem dividir o peso.
A maternidade é bonita, sim. Mas também é brutal. É atravessada por desigualdade. É atravessada por abandono. É atravessada por silêncios que doem mais do que gritos.
E eu estou cansada.
Não cansada da minha filha.
Cansada de sustentar o que não é só meu para sustentar.
Existe uma diferença enorme entre ser indômita e ser invencível.
Invencível é personagem de propaganda.
Indômita é quem, mesmo exausta, se recusa a aceitar o roteiro imposto.
Eu não quero ser heroína. Heroínas morrem no final ou vivem solitárias no alto do pedestal. Eu quero corresponsabilidade. Quero realizar meus sonhos sem que eles precisem disputar espaço com a sobrevivência.

Às vezes me pergunto: o que vai sobrar para mim?
Quais sonhos ainda cabem na vida de uma mãe que sempre precisou resolver antes de desejar?
Mas talvez a pergunta esteja errada.
Talvez não seja sobre o que sobra.
Talvez seja sobre o que eu ainda reivindico.
Se ser indômita é alguma coisa, é isso: não aceitar que o cansaço seja meu destino. Não aceitar que a ausência alheia seja natural. Não aceitar que amar signifique suportar tudo.
Eu não sou a salvadora de ninguém.
Sou uma mulher tentando existir inteira.
E isso, por si só, já é um ato de insubmissão.