Um tempo atrás, sonhei que caminhava por uma estrada longa, segurando uma mochila enorme. Era tão pesada que eu mal conseguia ver a paisagem. A cada passo, ela puxava meus ombros para trás, como se quisesse me impedir de avançar. Quando, enfim, parei para abri-la, percebi que metade do que havia ali já não fazia sentido carregar.
Tinha lembranças antigas, culpas que não eram mais minhas, padrões herdados que nunca me serviram direito. Tinha até coisas que nem lembrava ter colocado — apenas estavam ali, ocupando espaço e pesando.
Acordei com uma pergunta pulsando no peito:
“O que estou carregando que já posso deixar ir?”
Coincidentemente, esse sonho me ocorreu pouco tempo após minha mudança para Sorocaba — uma transição que, por fora, parecia geográfica, mas por dentro, era também um terremoto silencioso de vida e de identidade. A vida me convidou a mudar, eu aceitei o convite e mudei.
Mas, ainda carregava muitas coisas comigo.
Lembranças que, além de boas recordações, traziam também o peso da distância e da saudade de muitas pessoas que eu amo. A culpa de ter feito a escolha de estar longe. A frustração dos planos que se desfizeram pelo caminho. A ausência de certezas quanto ao que viria.
Dentro de mim, a Iris de antes ainda habitava e ela não estava onde eu estava.
Ela questionava minhas decisões, duvidava da minha coragem, lançava olhares duros para essa nova versão que nascia, como quem diz: “você tem certeza disso?”

Naquela época, eu precisava de energia para manter os movimentos.
Para dar passos no escuro. Para enfrentar com coragem os ajustes que se faziam necessários. E a verdade é que nem eu mesma conhecia, a fundo, essa versão atual.
Eu não confiava nela plenamente, mas sentia o chamado e fui.
Mesmo com medo, mesmo em desequilíbrio, mesmo sendo testada em cada detalhe.
Mas aquela bagagem estava me atrapalhando.
Estava tornando o novo caminho mais difícil do que precisava ser.
E eu acredito que o sonho veio como alerta.
Um chamado amoroso da alma para que eu olhasse, com honestidade, para o que eu insistia em carregar.
Aquela que eu aprendi a chamar de “minha história”, no fundo, também era feita de pesos emprestados, de expectativas alheias e de uma versão que já não mais me representava.
Às vezes, a vida pede que a gente olhe com coragem para tudo aquilo que acumulou ao longo do caminho: não só os objetos, mas os papéis, os medos, os discursos internos.
Carregamos a culpa por não sermos suficientes, a vergonha por sermos sensíveis demais, o medo de não sermos amadas se formos autênticas. E vamos assim, colecionando pesos como se fossem medalhas de sobrevivência.
Mas e se não for mais preciso “apenas” sobreviver?
E se agora for tempo de viver com plenitude e leveza?
Talvez você, como eu, também esteja sentindo que algo em você está pedindo espaço. Que há um cansaço que não se explica só com rotina. Que existe uma parte sua gritando por liberdade, pela liberdade de ser quem você é, sem tanto esforço, sem tanto medo, sem tanto peso.
A vida não exige que sejamos fortes o tempo todo.
Ela só pede verdade. E a verdade, muitas vezes, é que já não cabe mais seguir carregando tudo.
Na minha visão, soltar não é esquecer. É honrar o que foi, agradecer pelo que aprendeu, e então dizer: agora posso seguir sem isso.
Soltar é um gesto de amor próprio.
É confiar que aquilo que é seu de verdade, permanece. E o que precisa partir, abre espaço para um novo florescer.
Hoje, te convido a fazer um pequeno ritual.
Pegue um papel e escreva, com sinceridade:
“O que estou carregando que já posso deixar ir?”
Pode ser um nome, uma crença, um comportamento, uma dor, um papel que você assumiu e já não deseja mais sustentar.
Depois, se quiser, queime esse papel (com segurança), rasgue em pedaços e jogue em água corrente ou enterre em um vaso com terra.
Faça desse gesto um portal de leveza a partir da sua escolha.
Um recomeço silencioso e consciente.
Nem tudo precisa ser levado adiante.
Nem tudo precisa fazer sentido para os outros.
Você tem o direito de ser leve.
E, às vezes, tudo começa com a coragem de soltar o que já não te serve mais.
Porque nem tudo que te trouxe até aqui precisa te acompanhar daqui pra frente.
Soltar é caminhar mais leve, e escolher ter leveza é um ato de liberdade.
Uma resposta
Que texto incrível, a cada linha parecia me descrever, gratidão por essa reflexão linda!