Com 20 vagas para mulheres cis e trans, formação aborda criação, gravação, tecnologia, direitos autorais e gestão de carreira. Iniciativa amplia o trabalho desenvolvido pelo festival desde 2023, em Santos.

A presença das mulheres na música brasileira vai muito além dos palcos. Compositoras, instrumentistas, produtoras, técnicas de som e gestoras culturais movimentam uma indústria que ainda apresenta desigualdades nas oportunidades de trabalho e nos espaços de decisão. É nesse cenário que o Chiquinha Gonzaga Fest – Festival das Minas anuncia um curso gratuito de produção musical, com inscrições abertas até 28 de outubro de 2026.
A iniciativa oferece 20 vagas para mulheres cis e trans a partir dos 16 anos, sem exigência de experiência anterior. Serão 21 horas de formação, distribuídas em sete encontros entre 7 de novembro e 19 de dezembro. As aulas acontecerão aos sábados, das 10h às 13h, sendo seis online e uma presencial, obrigatória, em Santos, no litoral paulista. Podem participar mulheres de qualquer cidade do Brasil, desde que tenham disponibilidade para o encontro presencial de 21 de novembro.
Da criação musical à autonomia profissional
A proposta do curso acompanha diferentes etapas da produção de uma música, começando pelos fundamentos de teoria, harmonia, composição e arranjo. As participantes também terão contato com técnicas de acústica e gravação, montagem de estúdios caseiros e utilização de programas digitais de produção e edição de áudio.
A formação contempla ainda conhecimentos fundamentais para a profissionalização das artistas, como registro e lançamento de obras, elaboração de releases e portfólios, escrita de projetos para editais e acesso às leis de incentivo à cultura. Duas masterclasses complementam a programação: uma dedicada à história das mulheres na música e outra ao uso da inteligência artificial nos processos técnicos e criativos.

O conteúdo aproxima criação artística, tecnologia e gestão de carreira. Afinal, compreender como uma música é produzida, registrada, distribuída e apresentada ao mercado também significa ampliar as possibilidades de negociação, geração de renda e independência profissional.
Uma formação com ações afirmativas
Das 20 vagas disponíveis, quatro são prioritárias para mulheres negras, pretas e pardas, quatro para mulheres trans e 12 destinadas à ampla concorrência. Candidatas que se enquadram nas duas categorias prioritárias podem concorrer em ambas, além da ampla concorrência, ocupando apenas uma vaga.

A seleção considera as informações apresentadas na inscrição e os critérios estabelecidos pela organização. Para receber o certificado, será necessário cumprir pelo menos 75% da carga horária. A programação termina com uma celebração e entrega dos certificados em 20 de dezembro, em Santos.
Uma história construída por mulheres, em Santos
A primeira edição aconteceu entre 18 e 24 de junho de 2023, com programação gratuita espalhada por diferentes territórios de Santos. A iniciativa reuniu apresentações musicais, poesia, dança, contação de histórias, oficinas e debates sobre empreendedorismo artístico. Além de abrir espaço para trabalhos autorais, o festival levou atividades a equipamentos culturais e espaços da cidade, incluindo o Instituto Arte no Dique, a Concha Acústica e a Herval 33.
Em 2024, o festival chegou à segunda edição, entre 8 e 10 de agosto, ampliando sua programação e ocupando espaços como o Sesc Santos e os Arcos do Valongo. Entre as atrações estiveram Far From Alaska, Josyara, Rafa Laranja, Lelê Lótus e outras artistas de diferentes linguagens e gerações. A programação também incluiu debates sobre violência contra as mulheres e oficinas sobre direitos autorais e comercialização de shows, aproximando a circulação artística das discussões sobre condições de trabalho na cultura.
A terceira edição, realizada em 16 e 17 de agosto de 2025, consolidou os Arcos do Valongo como um dos principais espaços do evento. Com apresentações de Tulipa Ruiz, The Mönic, Assucena e artistas independentes, o festival reuniu música, performances, atividades infantis, exposições e economia criativa. A programação contou com interpretação em Libras, reforçando o compromisso com a acessibilidade cultural.
Ao longo dessas edições, o Chiquinha Gonzaga Fest foi construindo uma atuação que ultrapassa a realização de shows. O festival também passou a oferecer oportunidades de formação, circulação, remuneração artística e encontro entre mulheres que trabalham em diferentes áreas da cultura.
De Chiquinha Gonzaga às produtoras musicais de hoje
A escolha do nome do festival carrega uma dimensão histórica. Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, foi compositora, pianista e maestrina, pioneira na regência orquestral e na afirmação profissional das mulheres na música brasileira. Autora de Ó Abre Alas, também participou das mobilizações pelos direitos autorais, contribuindo para transformar as condições de trabalho de compositoras e compositores.
Mais de um século depois, a discussão sobre autonomia profissional permanece atual. O acesso aos conhecimentos técnicos, aos meios de produção e aos mecanismos de financiamento continua sendo decisivo para que mulheres possam construir carreiras sustentáveis.
Ao oferecer uma formação gratuita que conecta composição, tecnologia, direitos autorais e gestão cultural, o Chiquinha Gonzaga Fest investe em uma dimensão fundamental dessa transformação: mulheres não apenas como intérpretes de suas obras, mas como profissionais capazes de participar de todas as decisões sobre aquilo que criam.
A edição de 2026 e o curso de produção musical são realizados pela Music Lady Produções, com recursos de emendas parlamentares destinadas por Débora Camilo, Benedito Furtado, Zequinha Teixeira e Lincoln Reis.

Como participar
Curso gratuito de produção musical Até 28/10
Chiquinha Gonzaga Fest 2026
Sábados, das 10h às 13h
Online, com um encontro obrigatório em Santos
20 vagas para mulheres cis e trans a partir de 16 anos
21 horas, com certificado mediante frequência mínima
Inscrições gratuitas até 28 de outubro de 2026, conforme informações da organização.
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