Ensaio sobre a falta de palavras

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Ensaio sobre a falta de palavras

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Minhas mãos estão no meu queixo, enquanto fito o meu velho computador, cheio de adesivos e um papelzinho colado na câmera por medo de hackers. É uma tarde atípica para Fortaleza, não está quente, na verdade uma brisa muito leve corre pela varanda. Escuto ao longe o som dos pássaros em uma mangueira centenária que cobre o céu à minha vista. Eles parecem inquietos. Será que também pensam sobre o que cantar, assim como eu penso sobre o que escrever ou apenas cantam sem racionalizar cada nota?

O cursor do documento em branco pisca em espera pelas minhas palavras. Ele marca o tempo e me lembra de todos os assuntos que pensei no último mês serem boas ideias para um texto. Não consigo recordar com interesse e vontade de escrevê-las. Como se aqueles textos hipotéticos tivessem se perdido nos dias e, ainda que eu lembre sobre o que eram, não têm mais força para inflar e estruturar palavras. 

Um bem-te-vi pousou em um poste próximo a minha escrivaninha improvisada. Quem sabe eu poderia escrever sobre pássaros? Em uma quase-resposta, o avoante cantarolante voa para longe, três postes à frente. Não consigo mais vê-lo sem precisar sair da cadeira. O bem-te-vi veio me ver, voou com a minha ideia e eu não sei nada de pássaros para escrever sobre eles. 

A página em branco ainda espera que eu tome alguma atitude. Fico pensando nas escritoras que admiro. Não sei o que faziam quando, fitando o papel, não sabiam sobre o que escrever. Minhas pernas balançam pela ansiedade, tento formular frases e questões e descobertas, mas a vontade de apagar é maior do que a de escrever. Penso se esse é uma daqueles dias que comenta Adélia Prado, o dia que Deus me tirou a poesia e uma pedra é apenas uma pedra. 

Talvez escrever sobre não ter o que escrever seja um bom caminho para cultivar vontade. E melhor, compartilhar textos sobre a falta de palavras, seja o justo caminho para dizer a leitora que também escreve, que ela não está sozinha. Separadas por uma distância desconhecida, nós estamos juntas em um não saber, ligadas pela inércia, pelo dicionário mofado na estante, pelo medo de falar com sinceridade, pelas ideias escondidas no fundo de nós, que presas não conseguem vir à superfície e sair pelos dedos tocando as letras. 

As palavras cessaram, cegaram, ruíram, desapareceram, estão escassas, secas, desabastecidas. Eu tinha me comprometido a não tirar minha bunda da cadeira até terminar esse texto, mas meu comprometimento falho como é me comprometeu a deitar na rede, pegar um café e fazer um sanduíche. Esqueci até que tinha algo para expressar, tive vontade de lavar as louças, tirar o mofo da madeira com vinagre e pintar um quadro. 

Ora leitora, queria eu te falar das aventuras da minha vida, da odisséia dos caminhos, dos silêncios esquecidos, dos artistas que colorem meus dias, da fofoca da vizinha ou dos teóricos mais renomados que atestam o fim do mundo, mas só quero escrever sobre esta sinceridade que estaciona dentro de mim e não arreda o pé. E torço para que você se identifique um pouco com esse momento da minha tarde, não de uma maneira depressiva ou negativa, mas com esta humana incendiada pela desconexão com o que deseja escrever. Em uma tentativa de me mostrar vulnerável a você e a mim. 

Lá fora os grilos iniciam a cantoria e eu sei que a tarde se despede de mim, as palmeiras estão em um verde frio combinando com o céu nublado em tons de cinza acinzentado, os telhados que antes eram laranja flamejante transformam-se em cor de salmão, escuto o barulho de carros e ambulâncias na avenida mais próxima. Imagino crianças fazendo o dever de casa, adultos apertados nos ônibus, namorados andando de mãos dadas curtindo a folga no meio da semana e senhoras ouvindo a missa na televisão. Em seus pormenores, mais um dia vira noite e eu termino esse texto melhor do que comecei. Lembrei o porquê de tanto gosto por escrever! Peito e membros em chamas!

 

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