Ler Mulheres, Ler o Mundo…eis a questão?!

Você está lendo

Ler Mulheres, Ler o Mundo…eis a questão?!

Compartilhar artigo

Escrito por

Nota da Autora

Este texto nasce do desejo de ampliar o debate sobre o acesso à leitura — um tema que atravessa todas as nossas mulheridades. Falar de livros é também falar de território, raça, classe, gênero e identidade.  

A hashtag #LeiaMulheres é um chamado necessário, mas aqui proponho uma reflexão paralela: como garantir que todas as mulheres, inclusive as que vivem à margem dos privilégios culturais, possam de fato ler?  

Não se trata de oposição, mas de diálogo — entre o direito de ser lida e o direito de ler.

 

Desde que comecei a frequentar a escola e aprendi a ler e escrever, Maria — minha mãe — ensinou-me que, para pessoas de nossa classe econômica, a única forma de transformação era por meio da Educação e da Cultura. Maria aprendeu isso com outra Maria, sua mãe. Assim, desde criança, desenvolvi meu amor pelos livros.

Eu e meu irmão não tínhamos roupas da moda, brinquedos da moda, sapatos ou mochilas da moda. Entretanto, em nossa casa havia muitos livros. Naquela época não existia Google, e os filhos dos vizinhos — que possuíam roupas e brinquedos modernos — vinham até nós pedir emprestado algum livro para suas pesquisas escolares.

Se hoje os dirigentes do mercado editorial reclamam do alto preço dos livros, imaginem nos anos 1980! Para pessoas de minha classe, o acesso se dava por vendedores porta a porta, bancas de jornal ou sebos. Minha mãe tinha ainda um hábito peculiar: recolher livros abandonados nas portas das casas, destinados ao lixo. Eu os higienizava e, se estivessem em bom estado, iam para nossa estante, enriquecendo a biblioteca familiar. Os demais serviam de fonte de figuras para trabalhos escolares de primos e primas.

Assim aprendi a ler tudo o que cabia no orçamento da família, sem distinguir se o autor era homem ou mulher.

Hoje não possuo mais livros físicos, pois os doei ao longo dos anos. Contudo, mesmo sendo pessoa com deficiência visual, tenho acesso a vastas bibliotecas virtuais, criadas para proporcionar leitura a pessoas como eu. Minha escolha de leitura é guiada pelo gênero literário e pela sinopse, pois aprendi a burilar meu gosto ao longo do tempo.

Vivemos em um país de profundas desigualdades socioeconômicas. Por isso, quando vejo nas redes sociais o slogan “Leia Mulheres”, penso na potência e também nos desafios que ele carrega. Essa bandeira é necessária — mas ela só cumpre seu papel se alcançar todas as mulheres, inclusive aquelas que ainda não têm acesso à leitura.

Recordo-me de uma situação em Florianópolis, quando ouvi um grupo de pessoas conversar. Uma senhora, de modo debochado, mostrava um áudio recebido de sua filha. No áudio, a jovem — que vivia no Nordeste — perguntava à empregada se ela sabia onde ficava Florianópolis e outras questões. A senhora ria, divertindo-se com a suposta ignorância da empregada. Pela voz, percebia-se tratar-se de uma mulher nordestina, simples, com baixo grau de escolaridade.  

O que me incomodou não foi apenas o deboche, mas o fato de a vítima ser nordestina. A zombaria carregava não só o desprezo pela falta de instrução, mas também o preconceito regional, tão enraizado em nossa sociedade. A cena revelava como desigualdade cultural e discriminação se entrelaçam, perpetuando exclusões que vão muito além da ausência de livros.

No metrô do Rio, escutei mulheres narrando trajetórias extenuantes até o trabalho, vidas em que talvez nunca tenha havido espaço para um livro. Pergunto: será que essas mulheres já tiveram a oportunidade de ler? E se tivessem, não gostariam?

E quanto às mulheres do sistema prisional? O projeto Remição pela Leitura permite reduzir a pena por meio da leitura e da escrita de resenhas. Mas quantas mulheres encarceradas têm condições de ler e escrever uma resenha? Certamente as chamadas “presas celebridades” sabem aproveitar o benefício. Mas por que não ampliar esse projeto, levando literatura e formação crítica a todas as mulheres privadas de liberdade? Pastores e pastoras já o fazem, levando a Bíblia. Por que não levar também outras vozes femininas, outros mundos possíveis?

Historicamente, o acesso das mulheres à leitura foi restrito. Na Antiguidade, apenas elites tinham esse privilégio. Na Idade Média, conventos guardaram o saber. A alfabetização em massa feminina só se consolidou nos últimos dois séculos. Portanto, não surpreende que os homens tenham se tornado escritores antes das mulheres.

Mas eis o ponto: antes de levantarmos a bandeira “Leia Mulheres”, precisamos garantir que todas possam ler — mulheres negras, indígenas, periféricas, nordestinas, ribeirinhas, encarceradas, com deficiência. A leitura é um direito, não um luxo.  

É fácil defender “Leia Mulheres” em nichos sociais que permitem comprar livros. Difícil é fazê-lo nas periferias, nos rincões amazônicos ou nordestinos, onde não há bibliotecas, livrarias ou internet de qualidade.

Somente quando o acesso aos livros for universalizado poderemos, com legitimidade, dizer que ler mulheres é também ler o Brasil.  

Sem acesso universal à leitura, qualquer bandeira literária corre o risco de se tornar privilégio travestido de causa.

 

Nota de acessibilidade: descrição da imagem de capa deste texto para pessoas com deficiência visual.

A ilustração é dividida ao meio por um livro aberto no centro, que emite uma luz dourada intensa para cima, simbolizando o poder transformador da leitura.  

  – À esquerda, em tons quentes e acolhedores, aparecem três mulheres:  

  – Uma mulher branca de cabelos castanhos lê um livro aberto, sorrindo serenamente.  

  – Atrás dela, uma mulher de óculos ergue o símbolo feminista — um punho dentro do círculo feminino — com expressão firme.  

  – À direita, uma mulher negra segura um microfone e fala com entusiasmo, representando voz e protagonismo.  

  – Acima delas, está escrito “Leia Mulheres” em letras douradas sobre um fundo avermelhado, com uma estante de livros ao fundo.  

  – À direita, em tons frios e sombrios, vemos realidades de exclusão:  

  – Uma menina descalça lê um livro gasto sentada sobre entulho.  

  – Atrás dela, uma mulher em uniforme prisional segura as grades de uma cela, com olhar triste.  

  – Ao fundo, uma mulher nordestina com lenço na cabeça carrega uma cesta em um cenário rural simples.  

 – Na parte inferior, sob o livro aberto, está escrito “Leitura para Todas as Mulheres!” em letras claras sobre fundo escuro.  

Essa imagem sintetiza o diálogo entre feminismos plurais e o direito universal à leitura: de um lado, mulheres que conquistam voz e espaço; do outro, aquelas que ainda lutam para ter acesso à palavra escrita.  

Imagem criada pelo Microsoft Copilot

Escrito por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. 
Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outras histórias que pode te interessar

Nota da Autora Este texto nasce do desejo de ampliar o debate sobre...

Eu tive a sorte de crescer com grandes placas de avisos espalhadas pelo...

Existe um tipo de cansaço que não aparece no corpo. Ele não dá...

/*; } .etn-event-item .etn-event-category span, .etn-btn, .attr-btn-primary, .etn-attendee-form .etn-btn, .etn-ticket-widget .etn-btn, .schedule-list-1 .schedule-header, .speaker-style4 .etn-speaker-content .etn-title a, .etn-speaker-details3 .speaker-title-info, .etn-event-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-speaker-slider .swiper-pagination-bullet, .etn-event-slider .swiper-button-next, .etn-event-slider .swiper-button-prev, .etn-speaker-slider .swiper-button-next, .etn-speaker-slider .swiper-button-prev, .etn-single-speaker-item .etn-speaker-thumb .etn-speakers-social a, .etn-event-header .etn-event-countdown-wrap .etn-count-item, .schedule-tab-1 .etn-nav li a.etn-active, .schedule-list-wrapper .schedule-listing.multi-schedule-list .schedule-slot-time, .etn-speaker-item.style-3 .etn-speaker-content .etn-speakers-social a, .event-tab-wrapper ul li a.etn-tab-a.etn-active, .etn-btn, button.etn-btn.etn-btn-primary, .etn-schedule-style-3 ul li:before, .etn-zoom-btn, .cat-radio-btn-list [type=radio]:checked+label:after, .cat-radio-btn-list [type=radio]:not(:checked)+label:after, .etn-default-calendar-style .fc-button:hover, .etn-default-calendar-style .fc-state-highlight, .etn-calender-list a:hover, .events_calendar_standard .cat-dropdown-list select, .etn-event-banner-wrap, .events_calendar_list .calendar-event-details .calendar-event-content .calendar-event-category-wrap .etn-event-category, .etn-variable-ticket-widget .etn-add-to-cart-block, .etn-recurring-event-wrapper #seeMore, .more-event-tag, .etn-settings-dashboard .button-primary{ background-color: