Eu tive a sorte de crescer com grandes placas de avisos espalhadas pelo caminho, onde se lia “Não permaneça em espaços pequenos demais para você”. Ou qualquer outra variação mais bonita dessa frase. Como boa aluna que sou, aprendi a lição, mas o problema é que não haviam placas que alertassem para outro mal: os lugares que nos acomodam, mas apenas parcialmente. Aqueles nos quais cabemos, não por inteiro, mas quase na totalidade, sabe? Como um cobertor que cobre o teu corpo inteiro no inverno, mas deixa a pontinha do pé de fora. Só uma beirada, só um cantinho. Esses espaços enganam. Eles soam como seguros, acomodativos, e sussurram baixinho: ei, você cabe aqui! Mas, conforme o tempo passa, você começa a perceber que caber não é o mesmo que acomodar, e que um dedo de fora, por menor que seja, ainda é um dedo de fora.
Esses são os lugares mais perigosos, na minha opinião. Porque eles são um enorme e gigantesco “quase”. São quase bons, são quase acomodativos, quase certos, você quase cabe. Mas quase não é ser, quase caber não é caber. E o problema é que esse “quase” cria uma falsa sensação de comodidade, uma ilusão de estar ocupando um espaço ideal. Ele ilude, engana, manipula. Cada vez que você pensa em sair, ele parece tão bom, tão confortável. Porque o incômodo não é grande o suficiente, e o desconforto é até tolerável. Tudo bem que o dedo ficou de fora, o resto tá coberto. Até que o seu dedo está congelando e a dor se torna insuportável.

Tudo bem, isso foi meio dramático, eu admito, mas o meu ponto é: nós só nos movemos quando o desconforto é grande demais para aguentar, quando ele é maior do que o conforto. E por isso, justamente por isso, que os lugares em que quase cabemos são mais perigosos do que os que não cabemos por inteiro. Por que neles há a dúvida. O espaço em que o desconforto existe, mas é pequeno demais para nos fazer agir. E o resto é bom, é realmente bom. E isso nos faz questionar não o espaço, mas a nós mesmas, aquele eterno “e se eu só…”. E você pode completar a frase como quiser: se você só mudar, só se adequar, só se encolher um pouquinho…. É como colocar em xeque todos os padrões que definimos para nós mesmas. Será que as nossas exigências não são altas demais, nossas dores exageradas, nossas queixas uma mimadice sem fim? E a resposta é um alto e sonoro não. Não é exagero, não é mimadice, o problema não é você. Se um espaço quase te cabe, ele não te cabe. E quanto mais rápido você aceitar isso, mais rápido vai poder procurar um que te acomoda por inteiro, sem apertos, sem falhas, sem dúvidas ou incertezas. Sem quases.
Se você, assim como eu, está nessa situação, lembre-se: quase não é caber. Se você quase cabe, você não cabe por inteiro, se você não cabe, não é o seu lugar e ponto final. Agora pare de cortar as partes do seu corpo que ficam para fora, elas podem ser pequenas, mas elas importam. Apenas pegue todo o seu maravilhoso e lindo tamanho e leve-o para um espaço que o acomode por inteiro. E quando você aprender a fazer isso, por favor, volte aqui e me ensine.