Nunca gostei de maquiagem. Adolescente, corpo mudando, espinhas saltando, primeira menstruação, vontades explodindo e arrefecendo. Adolescente. Posta entre os olhos dos outros e analisada. Tudo demais. Um sutiã, absorvente, desodorante, gel para cabelo e um gloss. Morango. Mas as colegas gostavam de batom. Rosa choque, vermelho. Unhas coloridas, pó, rímel, delineado. Eu gostava da minha pele, às vezes gostava até das espinhas. Era oleosa. Gritava. E eu “cuidava”: argila, limão, açúcar, mel, café e protetor solar. Bastava. Um dia, ouvi que precisava de pó. Algo não estava bom. Talvez uma parte, talvez tudo. O pó resolveria, mas eu não sabia usar. Que tanto botar? Escapei.
Outro dia, quando ia entrar na universidade, disseram de novo: “vê se passa ao menos um pózinho”. Algo ainda não estava bom. Mas fui e ainda não gostava de maquiagem. Descobri olhando outras mulheres, que eu considerava bonitas e que tinham a pele mais seca do que a minha, que o batom em mim não ficava bom por conta da pele oleosa. Tinha vergonha. Achava a oleosidade um elemento que denota sujeira, e a cor nos lábios chamaria mais atenção para isso. Então, preferia que não houvesse um provocador.
Lembrei do pó. A pele sequinha, intacta. Investi. Marcas, tipos, cores, com isso, com aquilo, para isso, para aquilo. Bombardeei a pele com tudo que tinha “contra oleosidade”. Fui vencida. As farmácias, até então aliadas, se tornaram suspeitas. Havia sonhado com uma pele que não era a minha e fiquei com raiva por tê-la tornado palanque do desejo indecente do mercado. O sistema que nos espia pelo buraco da fechadura e nos faz dançar para ele, como se os pés não doessem e não precisássemos de fôlego para a próxima dança. Frenético. Com a língua para fora. Sedento. Bebendo em nós. Fonte inesgotável.
Vencidas. Vendadas. Vitrine.
Eu queria não precisar de máscara. Queria poder escolher como eu ia gostar de mim. Ia ser sem maquiagem. Com brilho.
Fui atrás de mulheres com histórias para contar. Teci com elas uma colcha de incômodos e desinteresses. Cobrimo-nos. Como quem faz da bagagem uma cama.
Nesse alinhavo, de um ponto a outro, discutimos a indústria e como ela se vale de nossos corpos para testar e duelar seus padrões inatingíveis. A pele dos sonhos.
E para isso, incorpora em seus produtos ingredientes perigosos para a saúde, como é o caso dos petrolatos, ftalatos, parabenos e liberadores de formaldeído.
As letrinhas miúdas, que são associadas a distúrbios hormonais, distúrbios endócrinos, hipersensibilidade e câncer.
Mas não, esse não é um texto terrorífico. Não tento convencer o leitor das péssimas intenções da indústria. Ela nos arreganha os dentes sempre que pode. Gentil. Mãos enluvadas.
O texto também não terá caráter informativo. Talvez conste como um desabafo. Uma mulher que nunca gostou de maquiagem.
Faz diferença?