PAPO DE ARTEIRA | “Quero crescer na música sem perder aquilo que faz de Negra Flow quem ela é”

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PAPO DE ARTEIRA | “Quero crescer na música sem perder aquilo que faz de Negra Flow quem ela é”

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Depois de passar pelo Favela Talks, rapper brasiliense fala sobre mercado, circulação, independência, novo álbum e a presença de mulheres negras e periféricas nos espaços de decisão.

Chegar a um palco que durante anos existiu como sonho é uma conquista. Para uma artista independente, no entanto, o trabalho continua depois que as luzes se apagam. É preciso fazer a música circular, criar relações, encontrar quem contrate, quem programe, quem aposte e, principalmente, descobrir como crescer sem entregar ao mercado aquilo que faz um trabalho ser único.

Negra Flow está vivendo esse momento. Nascida e criada em Brasília, a rapper participou em julho do Favela Talks, plataforma de mercado do Favela Sounds que reúne showcases, rodadas de negócios, curadores, produtores, festivais e outros profissionais da indústria da música. Era um palco que ela queria ocupar desde o começo de sua trajetória no rap.

Depois vieram outros movimentos. Negra Flow integra a programação do Festival Elemento em Movimento, ao lado de Ebony, Emicida, Don L, KL Jay e N.I.N.A., e prepara um novo álbum. O lançamento acompanha sua participação no Festival Mantém, agora previsto para novembro.

A conversa com a Hora do Sabbat parte justamente daí: o que acontece depois que uma artista independente começa a ocupar espaços maiores? Falamos sobre mercado, identidade, autonomia, amadurecimento e o desafio de transformar oportunidades em uma carreira possível. E, como arte também ocupa o mundo, chegamos à política e à presença das mulheres negras e periféricas nos lugares onde decisões são tomadas.

Entrevista | Negra Flow

1. Antes do Favela Talks, você contou que, desde que começou no rap, sonhava em se apresentar no Favela Sounds. Agora que isso aconteceu, o que a menina que começou escrevendo poesia diria para a mulher que ocupou aquele palco como rapper brasiliense? E que conselho essa mulher de hoje daria para aquela menina continuar acreditando no próprio caminho e construir a artista que você se tornou?

Aquela menina ficaria muito orgulhosa de mim, porque o sonho que começou na poesia hoje ocupa grandes palcos. Eu diria a ela para nunca deixar de acreditar na própria voz, porque nossa história tem força. E hoje eu digo: não desista, respeite seu processo e nunca deixe de sonhar, porque a sua arte pode te levar muito além do que você imagina.

2. O Favela Talks reúne palco, Roda de Negócios e encontros com curadores, produtores, festivais e outros profissionais da indústria da música, criando uma estrutura de mercado em torno dos artistas participantes. Passado o evento, o que efetivamente se movimentou para Negra Flow a partir dessas conversas? Alguma parceria, convite ou possibilidade concreta nasceu dali?

O Favela Talks abriu portas e possibilitou conexões muito importantes. Estar em contato com produtores, curadores e outros profissionais fortalece nossa caminhada e amplia nossa visão sobre o mercado musical. Ainda estou construindo essas possibilidades, mas acredito que esses encontros podem gerar frutos muito importantes para os próximos passos da minha carreira.

3. Um showcase coloca a artista diante de pessoas que podem contratar, circular, investir ou abrir novos caminhos para aquele trabalho. Como foi apresentar sua música diante desse olhar de mercado e, ao mesmo tempo, preservar a identidade, o discurso e a liberdade artística que construíram Negra Flow?

Foi uma experiência muito importante, porque pude mostrar meu trabalho para além do palco, sem abrir mão da minha essência. Acredito que é possível ocupar espaços no mercado musical mantendo minha identidade, minha vivência e minha verdade. Quero crescer na música, mas sem perder aquilo que faz de Negra Flow quem ela é.

4. Depois do Favela Talks, sua agenda em Brasília ganha novos capítulos: você também chega ao Festival Elemento em Movimento, dividindo a programação com nomes como Ebony, Emicida, Don L, KL Jay e N.I.N.A. O que significa, para uma artista candanga e independente, começar a ocupar esses espaços ao lado de nomes que já construíram trajetórias de referência no rap brasileiro?

É uma realização enorme e também uma responsabilidade. Como artista independente e candanga, ocupar esses espaços ao lado de nomes tão importantes do rap brasileiro mostra que Brasília tem muita potência. Para mim, é sobre celebrar minha caminhada, fortalecer a cena local e mostrar que também temos histórias e vozes que merecem chegar cada vez mais longe.

5. Em “Bitch”, com OGCapitu, você parte de uma palavra historicamente usada para diminuir mulheres e a transforma em afirmação de autoestima, independência e domínio da própria narrativa. Essa mulher mais segura, ambiciosa e consciente do próprio valor também aponta para a Negra Flow que vamos encontrar no novo álbum?

Com certeza! “Bitch” representa muito essa fase de me reconhecer, entender meu valor e não ter medo de ocupar meu espaço. Essa força e essa liberdade também estão presentes no novo álbum, mas trazendo outras camadas de quem eu sou. É um trabalho que mostra meu amadurecimento, sem perder minha essência e minha verdade.

6. O lançamento do novo álbum estava previsto para setembro, junto à sua apresentação no Festival Mantém, que agora foi adiado para novembro. Ao mesmo tempo, outros palcos e experiências surgem nesse caminho. Como esse deslocamento de calendário interfere na construção do disco e no momento que você vive? Existe também a possibilidade de chegar a novembro como uma artista diferente daquela que imaginava lançar esse trabalho alguns meses antes?

Acho que o tempo também faz parte do processo artístico. Esse adiamento me permite viver novas experiências, amadurecer ideias e olhar para o disco de outra forma. Até novembro, muita coisa pode mudar, porque eu continuo me transformando como mulher e artista. Talvez o álbum chegue ao mundo com uma Negra Flow ainda mais madura, mas sem perder a essência que deu vida a esse trabalho.

7. Sua obra fala de racismo, periferia, protagonismo feminino, liberdade e desigualdade — e tudo isso também fala sobre quem pode ocupar espaços e decidir os rumos do país. Em pleno processo eleitoral de 2026, o que você espera das mulheres, especialmente das mulheres negras e periféricas, quando chegarem às urnas? E o que você espera de quem pretende representar essas mulheres politicamente?

Espero que as mulheres negras e periféricas votem conscientes da própria força e da importância da sua voz. Que escolham representantes que conheçam nossa realidade e se comprometam de verdade com nossas necessidades. Precisamos de mais mulheres negras ocupando espaços de decisão e de uma política que não apenas prometa, mas que trabalhe para transformar nossas vidas.

 

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