O Brasil está entre os países mais vaidosos do mundo — ainda assim, é um dos que menos compreende a origem dessa relação com o próprio corpo. Andar descalço, banhar-se mais de uma vez por dia e mesmo técnicas de higiene bucal são herança dos povos originários, talvez você até saiba disso.
Mas você já parou para pensar o quanto esses hábitos influenciam a rotina do brasileiro? Vamos descobrir!
É fato que o brasileiro AMA se cuidar. Segundo a Forbes, o Brasil ocupa o 4° maior mercado global no segmento de beleza e cuidados pessoais. Embora a aparência seja tema central das conversas, raramente mencionamos a herança ancestral atuante na cosmetologia.
Antes de tudo, devemos voltar no tempo e entender a filosofia indígena. Para eles, o corpo era um templo sagrado e adorná-lo ultrapassava a expressão pessoal. Ao contrário da visão individualista contemporânea, a identidade estava atrelada a uma consciência coletiva e colaborativa.
Desse modo, a natureza se manifestava na forma. Os hábitos de autocuidado tornavam-se rituais complexos — exigindo dedicação, atenção e carinho. É aqui que começa a se formar a rotina de embelezamento atual. Aliás, a correlação entre a qualidade de um produto e sua pureza também advém dos nativos, que enxergavam a natureza como uma força viva e pulsante.
Além disso, diversas técnicas hoje utilizadas pela indústria foram concebidas por esses grupos, como:
Protetor Solar

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Muito antes da criação dos filtros solares, os povos nativos utilizavam o urucum — fruto cuja tinta protege a pele tanto do sol quanto de insetos.
Mais do que um recurso estético, havia ali uma compreensão atemporal: o corpo não só precisava do calor solar, como também de proteção frente à sua intensidade.
Cremes de Fixação

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A pintura corporal era um aspecto essencial da vida indígena. Repleta de significado, ela assume o papel de linguagem visual que comunica histórias por meio do corpo. Porém a cor sozinha não dura, é preciso fazê-la aderir à pele.
Para garantir sua permanência, pigmentos como o urucum eram combinados com óleos, enquanto resinas e seivas naturais atuavam como agentes de fixação.
Na prática, esses elementos funcionavam como o que hoje chamamos de “veículo” ou base cosmética: substâncias que permitem que a cor se fixe e resista ao tempo.
Skincare

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Você provavelmente já encontrou produtos de skincare à base de argila. O que poucos sabem é de onde vem esse saber.
Grupos como Kayapó e Kuikuro utilizavam argilas e minerais como um modo de preparar e equilibrar a pele. Entre povos amazônicos, como os Yanomami, as cinzas vegetais também eram utilizadas.
O resultado era uma limpeza profunda, com efeito semelhante ao que hoje chamaríamos de ação alcalina. Ou seja, muito antes dos produtos “detox”, o cuidado com a pele nascia de uma relação direta entre o corpo e a terra.
Cuidado, proteção e expressão sempre fizeram parte de um mesmo estilo de vida. Foi apenas com a ascensão da indústria cosmética, instigadora do consumismo, que esses elementos passaram a ser separados, promovendo a ideia de que somos seres incompletos.
Fica, então, uma provocação: talvez o que nos falte não seja comprável, mas sim um conhecimento ancestral que mora dentro de cada um.
Portanto, antes de associar a tecnologia ao ambiente frio dos laboratórios, vale questionar: será que esses conhecimentos não vêm de um passado que tentamos apagar? Afinal, a inovação nem sempre está no que criamos — muitas vezes, ela se esconde naquilo que esquecemos.
Leituras e referências:
Este texto se baseia em dados da FUNAI, MMA e estudos sobre etnobotânica e práticas culturais indígenas brasileiras.
FORBES BRASIL. Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo. Disponível em: https://forbes.com.br/negocios/2020/07/brasil-e-o-quarto-maior-mercado-de-beleza-e-cuidados-pessoais-do-mundo/?utm_source=chatgpt.com
FUNDAÇÃO NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS (FUNAI). Urucum: fruto faz parte da tradição indígena nas pinturas corporais. Disponível em: https://www.gov.br/funai
BRASIL DE FATO. Urucum: fruto tradicional na cultura indígena brasileira. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (MMA). Produtos da sociobiodiversidade e conhecimentos tradicionais. Disponível em: https://www.gov.br/mma