“Isso se chama TALENTO”: mulheres que rimam, sentem e resistem

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“Isso se chama TALENTO”: mulheres que rimam, sentem e resistem

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“Eu passei por muita coisa não venha me rebaixar,

pois o mundo gira hoje você me derruba amanhã eu te ajudo a levantar.

Toda ação uma reação é o que todo mundo diz,

mas eu não pago na mesma moeda, não gera esse ciclo infeliz.

Cai, levantei, percebi, que amanhã tu é meu aprendiz.

E não venha me dizer o que fazer não aponte cicatrizes que você nem viu nascer,

não diga que eu devo deixar meu cabelo crescer.

Pois cada um veste a armadura que sabe,

Uns faz meme na internet, poesia é o que me cabe.

preto do cabelo enrolado preto, carrego a batalha no peito, indomável guerreiro, sou filho herdeiro, do pai verdadeiro que não deixa falha

E para quem falou, ou fala ou que quiser falar que eu que eu ganhei o que ganhei só pela minha interpretação e movimentos eu digo que não,

isso se chama TALENTO.”

 

Talento é uma de muitas obras da artista Larissa Galvão, uma mulher negra que transforma sua luta em poesia.

A poesia faz parte da vida dela. Sendo sinônimo de abrigo, resistência e memória. Ali, a palavra vira corpo. O corpo vira discurso. E o discurso se transforma em enfrentamento. 

Como tantas outras mulheres potiguares, ela encontrou no movimento Slam um território de pertencimento.

Mas, afinal, o que é o movimento Slam? Antes de entendermos, precisamos fazer uma viagem no que eu chamo de túnel da memória e compreender a importância e necessidade de matérias como essa.

 

Ascensão da cultura do hip hop

Quando olhamos para os dados do Spotify, é perceptível a força do Hip Hop no Brasil: somos o terceiro maior consumidor do gênero Hip Hop, atrás apenas dos Estados Unidos (EUA) e México. Entre as diferentes expressões artísticas que o hip hop engloba, o rap, especialmente o feminino tem se destacado desde o ano passado, dominando o mainstream. Por isso, é importante conhecer sobre a ascensão das mulheres no cenário do rap.

Mas antes de virar tendência no país, o movimento surgiu nas décadas de 1980 e 1990, principalmente nas periferias urbanas, como uma forma de expressão cultural e social para as mulheres. 

 Aqui no Rio Grande do Norte (RN), a cena do Hip Hop é um movimento forte de afirmação e expressão identitária. As batalhas de rimas na Praça Cívica (Petrópolis), o Festival de Hip Hop Potiguar e artistas como a Pretta Soul são alguns exemplos que movimentam as periferias e fortalecem a cena underground do estado.

Pretta Soul Feat Amém Ore – Raízes (Clipe Oficial)

 Foi assim que algumas perguntas começaram a ecoar em meu imaginário. E no seu interior? Por onde andam os artistas? 

E principalmente, trabalhando a pauta sob uma ótica feminina. O que as mulheres estão produzindo por aqui? 

É essa inquietação que guia a produção desta matéria, baseada em trazer visibilidade para artistas locais, tendo como protagonista a artista e poeta Larissa Galvão, uma entre várias mulheres que refletem a luta e a persistência do movimento Hip Hop em nossa região.

 

Mossoró em holofote

Falando em Mossoró, a ascensão do gênero vem crescendo bastante nas ruas e em seus becos, trazendo novos artistas locais para o cenário regional. As batalhas de Slam e de rima tomaram conta de espaços simbólicos da cidade, como o Memorial da Resistência e o Beco dos Artistas, ambos locais conhecidos por contar, de perspectivas diferentes, um pouco da cultura da cidade, que agora também abraça essa nova energia.

Hoje, a cena de batalhas de rima é marcada pela presença de três grupos ativos: a Batalha do Sol, a Batalha dos Piratas e a Batalha Sankofa. Além dessas atividades, a cidade também conta com a iniciativa do Slam Poetisar.

 

Larissa Galvão

Conheci Larissa através de uma amiga, Bianca, uma das organizadoras da Batalha de Rima da cidade. Em uma conversa, ela me contou sobre a ausência de mulheres rimando na cena local. Porém, muitas delas já escreviam poesias e participavam de um movimento de poesia falada conhecido como Slam.

No Slam eles usam a poesia para discutir, provocar e falar de temas importantes. Esse estilo só chegou ao Brasil em 2008, quando a artista Roberta Estrela D´Alva criou o ZAP Slam, na cidade de São Paulo. Depois disso, esse movimento se expandiu para todo o país, se tornando um espaço de reunião, resistência e dando visibilidade às pautas necessárias.

Bianca comentou comigo que, em Mossoró, mesmo com a organização de eventos culturais sendo liderada por mulheres, as desigualdades de gênero continuam presentes tanto nos bastidores, como também nos palcos. 

“Para gente pensar sobre esse tema primeiro é levar em conta o machismo enquanto uma estrutura social que atravessa todas as relações, mesmo quando mulheres estão à frente da organização, continuamos inseridas em uma cultura que historicamente naturaliza desigualdades de gênero, disputas de poder e silenciamentos”, relata.

E complementa: “Ao mesmo tempo, acredito que o diferencial do Slam é justamente a possibilidade de elaborar essas questões coletivamente, por ser um espaço político e artístico, há mais abertura para autocrítica, debate e transformação, reconhecendo que nenhum espaço social está livre das estruturas que tentam combater”, diz.

Sobretudo, isso amplia a discussão: o foco não deve ser apenas a ocupação dos espaços, mas a transformação da estrutura que os oprime. A presença feminina cresce, mas ainda enfrentam desigualdade de gênero que dificulta sua permanência e reconhecimento na cena.

Por isso a persona de Larissa Galvão é tão necessária. Ela tornou-se tetracampeã do Slam Mossoró, já participou de um campeonato nacional e também ganhou um prêmio intitulado Troféu Vidas Negras 2023.

Troféu recebido no “V Seminário Vidas Negras”, em 2023.        (Foto: Reprodução.)“Minhas inspirações de poesias são construídas a partir de falas e acontecimentos que me atravessam e me tocam profundamente, porque eu acho que não existe poesia de Slam se você não acredita na verdade do que você está falando”, afirma a artista.

Larissa diz que entrou na cena sem muitas expectativas. “Vi um post no Instagram chamando para um evento com palco aberto. Eu fui”, relata.

 

Foi a partir desse momento que o Slam entrou em sua vida, com o início da organização do Slam Poetisar.Foi algo natural, mas muito rápido. O antigo gestor estava saindo e me ensinou o que podia. Mas, na maior parte do tempo, aprendi a me virar sozinha”, relembra o início. Atualmente, o Slam e o hip hop não são só arte para Larissa, e sim parte do seu cotidiano.

“É meu estilo de vida, minha profissão, minha meta, literalmente um motivo pra existir”, reafirma a artista.

E isso ficou ainda mais evidente quando participou do campeonato nacional. “Foi incrível, conheci artistas de todo país, pessoas que até hoje tenho contato. Foi muito especial”, fala contente.

Porém, ser mulher nesses lugares ainda é uma questão, ela já teve que lidar com o preconceito e dificuldades, justamente em ambientes que deveriam ser acolhedores.

“Existem preconceito dos próprios MCs e pessoas que veem de fora, mas o principal é o horário que se estende, fica difícil voltar para casa, principalmente sozinha na praça esperando o aplicativo”, comenta.

A artista comenta sobre um caso em específico: “Uma vez aconteceu de eu tentar rimar e brincar com um certo grupo de meninos e aí a roda simplesmente fechar para mim, ou na minha vez de rimar me pularem… Isso acabou com minha confiança, eu até tentei rimar depois, mas eu não rimo com qualquer pessoa mais….”, fala reflexiva.

Mesmo diante de contratempos, Larissa enxerga a capacidade e potência nas mulheres que fazem parte dessa cena, que vai se transformando e dando oportunidades para quem pretende começar.

“É uma experiência diferente para cada um. Eu gosto de palestrar e levar o Slam a outras camadas que desconhecem o movimento ou tem preconceito. Gosto de ser poeta, competir, gosto de organizar e fico realmente feliz pela evolução de todos. Gosto de ser plateia, eu gosto de tudo vai depender do momento. Estar dentro do movimento é estar em casa”, compartilha emocionada.

Larissa junto de Pretta Soul, em 2025. (Foto: Léo da Bodega.)

 

Mulheres apoiando mulheres

Portanto, é notável o avanço local da cena de hip hop na cidade. Centrada na região Sudeste, agora recebe notoriedade com artistas potiguares, dispostos a mudarem a visão estereotipada da sua regionalidade. Movimentos como o Slam Poetisar fomentam a cultura local e a arte de levar poesias e histórias das ruas para o povo.

Mulheres como Larissa, Carol (representante estadual no Campeonato Nacional de Slam 2026), Dona Liberdade (rapper potiguar) e entre outras, transformam suas vivências em rima e poesia, retratando o cotidiano e as experiências das ruas potiguares. 

Através de realidades diversas, nas periferias e nos centros, vão ocupando espaços e promovendo união e transformação de uma sociedade, abordando questões urbanas, raciais, de gênero e políticas, como também influenciando na moda e estilo de vida.

Poesia é música, é vivência e, principalmente, resistência. Mulheres lutam por voz e fazem política com seus sons, como é o caso das artistas Ebony, Duquesa, N.I.N.A e Nanda Tsunami, que ascenderam a nova geração da cena do rap feminino brasileiro e ocupam um ambiente predominantemente masculino.

Talento não é apenas performance ou interpretação. Significa ocupar e ampliar espaços que historicamente tentaram silenciar vozes femininas. Em Mossoró e em tantas outras cidades, mulheres seguem resignificando o cotidiano em versos e seus versos em resistência. E quando alguém questionar, elas já sabem a resposta: isso se chama TALENTO.

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Respostas de 6

  1. Que potente. Amei conhecer um pouquinho da história de Larissa Galvão e sentir sua arte bem de perto. Texto maravilhoso!

  2. Sensacional. Já amo a cultura do Slam de poesia, batalhas de rima, hip hop… ler sobre uma mulher nesse local, ocupando esse espaço, é reconfortante e muito potente! Arrasou Iasmin

  3. Que texto incrível! Super necessário falar sobre o cenário da música e a representatividade feminina! Parabéns pela escrita, Iasmin Cardoso!

  4. Que maravilha! Eu conhecia a história da Roberta Estrela D’Alva pois sou de São Paulo e gosto de Rap, sou fã da cultura Hip Hop e gostei de conhecer Larissa Galvão. Parabéns pelo texto!

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