Quantas vezes o seu corpo decidiu antes da razão?
A mulher com sua memória corporal segue mudando trajetos, evitando contato visual, carregando a chave na mão. Não experimenta os lugares com a mesma tranquilidade que os homens. Toda mulher atravessa um treinamento silencioso que a prepara para viver com medo e preocupação. São saberes repassados de mãe para filha, de amiga para amiga, experiências acumuladas que ao mesmo tempo que protegem, aprisionam.
Em um país onde cerca de quatro mulheres são vítimas de feminicídio por dia, o treinamento não é exagero, é resposta à realidade que emerge como condição para se manter viva.

Ninguém consegue demarcar a linha em que essa troca coletiva e inconsciente começou, mas toda mulher sabe o que pode lhe acontecer se ela ignora esse saber, sabe também que os homens não precisam desenvolver esses instintos e sabe, sobretudo, que nada disso é natural, é imposto; não é dom, é lei da sobrevivência e faz parte de um projeto de sociedade que não respeita suas mulheres e meninas.