Dizem por aí, com uma leveza quase irritante, que os 30 são os novos 20. É uma frase bonita, dessas que inundam as redes sociais e os podcasts de autoconhecimento que eu mesma consumo. No papel, a teoria é perfeita: a expectativa de vida aumentou, as carreiras não precisam mais ser lineares e o roteiro rígido que nossos pais seguiram já não nos serve.
Mas, na prática, quando eu paro para pensar em que ponto da vida estou — e o silêncio responde — a conta não fecha. Se existe mesmo esse “fôlego extra”, por que a percepção ainda é de que perdi o prazo?
Como mulher negra, cresci ouvindo que precisaria correr o dobro para chegar em lugares que, para outras pessoas, pareciam logo ali na esquina. Talvez por isso, que agora, aos 30, a sensação é que a linha de chegada foi, mais uma vez, empurrada para frente.
Eu trabalho, estudo, crio, movimento a vida. E ainda assim, sinto como se estivesse em uma esteira que acelera sozinha, me obrigando a correr para permanecer exatamente no mesmo lugar.
De um lado, nos vendem a liberdade de não precisar ter tudo resolvido agora. Do outro, carregamos a culpa silenciosa por não chegar “lá” — mesmo sem saber exatamente onde esse “lá” fica.
No fim, talvez não se trate de ultrapassar ninguém, mas de silenciar esse relógio interno que insiste em comparar o meu capítulo inicial com o desfecho de outra pessoa.
Se os 30 são mesmo os novos 20, que eles tragam o direito mais valioso de todos: o de errar, recalcular a rota e entender que estar em movimento já é, por si só, estar no momento certo.