Sopros de Hera | As Mulheres que Lembram

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Sopros de Hera | As Mulheres que Lembram

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Quando Helena chegou à escola, estava chovendo. Uma chuva fina e fria, que não caía exatamente do céu. Parecia nascer do próprio ar e se espalhar devagar sobre tudo. Ela chegou, protegendo a fotografia da filha dentro do casaco, ainda assustada sem saber onde estava. Sabia apenas que uma mulher lhe dissera, três dias antes, numa fila de supermercado, quando a pegou chorando:

– Quando você não souber mais quem é, procure a casa onde as mulheres lembram.

E entregou um papel dobrado que nele estava escrito: Fica na saída da rodovia, km 35, pode seguir, quando acabar a estrada de terra, entre no mato à esquerda e caminhe mais um pouco. Helena limpou á lágrima e guardou o papel na sua bolsinha. Naquela noite, procurou o endereço na internet. Nada. Mandou mensagem para uma amiga perguntando se ela conhecia, a amiga respondeu que nunca tinha ouvido falar. Ainda assim, na manhã seguinte, acordou sentindo no peito que precisava ir. Vestiu um casacão, pegou sua bolsinha e uma foto de sua filha. Foi até a casa de sua vizinha, pediu carona para o Wilson, camioneiro, ele a deixou no km 35 e seguiu pela estrada. Helena olhou para a frente e começou a caminhar.  Foi assim que encontrou a escola. O casarão surgiu atrás da vegetação, era antigo, mas não parecia abandonado. Tinha três andares, janelas altas e paredes cobertas de trepadeiras. No centro do terreno havia uma árvore enorme, tão antiga que suas raízes haviam levantado parte das pedras do caminho. Não havia placa, nem portão. Uma mulher estava sentada numa cadeira de madeira e parecia esperar por Helena. Tinha cabelos completamente brancos, presos numa trança que descia pelas costas, e usava um vestido azul-escuro até os pés.

 

Foto: Nuno Lopes

 

– Helena? – Ela assentiu.

– Como sabe meu nome? – A mulher sorriu. 

– Você pediu ajuda.

– Mas eu não conheço vocês…

– Você rezou. A gente ouviu.

Helena olhou para o prédio.

– Isso aqui é uma escola?

– Vamos dizer que sim.

– Escola de quê?

A mulher se levantou.

– Depende do que você esqueceu.

Helena ficou em silêncio.

– Meu nome é Cida. Entre.

– Você é a diretora?

Cida abriu a porta.

– Uma delas. Somos sete.

– Sete?

Cida olhou para ela.

– Sim…

No hall, uma movimentação de mulheres por toda parte. Algumas conversavam nos corredores. Outras carregavam cestos com folhas e raízes. Uma jovem de cabelos curtos atravessou o saguão equilibrando uma pilha de livros. Duas mulheres riam perto de uma janela. Uma senhora ensinava três meninas a descascar mandioca. Ninguém parecia triste.

Helena esperava encontrar mulheres destruídas, iguais a ela, mas encontrou mulheres ocupadas, felizes. Vivas. Era quase desconcertante. Cida a levou até uma sala circular.

– Sente-se. – disse apontando para uma das cadeiras.

Helena sentou. Cida acomodou-se diante dela e abriu um caderno.

– Vamos começar.

– O que vai acontecer agora?

– Vamos descobrir se você ainda consegue encontrar a si mesma.

Helena sentiu vontade de ir embora. Cida pegou uma caneta e olhou no fundo dos olhos de Helena.

– Por que você veio?

Helena abriu a boca e não conseguiu montar uma frase. Cida esperou. Helena olhou em volta, depois passou as mãos na cabeça, fechou os olhos e ficou um tempo de cabeça para baixo. 

– Eu não sei.

– Tudo bem.

– Me falaram que eu não sei me comunicar, falar direito..

Cida permaneceu em silêncio.

– Dizem que sou louca, que só sei gritar.

Silêncio.

– Que eu só sirvo para ser dona de casa mesmo. Que nenhuma empresa vai querer me contratar mais. 

Mais silêncio.

– Eu não tenho mais amigas, eu quase não saio mais de casa. Só vou ao mercado e olhe lá.

Cida fechou o caderno. Helena franziu a testa.

– O quê houve?

– Você conseguiu te ouvir?

Helena começou a chorar. Cida não perguntou mais nada. Apenas chamou Dona Rosa, que se aproximou e estendeu a mão. Dona Rosa levava as mulheres para o jardim, onde andavam descalças sob o céu. O lugar tinha um cheiro único, feito da mistura de ervas, flores e terra molhada. Tinha uma pequena fonte no centro, cercada por pedras lisas e flores, muitas flores.

– Toda planta tem uma história, minha filha. 

– E toda planta cura? 

– Não.

Dona Rosa entregou-lhe uma folha. Helena a cheirou fechando seus olhos. 

– Toda planta ensina alguma coisa.

– O quê?

– Que cura também é saber o que não colocar dentro da boca.

Helena sorriu tímida.

– Minha avó dizia que conhecimento sem responsabilidade vira veneno. Durante séculos, chamaram de superstição o conhecimento que mulheres transmitiam umas às outras.

– E por quê?

Dona Rosa arrancou uma pequena erva do solo.

– Porque uma mulher que conhece o próprio corpo é menos fácil de controlar.

Helena olhou para ela.

– Só por isso?

Dona Rosa sorriu.

– Não existe “só” nisso.

Então apontou para a fonte.

– Hoje você vai deixar algumas coisas aqui.

Helena olhou para a água.

– O quê?

– O que nunca foi seu.

Dona Rosa misturou à água algumas folhas de alecrim, lavanda, manjericão e pétalas brancas. Depois pediu que Helena tirasse sua roupa. Helena fechou os olhos enquanto Dona Rosa despejava lentamente a mistura sobre seus cabelos, seus ombros e suas mãos. A água escorria pelo corpo levando consigo o cheiro fresco e algumas lágrimas. Helena esfregou os braços, o rosto, o peito, como se pela primeira vez pudesse tocar o próprio corpo sem lembrar das mãos de outra pessoa. Quando saiu da água, Dona Rosa colocou sobre seus ombros uma toalha branca:

– Pronto, minha filha. Pode ir para o seu quarto dormir que amanhã continuamos o seu processo.

As sete diretoras da escola eram conhecidas como As Guardiãs. Cida guardava a memória. Era a primeira a receber as recém-chegadas e a ouvi-las contar aquilo que haviam esquecido, perdido ou aprendido a negar sobre si mesmas. Dona Rosa guardava as plantas. Era responsável pelo primeiro banho das mulheres. Ensinava sobre ervas, raízes, sementes e os saberes que passavam de mulher para mulher. Cuidava dos corpos, das dores e dos pequenos rituais de cura, lembrando às estudantes que a natureza não era algo separado delas. Madalena guardava as palavras. Ensinava a escrever, a nomear o que sentiam e, principalmente, a reconhecer as palavras que haviam sido usadas para diminuí-las. Com ela, as mulheres recuperavam a própria voz. Lua guardava os sonhos. Ajudava cada uma a escutar aquilo que ainda desejava, mesmo depois de anos vivendo para satisfazer os desejos de outras pessoas. Naquele casarão, sonhar não era fantasia: era uma forma de voltar a imaginar futuro. Benedita guardava o fogo. Ensinava a transformar raiva em movimento, medo em coragem e dor em força. Era responsável pelos rituais de passagem, aqueles em que uma mulher deixava para trás uma versão de si que já não precisava carregar. Celeste guardava os números. Ensinava dinheiro, trabalho, contratos, negócios e tudo aquilo que permitia a uma mulher sustentar a própria vida. Liberdade também precisava caber numa conta bancária, num salário justo e na possibilidade de escolher. Quitéria guardava os caminhos. Era quem preparava as mulheres para voltar ao mundo. Ajudava-as a decidir para onde ir, o que levar consigo e o que deixar para trás. Ensinava que pertencimento não era encontrar um lugar onde alguém permitisse que elas ficassem, mas descobrir o lugar onde pudessem existir inteiras.

Nenhuma delas era mais importante que a outra. O trabalho de uma começava onde o da outra terminava, como partes de um projeto de reconstrução. Primeiro lembrar, depois cuidar, falar, desejar, transformar, sustentar e, enfim, partir. A escola havia aprendido, ao longo dos séculos, que esse tipo de história era perigoso. Toda vez que uma sociedade precisava de uma heroína única, bastava matar a heroína. O que não podiam matar era uma rede. Por isso eram sete, e cada uma guardava um tipo de conhecimento que, durante muito tempo, os homens haviam chamado de pequeno, até que as mulheres aprenderam que eram justamente essas pequenas coisas, que, juntas, podiam reconstruir uma vida inteira.

 

Foto: DobreFotki

 

Na manhã seguinte, Helena conheceu as outras mulheres. Dora chegara seis semanas antes. Tinha sido proibida de trabalhar depois do nascimento do segundo filho.

– Diziam que não era necessário. 

– E era?

Dora riu.

– Hoje eu sei que sim.

Nair não falava. Durante anos, haviam interrompido cada frase sua. Junto disso, gritos, ameaças, então ela preferiu o silêncio. Quando Helena perguntou por que ela havia parado de falar, Nair escreveu num papel: cansei de disputar voz com quem só queria ter a última palavra. Rebeca tinha vinte e quatro anos e o cabelo raspado.

– Foi punição? – Helena perguntou.

Rebeca sorriu.

– Não. Durante muito tempo decidiram como eu devia parecer.

Passou a mão pela cabeça.

– Agora estou descobrindo como quero me olhar.

Conheceu também, Solange. Chegara a escola aos sessenta e oito anos depois de passar cinquenta e dois anos cuidando de uma família inteira.

– O que você fazia antes? – Helena perguntou.

– Tudo.

– E agora?

Ela sorriu.

– Tudo que eu quero fazer.

O sino tocou e todas se encaminharam para a grande sala. Madalena, a Guardiã das Palavras, estava em pé.

– Bom dia, mulheres. Se acomodam em suas cadeiras. Já vamos começar. 

Em cada cadeira, tinha um pequeno caderno de notas e uma caneta. 

– Hoje vocês vão continuar o processo de redescoberta. A cura virá. O esquecimento também. Mas, enquanto isso, vamos tentar devolvê-las a si mesmas. Escrevam a primeira palavra que vier à cabeça de vocês sobre uma coisa que disseram que vocês eram. 

Helena pensou, pegou o lápis e escreveu. Madalena pediu que cada uma lesse em voz alta. “Louca”, “Difícil”, “Ingrata”, “Feia”, “Gorda”, “Exagerada”… A sala foi se enchendo de palavras que tinham sido usadas como armas. Quando chegou a vez de Helena, sua voz tremeu.

– Fraca.

Madalena perguntou:

– Leia de novo. Você concorda com o que está escrito?

Helena demorou.

– Não.

– Então por que você carregou essa palavra até aqui?

Helena não respondeu. Madalena caminhou devagar pela sala, olhando para cada uma delas.

– Reparem em uma coisa. Eu pedi uma palavra qualquer e todas encontraram uma palavra que alguém usou para te diminuir. É assim que a gente vai se perdendo. Uma palavra de cada vez. Um comentário aqui, uma crítica ali, uma brincadeira que machuca, uma comparação, uma certeza que alguém impõe até que ela pareça nossa.

Ela tocou o próprio peito.

– Mas palavras também podem fazer o caminho contrário.

Madalena pediu que fechassem os olhos.

– Pensem em uma palavra que alguém já usou para fazer vocês se sentirem pequenas. Agora deixem essa palavra ir. Não precisamos fingir que ela nunca existiu. Só não precisamos mais carregá-la. Depois, procurem outra. Uma palavra que lembre quem vocês eram antes de acreditarem nas palavras dos outros. Corajosa. Inteligente. Bonita. Criativa. Forte. Generosa. Livre. Desejada. Capaz. Escolham a que for de vocês. E, se nenhuma vier, não tem problema. Nós temos tempo. Às vezes, a primeira palavra que uma mulher precisa aprender novamente é simplesmente: eu. Escrevam essa palavra no caderno de vocês e todos os dias, daqui em diante, ao acordarem, olhem para essa palavra.

No dia seguinte, as mulheres se reuniram com Lua. Nos fundos do casarão havia uma grande represa, cercada por árvores e uma cascata convidativa. Cada uma recebia um colchão inflável e o deixava sob a água. Deitadas sob o céu, balançavam devagar enquanto Lua caminhava pela margem.

– Fechem os olhos. Não tentem dormir. Apenas parem de tentar acordar.

As mulheres riram baixinho, sem entender direito o que Lua queria dizer.

– O corpo sabe descansar quando a cabeça finalmente para de mandar.

Ela então começou uma meditação guiada. Pedia que respirassem devagar, que relaxassem os pés, as pernas, os braços, o rosto. A voz de Lua ficava cada vez mais baixa.

Uma a uma, as mulheres adormeciam. Lua deixava que elas acordassem no tempo delas e então se sentava com cada uma para ouvir seus sonhos. Não procurava prever o futuro. Não dizia que uma cobra significava traição ou que uma casa significava alguma coisa específica. Para ela, sonhos não eram dicionários, eram histórias escritas por dentro.

– O que aconteceu no sonho? O que você sentiu? Se ninguém pudesse julgá-la por aquilo que sentiu, o que você acha que queria fazer?

Era aí que começava a verdadeira aula. Lua ensinava que, muitas vezes, aprendemos a desejar aquilo que esperam de nós. Aprendemos a chamar de sonho aquilo que parece possível, aceitável, conveniente. Porém, quando as regras se calam por algumas horas, outras vontades encontram espaço para aparecer. Às vezes, uma mulher sonhava que corria uma maratona. Outra, que beijava alguém que jamais teria coragem de beijar acordada. Uma sonhava que abandonava a própria casa. Outra sonhava que nunca havia tido filhos. Havia quem sonhasse em voltar a estudar, viajar sozinha, abrir um negócio, dançar, cantar, pintar. E havia também, aquelas que não se lembravam de sonho nenhum, mas Lua nunca se preocupava.

– O silêncio também é um sonho que ainda não encontrou palavras.

Helena gostou daquela aula porque sempre sonhava muito. Naquele dia, contou à Lua que havia sonhado que estava em uma estação de trem. Não sabia para onde queria ir, mas carregava uma mala pequena e, pela primeira vez, ninguém estava perguntando quando ela voltaria. Lua ouviu tudo sem interromper.

– E você embarcou?

Helena pensou.

– Não.

– Por quê?

– Eu acordei.

As duas sorriram. 

– É por isso que estudamos os sonhos. Não para descobrir o que vai acontecer. Para descobrir o que, dentro da gente, já está acontecendo.

Foi numa manhã de terça-feira, enquanto todas ainda estavam no refeitório, que o rádio parou de tocar música e começou a transmitir uma notícia. A voz da jornalista falava sobre uma nova proposta apresentada como uma forma de “proteger as famílias”. As mulheres se entreolharam. Aquele ar de indignação que, até então, estava espalhado em pequenos gestos começou a tomar conta do espaço.

– Eles estão falando como se tudo fosse para o nosso bem. – disse Helena.

Quitéria, a Guardiã dos Caminhos, estava cortando pão. Não levantou os olhos.

– Quase sempre começam assim.

Helena a encarou.

– Como?

Quitéria pousou a faca.

– Primeiro dizem que é para o nosso bem, depois decidem o que é o nosso bem.

O silêncio que veio em seguida pareceu maior que o refeitório. No rádio, a reportagem continuava falando sobre famílias tradicionais, proteção, valores, costumes, qual era o papel da mulher na sociedade…Quitéria voltou a cortar o pão e a refletir em voz alta.

– Primeiro tiram uma coisa pequena. Depois outra. Um direito aqui. Uma escolha ali. Um trabalho que deixa de existir, uma decisão sobre o nosso próprio corpo…

Algumas mulheres começaram a chorar.

– Querem que continuemos em casa, cuidando dos filhos, fazendo comida, cuidando dos maridos, enquanto eles aproveitam a vida da porta para fora.

A voz no rádio dizia: “A mulher moderna precisa reaprender seu verdadeiro papel.” Dona Benedita, que até então permanecia em silêncio, levantou-se, foi até o rádio e o desligou.

– Verdadeiro segundo quem? – disse com aquela voz grave e rouca.

Todas olharam para ela, mas ninguém respondeu. Benedita apoiou as duas mãos sobre a mesa.

– Quando alguém disser “verdadeiro papel”, perguntem sempre quem escreveu o roteiro.

Olhou uma por uma.

– Se o nome de vocês não estiver nele, rasgue e jogue fora.

Benedita então levou as mulheres para o pátio dos fundos. Uma enorme fogueira a esperava. Ao lado dela, sobre uma mesa de madeira, estavam pequenos pedaços de papel e carvão.

– Escrevam. – disse Benedita. Escrevam tudo aquilo que disseram que vocês deveriam ser.

Benedita caminhava entre elas.

– Não escrevam o que vocês são. Escrevam o que colocaram sobre vocês.

Quando terminaram, ela se aproximou da fogueira.

– Raiva não é vergonha. Raiva é um alarme. Ela aparece quando alguma coisa dentro de nós percebe que um limite foi ultrapassado. O problema nunca foi sentir raiva. O problema é o que fazemos com ela. Agora joguem o papel no fogo.

As mulheres observaram os papéis queimando.

– Podemos transformar a raiva em destruição, ou podemos transformá-la em movimento.

Helena se aproximou da fogueira, olhou para o papel em sua mão, hesitou por alguns segundos e jogou.

– E se eu ainda tiver medo? – ela perguntou.

Benedita sorriu.

– Você vai ter, mas o medo não precisa desaparecer para que você vá embora. Coragem não é não sentir medo. É não deixar que ele decida por você.

Uma a uma, as mulheres foram queimando aquilo que haviam carregado durante anos.

Algumas choravam, outras gargalhavam aliviadas. Uma delas ficou olhando para o fogo por tanto tempo que Benedita se aproximou.

– O que você escreveu?

Ela respondeu:

– Que eu precisava ser uma mulher fácil de amar.

Benedita ficou ao seu lado.

– E agora?

A mulher olhou para as chamas.

– Acho que quero ser uma mulher difícil de abandonar.

Benedita sorriu.

– Bem melhor, não acha?

Benedita então entregou a cada uma uma pequena vela.

– O fogo de hoje não serve para destruir quem vocês foram. Serve para iluminar quem vocês podem ser. Vocês não precisam sair daqui sem medo, sem raiva ou sem cicatrizes. Só precisam aprender que aquilo que queimou vocês também pode ser o que acende vocês. 

Na escola, as mulheres também aprendiam sobre dinheiro. Celeste era a Guardiã responsável. Ensinava a matemática de sobrevivência. Como abrir uma conta, ler um contrato, entender de mercado financeiro, saber o preço do próprio trabalho, separar necessidade de desejo, reconhecer uma dívida abusiva e, principalmente, nunca entregar a outra pessoa o controle completo da própria vida financeira.

– Por que isso faz parte da escola? – Helena perguntou.

Celeste respondeu:

– Porque dependência financeira também é uma forma de violência.

Helena ficou em silêncio.

– Eu nunca pensei nisso como magia.

Celeste sorriu.

– Dinheiro bem compreendido é uma das magias mais antigas.

Celeste colocou uma pequena caixa de madeira sobre a mesa. Dentro dela havia cadernos, calculadoras, cartões fictícios, contratos, notas fiscais e pequenas fichas com diferentes valores.

– Hoje vocês vão aprender uma coisa simples.

– O quê?

– Quanto custa a vida de vocês.

Algumas mulheres se entreolharam. Celeste distribuiu uma folha para cada uma. No alto estava escrito: EU SUSTENTO A MINHA VIDA.

– Quero que escrevam tudo o que precisam para viver durante um mês. Não aquilo que gostariam de ter. Aquilo que precisam.

Ela caminhava entre as mesas enquanto as mulheres preenchiam os valores.

– Agora escrevam quanto recebem.

Algumas baixaram a cabeça.

– Se não recebem nada, escrevam zero. Zero também é um número. E números não devem ser motivo de vergonha. Devem ser informação.

Depois, Celeste pediu que calculassem quanto faltava ou sobrava.

– É aqui que começa a autonomia. Não quando vocês passam a ganhar muito dinheiro. Quando deixam de ter medo de olhar para ele.

Ao final da aula, Celeste entregou a cada mulher uma pequena cartilha encadernada. “Manual de Sobrevivência financeira para mulheres livres” Logo abaixo: “Nunca assine aquilo que você não entende.”

Helena sorriu.

– Vocês realmente ensinam tudo isso?

– Não tudo, mas o suficiente para que ninguém consiga convencer vocês de que dinheiro é assunto de gente mais inteligente.

– E se eu não for boa com números?

Celeste fechou a cartilha.

– Você não precisa gostar de matemática. Precisa apenas entender o suficiente para não entregar sua vida nas mãos dos outros. 

Celeste olhou para todas e disse:

– Guardem essa cartilha, mas não deixem que ela fique na gaveta. A verdadeira magia acontece quando o conhecimento sai do papel e começa a mudar as escolhas.

 

Foto: Garten

 

A noite, Helena encontrou Cida sozinha na biblioteca.

– Você sabia que isso aconteceria?

Cida demorou.

– Sabíamos que poderia acontecer.

– E por que ninguém fez nada?

Cida olhou para as estantes.

– Fizemos.

– O quê?

– Ensinamos mulheres.

Helena ficou irritada.

– Isso não parece suficiente.

Cida assentiu.

– Não é.

– Então por que continuaram?

A velha sorriu.

– Porque ensinar uma mulher é uma coisa. Ensiná-la a confiar em outra mulher é outra. E ensinar cem mulheres a confiar umas nas outras…

Cida fechou o livro que segurava.

– Isso muda uma sociedade.

Nos próximos dias, mais mulheres chegaram. A cada chegada, Cida fazia a mesma pergunta:

– Por que você veio?

As respostas variavam, mas o fim era o mesmo. “Porque me disseram que eu não podia sair.”, “Porque me disseram que eu não podia votar”, “Porque minha família não aceita quem eu amo.”, “Porque minha filha começou a achar normal.”, “Porque eu não reconheço mais meu rosto.”, “Porque estou com medo.”, “Porque não quero que minha filha aprenda isso.”, “Porque achei que estava ficando louca.”, “Porque minha mãe também viveu assim.”, “Porque eu descobri que não quero morrer antes de descobrir quem sou.” Um dia, uma mulher entrou na sala e permaneceu em silêncio. Cida perguntou:

– Seu nome?

Nada.

– Você consegue falar?

A mulher apontou para a boca. Cida viu o pequeno corte no canto dos lábios e não perguntou mais nada. Levantou-se e abriu os braços. A mulher se debruçou em lágrimas. 

Um mês depois da chegada de Helena, ela já tinha uma vida ativa na comunidade ou, como as mulheres costumavam chamar, na escola. Conhecia os horários das refeições, ajudava no jardim, já sabia quais portas rangiam durante a noite e havia aprendido que Dona Rosa não gostava que mexessem nas plantas sem pedir. Foi numa manhã, porém, que uma mulher chegou trazendo uma notícia que fez o casarão inteiro silenciar. Estavam procurando por elas. Queriam descobrir que lugar secreto era aquele onde mulheres passavam algum tempo e saíam de lá “outras”. Tinha até uma lista com o nome de algumas delas. As sete diretoras se reuniram na sala oval. Pela primeira vez em muitos anos, o desespero, mesmo que por pouco tempo, tomou conta daquela sala. Esconder-se, apagar os registros, mudar os nomes, queimar os livros, destruir a estrada. Até que Helena, que ouvia tudo do lado de fora, entrou na sala.

– Durante séculos vocês ensinaram mulheres a sobreviver. Agora está na hora de ensinar a existir.

Quitéria ficou em silêncio por alguns segundos e então disse:

– Chamem todas.

No fundo da sala havia uma grande estante de madeira. Quitéria caminhou até ela e tocou uma pequena marca que ficava nos fundos do móvel. A estante se moveu e atrás dela havia outra sala. Era um lugar que ninguém imaginaria existir dentro do casarão. Todas se olharam espantadas. Havia caixas empilhadas até o teto e dentro delas, cartas, fotografias, documentos, cadernos, objetos, certidões, desenhos, receitas, jornais antigos, pedaços de tecido, medalhas, alianças, cartas de amor. Histórias.

– O que é isso? – perguntou Helena.

Cida respondeu:

– Nós.

Helena pegou um caderno dentro de uma das caixas. Na capa havia uma data de mais de cem anos atrás.

– Quantas mulheres passaram por aqui?

– Não sabemos.

– E por que guardaram tudo isso?

Cida olhou para ela.

– Porque a primeira coisa que um sistema faz quando quer apagar uma mulher é dizer que ela nunca existiu.

Helena sentiu um arrepio.

– Então vocês guardaram provas.

– Guardamos a memória.

– Qual é a diferença?

Cida sorriu.

– Prova convence os outros. Memória convence a gente.

Naquela madrugada, as sete diretoras convocaram todas as mulheres para o pátio. A lua cheia iluminava seus rostos ao redor da grande árvore. Cida ficou diante delas:

– Vocês aprenderam que não existe uma escolhida. Não existe uma mulher que salvará todas as outras. Não existe uma bruxa maior.

Olhou para as seis companheiras.

– A nossa magia nunca pertenceu a uma mulher só.

Dona Rosa deu um passo à frente.

– Pertence às mãos que cuidam.

Celeste:

– Às mãos que trabalham.

Madalena:

– Às bocas que falam.

Lua:

– Aos olhos que percebem.

Benedita:

– Aos corpos que resistem.

Quitéria:

– Aos pés que caminham.

Cida:

– E às mulheres que lembram.

Então as sete começaram a distribuir pequenos pedaços de papel.

– Escrevam seus nomes. 

Todas escreveram. Depois, ela ergueu a voz:

– Agora leiam em voz alta esses nomes.

– Helena! Maria! Rita! Letícia! Camila! Juliana! Ana! Mariana! Sueli! Nair!!!

Os nomes foram se sobrepondo, preenchendo o pátio. Eram nomes de mulheres que, durante muito tempo, haviam se esquecido de suas próprias potências. Cida então pediu:

– Agora digam o nome de suas mães. Depois, os nomes das avós. Das bisavós…

Professoras, camponesas, operárias, médicas, costureiras, artistas, bruxas, santas, pecadoras, loucas, perigosas, livres. Todas sendo representadas através daquelas mulheres. Enquanto os nomes ecoavam pelo pátio, o vento começou. As folhas da grande árvore começaram a cair sobre as mulheres, a terra se moveu sob seus pés e a estrada que levava até a escola começou a desaparecer. O caminho inteiro ficou coberto de folhas secas. A natureza sabe mais do que imaginamos. As raízes daquela escola eram antigas demais para obedecer às regras de qualquer governo. Quitéria observava tudo em silêncio, então disse:

– Amanhã vocês vão partir.

Helena sentiu um aperto no peito.

– Todas?

– Todas.

– E se eu não quiser?

Quitéria segurou sua mão.

– Então você ainda não aprendeu a última lição.

– Qual?

– Nenhum caminho serve para sempre.

Quitéria ergueu uma bússola: 

– Lembrem-se que um mapa diz onde os outros estiveram. A bússola ajuda você a descobrir onde quer ir.

As duas ficaram em silêncio.

– A escola não existe para que vocês passem o resto da vida aqui. Existe para que vocês possam voltar para a vida que deixaram lá fora e finalmente escolher o que fazer com ela.

– E se eu escolher errado? – disse Helena

Quitéria sorriu.

– Então escolha de novo.

Na manhã seguinte, as mulheres começaram a partir e levavam o que não cabia em nenhuma mala. Levavam a si mesmas de volta para uma nova vida. E, espalhadas por diferentes cidades, começaram a viver como nunca haviam vivido antes. Helena ficou por mais algum tempo. Aprendeu a cuidar da horta com Dona Rosa, a administrar o próprio dinheiro com Celeste, a escrever cartas com Madalena, a escutar os sonhos com Lua, a acender o fogo com Benedita, a encontrar caminhos com Quitéria. E, com Cida, sempre uma boa conversa.

– A escola sempre vai existir?

Cida sorriu.

– Enquanto houver mulheres que precisem lembrar.

– E quando não houver mais?

A velha demorou a responder.

– Então teremos finalmente terminado nosso trabalho.

Helena olhou para a grande árvore.

– Você acha que esse dia chega?

Cida acompanhou seu olhar.

– Eu acredito que o mundo muda.

– Para melhor?

Cida sorriu.

– Isso depende de quem está lembrando.

Alguns meses depois, Helena voltou para casa. Encontrou sua filha sentada na mesa da sala e passaram horas conversando. Helena contou algumas histórias. Outras, guardou para si. Não por vergonha, mas porque nem toda dor precisa ser transformada em explicação para ser verdadeira. Antes de dormir, a filha perguntou:

– Mãe, aquela escola existia mesmo?

Helena sorriu. Pensou no casarão, na grande árvore, na estrada que aparecia e desaparecia, nas Guardiãs e em todas as mulheres que estiveram com ela durante aquele período.

– Existe, filha.

– Onde fica?

Helena olhou para ela.

– Depende.

– Depende de quê, mãe?

Helena segurou sua mão.

– De você lembrar.

 

 

                           Eu escuto, eu apoio

A Hora do Sabbat existe para fazer essas histórias circularem, registrar a trajetória de mulheres na música e construir uma rede em que experiência, conhecimento e oportunidades possam ser compa

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A campanha Eu Escuto, Eu Apoio ajuda a manter o programa, o blog, as entrevistas e a nossa curadoria em movimento. A partir de R$ 10, você passa a fazer parte dessa construção com a gente. http://apoia.se/horadosabbat

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