Criada em Nilópolis, artista constrói no segundo álbum uma obra sobre memória, autonomia, ancestralidade e permanência, com participações de Luedji Luna e Rashid

THAMI aprendeu primeiro a falar com o corpo. Foram mais de vinte anos de dança e expressão corporal antes de a música ocupar o centro da sua trajetória. A dança lhe deu disciplina, escuta, noção de espaço e respiração. O teatro musical ensinou a sustentar uma verdade diante do público. Com o tempo, ela entendeu que também queria cantar a própria verdade.
Essa trajetória desemboca em Relevuras, segundo álbum da artista, com dez faixas que atravessam neo soul, R&B, soul music e MPB. O trabalho reúne participações de Luedji Luna e Rashid e tem produção de Duda Raupp, Shimodara, Marcelo Delamare e Julio Mossil.
A direção artística é da própria THAMI. Esse dado diz muito sobre o momento que ela vive. Criada em Nilópolis, na Baixada Fluminense, THAMI reconhece na menina que foi a mesma fome de palco, a vontade de ocupar o espaço inteiro e o hábito de pisar descalça, mantendo os pés no chão. A principal mudança veio com a autonomia.
“A menina pedia licença o tempo todo. Achava que precisava estar pronta, ser escolhida, ser validada. A mulher que assina Relevuras parou de pedir.”
A frase resume um processo artístico e pessoal construído ao longo dos últimos anos. Os próprios títulos dos trabalhos formam uma espécie de cartografia dessa transformação. Em Nua, lançado em 2022, THAMI escrevia para ser vista e descobria sua identidade como cantora. Em Labirinto, de 2024, registrou o período da mudança para São Paulo, das escolhas e da procura por caminhos. Agora, em Relevuras, ela abandona a lógica da saída e passa a falar de permanência.
“Em Relevuras, eu parei de procurar saída e comecei a construir casa.”
Na faixa-título, THAMI canta “serei meu lar”. A frase sintetiza a artista que chega a este novo trabalho: uma mulher que ocupa o centro da própria narrativa e assume todas as etapas de construção da obra. Ela assina as composições e participou diretamente das decisões artísticas do álbum.
“Tenho menos dúvida e mais direção.”
A matéria-prima de Relevuras são as experiências que continuam vivendo dentro da gente. THAMI passou cerca de um ano organizando internamente essas memórias antes de transformá-las em música. Nesse processo, compreendeu que algumas marcas deixam de ocupar apenas o lugar da dor e passam a fazer parte da estrutura de quem somos.
“Algumas experiências não vão embora: elas viram o chão onde a gente pisa.”
Essa percepção ganhou outra dimensão nas conversas com as mulheres da família. Mãe, avó e irmã aparecem como parte importante desse processo de compreensão. Ao conversar com elas, THAMI percebeu que sentimentos, medos, afetos e experiências também atravessam gerações.
“Nem tudo que a gente sente começa na gente, mas muita coisa continua através da gente.”
A frase abre uma das camadas mais fortes do álbum. Relevuras olha para memória, herança e transformação sem propor apagamento. THAMI encontrou na música uma forma de organizar aquilo que viveu e dar novos sentidos às próprias marcas. A palavra que batiza o disco foi criada por ela.
“Eu precisei inventar uma palavra porque nenhuma dava conta do que eu sentia.”
A canção passou a funcionar como um lugar onde essas histórias podem ser revisitadas.
“Cada vez que eu canto, a história é a mesma, mas eu não sou.”
Essa busca por presença aparece também na construção sonora do álbum. THAMI quis um disco vivo. Bateria, sopros, guitarras, baixos e outros instrumentos foram gravados preservando a expressão de cada instrumentista. A voz também mantém respirações e características naturais da interpretação.
“Eu não queria um disco perfeitinho de laboratório, limpo a ponto de perder a humanidade.”
Para uma artista formada pela dança e pelo corpo, essa escolha tem coerência direta com sua trajetória. Também carrega uma posição sobre o momento atual da indústria.
“Num momento em que já é possível gerar uma voz do zero, escolher que a voz respire é afirmar que existe alguém ali: uma mulher negra, com história, com corpo e com respiração.”
THAMI transforma essa decisão estética em valorização do trabalho coletivo.
Cada instrumento tem uma pessoa por trás. Cada arranjo traz uma assinatura. Cada performance carrega experiência, técnica e trabalho.
“Manter o humano evidente é também manter essas pessoas trabalhando e sendo reconhecidas.”
Os encontros com Luedji Luna e Rashid também nasceram dessa lógica de construção artística. Luedji participa de “Prisioneira de Mim”. A relação entre as duas começou antes da gravação. Luedji ouviu uma faixa de Labirinto, compartilhou o trabalho de THAMI nas redes e esteve no show de lançamento do disco. Para uma artista que sempre reconheceu Luedji como referência, aquele gesto teve peso.
Depois de assistir a um show da cantora baiana, THAMI escreveu a música que acabaria reunindo as duas. “Prisioneira de Mim” fala sobre o cansaço de sustentar permanentemente a imagem da mulher forte. Com Luedji na faixa, a canção ganhou outra dimensão.
“Com a voz dela, essa prisão deixou de ser solidão. Virou duas mulheres pretas cantando o mesmo peso.”
Rashid participa de “Fiquei Assim”. A música já estava pronta quando THAMI percebeu que precisava de um contraponto. O rapper entrou no projeto trazendo leveza, suingue e humor.
“É o momento em que Relevuras sorri.”
Esses encontros também ajudam a revelar o lugar que THAMI vem construindo na música brasileira.
Sua trajetória foi feita de movimento, investimento próprio, insistência e formação de rede. Ela saiu da Baixada Fluminense, mudou-se para São Paulo e construiu uma carreira independente em um mercado onde talento não resolve sozinho as desigualdades de acesso.
“Talento abre a porta, mas não segura ninguém dentro da sala. Carreira é estrutura.”
THAMI conhece essa realidade na prática.
Investiu tempo, dinheiro e energia próprios. Enviou trabalhos sem receber resposta. Encontrou portas fechadas. Produziu com poucos recursos. Em alguns momentos, precisou escolher entre gravar e pagar contas. Também pensou em parar. A permanência veio de uma decisão consciente de continuar construindo.
“Aprendi a transformar a falta de recurso em criatividade, a trocar o ‘não tenho’ por ‘como dá pra fazer’.”
Para uma mulher negra vinda da Baixada, essa construção envolve ainda outra camada.
“A gente não herda a rede, a gente constrói.”
A frase revela uma das questões centrais da indústria musical brasileira. Redes de contato, investimento, circulação, acesso à mídia, festivais e oportunidades ainda chegam de forma muito desigual aos artistas. THAMI aprendeu a construir seu próprio caminho dentro dessa estrutura.
“Aprendi também a não deixar que um ‘não’ do mercado virasse um ‘não’ para mim mesma.”
Esse aprendizado atravessa diretamente a maneira como ela pensa políticas públicas para a cultura. Editais culturais tiveram papel concreto em sua trajetória e, para THAMI, são instrumentos de permanência artística.
“Edital não é favor nem esmola. É o que segura alguém no caminho por tempo suficiente para o trabalho amadurecer, encontrar público e começar a se sustentar.”
A artista defende políticas que alcancem mulheres, artistas negras, periferias, Baixadas e cidades do interior. O argumento parte de uma compreensão objetiva da cultura como trabalho, economia e identidade nacional.
“A música é um dos maiores ativos culturais do Brasil.”
Samba, funk, bossa nova, MPB e tantos outros gêneros ajudaram a construir a imagem do país no mundo. Para THAMI, investir em quem está começando significa garantir que novas produções, linguagens e artistas tenham condições reais de surgir.
“Todo grande nome que a gente celebra hoje já foi um artista começando, sem estrutura, precisando de uma primeira oportunidade.”
Relevuras chega justamente desse lugar de permanência. O álbum reúne a menina que começou pela dança, a mulher que decidiu cantar, a artista que saiu da Baixada, a compositora que aprendeu a confiar na própria intuição e a profissional que conhece de perto as dificuldades de construir uma carreira independente.
Relevuras registra uma artista que entendeu que permanecer também é parte do trabalho. THAMI chega a este disco com mais domínio sobre o que quer dizer, como quer soar e de que forma quer construir a própria carreira. As marcas continuam ali, mas já não aparecem apenas como ferida. Viraram repertório, consciência e direção.
E é por isso a frase que melhor explique este momento esteja menos no discurso sobre superação e mais na ideia de casa que atravessa o álbum: THAMI já não está procurando uma saída. Está construindo onde ficar. Ela ocupa, hoje, o lugar que construiu para si. Sem pedir licença.

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