Em “Virada”, cantora carioca mistura drum’n’bass, jungle e música brasileira enquanto fala de amadurecimento, identidade e do direito das mulheres de experimentar dentro e fora da arte

“Aos cinco eu já tinha planos.” O verso de “Virada” diz muito sobre Virgo Virgo. Antes da cantora e compositora carioca transformar mudanças, términos e autodescobertas em música, já existia uma menina imaginando uma vida construída pela arte. Hoje, quando olha para aquela criança, a resposta é direta: o sonho sobreviveu. “Seguimos firmes e fortes, lutando pra realizar nossos sonhos.”
O novo single abre caminho para o álbum homônimo que Virgo Virgo prepara e apresenta uma artista que gosta de circular entre referências, tempos e linguagens diferentes. “Virada” passa pelo sambass, aproxima música brasileira do drum’n’bass e antecipa um disco que também percorre jungle, samba-canção e sonoridades eletrônicas. Essa mistura não aparece como exercício de estilo. Ela faz parte da maneira como Virgo pensa a própria criação.
Virgo se define como um “liquidificador de referências”. Na estante cabem Juçara Marçal, Céu, Marina Lima, Fernanda Abreu, Kelela, PinkPantheress, Nia Archives e muitas outras artistas que habitam universos distintos. Para ela, o desafio está em absorver tudo isso sem desaparecer dentro das próprias influências.
“Eu sou muito contra imitação. Acho que a arte tem que refletir o ser humano único que cada artista é”, afirma. É aí que entra uma palavra muito brasileira para explicar seu processo: antropofagia. Absorver, transformar e devolver outra coisa. “Com autoconhecimento e maturidade fica fácil organizar as refs sem se perder de si, fazer essa antropofagia e vomitar algo próprio.”
Uma virada que começa pela perda
Apesar da pulsação eletrônica e da energia rítmica, “Virada” nasce de um lugar de ruptura. A transformação narrada na música não aparece primeiro como escolha, mas como consequência do fim de relações consideradas fundamentais.
“Quando alguém que a gente ama decide seguir um caminho que não é com a gente, a gente é lembrado que nasceu sozinho e vai embora sozinho, que as coisas são passageiras, e principalmente as pessoas”, diz Virgo. A canção reúne experiências de diferentes relações e transforma a perda em mudança de perspectiva sobre permanência, afeto e autonomia.
Essa dimensão ganha outra camada no videoclipe. Dirigido por Vine Ferreira, com produção de Carol Santos e trabalho de VJ de Martina, o audiovisual utiliza projeções e imagens reconhecíveis da cultura brasileira para construir uma paisagem em transformação.
Entre as referências aparecem Clarice Lispector, Daiane dos Santos, Zezé Motta, Helena Ignez e Alice Braga. Mulheres de áreas e gerações diferentes, reunidas pela capacidade de abrir caminhos.
“Cada uma inventou um jeito novo de fazer alguma coisa”, afirma Virgo. “São mulheres que contribuíram para uma nova visão de mundo e que, para nossa sorte, protagonizaram algumas das imagens mais icônicas da história do Brasil.”
A presença dessas mulheres no clipe ajuda a entender também o lugar que Virgo busca ocupar. Ela olha para quem veio antes sem copiar percurso, estética ou gesto. O interesse está justamente em reconhecer mulheres que criaram novas possibilidades e, a partir daí, construir a própria.
Experimentar a música começa experimentando a vida
Para mulheres artistas, liberdade criativa nunca fica restrita ao estúdio. Corpo, comportamento, estética, sexualidade, idade e gênero musical continuam atravessados por expectativas sobre aquilo que uma mulher pode ou deve ser.
Quando perguntada sobre os lugares em que ainda precisa disputar o direito de experimentar, Virgo responde primeiro sobre a vida.
“Eu acredito em viver a vida plenamente e corajosamente para que sua arte não tenha escolha a não ser refletir isso”, diz. Para ela, experimentar musicalmente depende também da possibilidade de experimentar formas de existência. “Como algumas pessoas acham que existe uma cartilha para viver e vivem julgando, se jogar nas possibilidades da vida se torna algo que a gente se permite fazer cada vez menos. E como mulher eu sinto isso muito latente.”
Esse pensamento ajuda a entender “Virada”. A música fala de mudança, mas também fala de liberdade. De atravessar perdas, abandonar modelos prontos e continuar escolhendo como existir.
O disco que vem depois da “Virada”
O single também funciona como primeira porta para o álbum que levará o mesmo nome. Segundo Virgo, a faixa apresenta bem o caminho sonoro do trabalho, ainda que o restante do repertório não repita sua fórmula.
“O álbum bebe muito dessa mistura de drum’n’bass e jungle com música brasileira. Tem momentos ainda mais eletrônicos e momentos ainda mais ‘brasileiros’ também, nesse universo do samba-canção”, conta.
A produção é assinada por Baroque Angel, que participou de todas as faixas e divide algumas assinaturas com a artista. Virgo destaca principalmente a construção das texturas e a capacidade do produtor de entender o ambiente que ela queria para cada música.
Quando perguntada sobre qual versão de si gostaria que o público encontrasse quando o álbum chegasse inteiro ao mundo, ela respondeu com humor: “Espero que as pessoas encontrem uma Virgo mais disseminada por aí.”
Criar também exige saber permanecer
A liberdade que Virgo reivindica na arte encontra desafios bem concretos quando a conversa chega ao trabalho. Para grande parte das artistas independentes, criar é apenas uma das funções dentro de uma rotina que também exige administrar orçamento, contratos, inscrições, projetos, comunicação, distribuição e planejamento de carreira.
Na avaliação da cantora, políticas públicas para a música precisam levar essa realidade em conta.
“Eu acho que se fazem necessárias políticas públicas que envolvam ensinar mulheres a parte prática, burocrática que é necessário saber para se construir uma carreira no mercado das artes”, afirma. Para Virgo, educação financeira deveria fazer parte dessa formação, principalmente porque muitas artistas precisam administrar sozinhas suas próprias trajetórias.
“Fica muito difícil se autogerir, que é o caso da maioria das artistas hoje, sem um mínimo entendimento de educação financeira.”
Ela acrescenta ainda um ponto que costuma ficar fora das discussões sobre profissionalização: a saúde mental. “Acho que qualquer política que busca reduzir os danos psicológicos que essas artistas sofrem no corre é muito bem-vinda também.”
A resposta reforça uma questão central para quem acompanha o mercado da música feito por mulheres: visibilidade importa, mas permanência exige estrutura. É preciso criar condições para que artistas aprendam a gerir a própria carreira, tenham acesso a recursos, circulem, experimentem, amadureçam e continuem criando.
Aparentemente, “Virada” fala também disso. Algumas mudanças começam quando algo termina. Outras começam quando uma mulher reconhece o que carrega, escolhe o que permanece e encontra uma maneira própria de seguir.
Virgo Virgo está construindo a dela.

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