Sentir-se mulher está muito além de nascer mulher. A cada dia, me percebo em construção. Em nossa sociedade, estar mulher requer um olhar interno e diário, um debruçar-se sobre a identidade, honrar os saberes ancestrais que habitam o meu ser, acolher os paradoxos e inquietações, e ter força para desbravar os solos da caminhada, os quais são muito áridos. Esse processo de intimidade requer tempo, auto-responsabilidade e audácia.
Sou nordestina, casada, psicóloga, arteterapeuta, poetisa, origamista, servidora pública, espiritualista. Tenho cravado em meu corpo marcas de patologias cujas maiores características são as dores físicas, mas que vão atravessando a minha existência com dores emocionais e a minha própria forma de olhar o mundo.
Mulher e corpo
Uma esfera que perpassa a minha história é que sou uma pessoa com deficiência. Essa identidade foi construída a partir da adolescência, através de patologias crônicas e que até hoje realizo orientações dos profissionais que me acompanham, dedicando tempo e presença, além de auto-cuidados diariamente. Diante dessa realidade que está cravada no corpo físico, como é estar mulher em um país que ainda tem muito a avançar nos movimentos anticapacitistas?
Reconheço que estou num lugar em que tenho direitos garantidos: tenho meu trabalho, independência, capacidade de ir e vir, expôr meus sentimentos e elucubrações. Mas nem todas as mulheres tem essa realidade, rede de apoio, suportes e acessos, pois muitas estão inseridas em diversas vulnerabilidades e situações de violências.
Mesmo tendo conseguido, ao longo da minha vida, lidar com minhas dificuldades, tenho diversas limitações e barreiras preconizadas em nossa legislação. Fico a refletir nos desafios de mulheres cujos contextos são repletos de sutilezas e complexidades, que além das questões de gênero, precisam desbravar obstáculos relacionados às deficiências.
Mulher e o casamento
Nesse estar mulher, uma das experiências possíveis é o casamento (tendo em vista que nem todas as mulheres se casam). Não irei adentrar nos motivos, pois cada uma terá exposições pessoais, sociais, além dos aspectos que são passados de geração para geração. Um fato relevante é que uma parcela muito grande de mulheres precisam se sujeitar e acatar situações para que o casamento possa continuar, são obrigadas a silenciar diante de aspectos graves em seus contextos, necessitam fazer um ‘malabarismo’ para administrar as questões laborais, filhos, atividades domésticas e ainda lidar com as diversas demandas emocionais e mentais do casal. Por que a mulher é sempre a fazedora e realizadora de tudo?
Vozes femininas repletas de dor e sofrimento é comum em grupos, desabafos de amigas ou nas mídias sociais. Mesmo com avanços nos direitos da mulher, somos cerceadas em nossas buscas, vontades e construções.
Pensar e sentir a mulher através dos contextos que estou inserida é algo multifacetado, complexo e que me geram diversos questionamentos. Olhar o lugar de onde se fala é de grande importância para se compreender o que a outra pessoa tem a dizer.
Vivendo… sentindo… pertencendo a redes de mulheres que são verdadeiramente escutadas, a mulher que habita em mim vai se des(re)construindo diariamente, a cada encontro, fala, história escutada. Como fazer para a mulher retomar o poder de si?
Referências
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 31 Mar. 2025.
OLHARES PODCAST. Feminismo anticapacitista. Olhares Podcast. 15, julho, 2021. Disponível em: https://olharespodcast.com.br/olhares-087-feminismo-anticapacitista/ . Acesso em: 31 Mar. 2025.