O que (re) produzimos quando criamos filhos (as)? Filho de peixe, peixinho é?

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O que (re) produzimos quando criamos filhos (as)? Filho de peixe, peixinho é?

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Imagine um barquinho branco flutuando no meio do oceano e, ao invés de um barqueiro, há duas árvores de caules fininhos sustentadas por barbantes amarrados em uma das laterais da canoa. As folhas dançam conforme o vento que rege o destino da embarcação sabe-se lá para onde. Você acaba de imaginar a capa da edição Brasileira de Longe da Árvore – Pais, filhos e a busca da identidade, escrito pelo jornalista estadunidense Andrew Solomon e publicado no Brasil em 2012 pela companhia das letras.

Há cinco anos, li pela primeira vez as 1056 páginas do best-seller do New York Times. Em 2026, dezesseis anos de maternidade e cinquenta e um de vida depois, ao reler Longe da Árvore, por conta de minha participação no Clube de Cultura do podcast Calma Urgente, não somente revisito a tese central do autor sobre a incorreção do termo reprodução, mas também enxergo uma conexão direta entre o que meu pai dizia, pelo menos 20 anos antes da publicação do livro, e a tese central de Solomon de que não existe isso que chamamos (re)produção. Segundo o autor, quando duas pessoas decidem ter um bebê, elas se envolvem em um ato de produção, portanto estão produzindo pessoas e não se reproduzindo. 

Meu pai nunca leu Longe da Árvore, nem tão pouco conhece a tese de Solomon. Eu sequer pensava em ter um filho quando ouvia ele dizendo que criar filhos é uma baita responsabilidade social e que família, sociedade e escola deveriam caminhar juntos nesta importante jornada. Se um deles não agir com essa responsabilidade – dizia meu pai – falhamos enquanto sociedade. Descontando o fato de que os conceitos de família, sociedade e escola mudaram muito desde o nascimento de meu pai, em 1948, até hoje;  quando ele fala da responsabilidade social, conversa com a tese de Solomon de que produzimos – e não reproduzimos – pessoas, novas gerações com outras visões de mundo. Segundo a tese da produção, em oposição a de reprodução, nós pais estamos produzindo outras subjetividades. 

O livro de Solomon surge de uma extensa pesquisa que o jornalista fez com familiares com filhos que nasceram apartados da identidade de seus pais , diferenças que se expressam como deficiência, genialidade ou desajustamento social e que, portanto escancaram a realidade nua e crua de uma parentalidade em que amor e sofrimento caminham lado a lado. No entanto, há algo em comum a todos que criamos filhos, seja  filhos típicos ou atípicos, apartados ou não de nossas identidades. Todos buscamos nossa identidade, pais e  filhos.

E, para Solomon há duas: as horizontais e as verticais. As identidades  horizontais são as provenientes de genes recessivos, mutações aleatórias, influências pré-natais, valores, preferências. Ser gay é uma identidade horizontal, assim como genialidade, superdotação e deficiência física. Nesse sentido, o excepcional é obiquo, ser inteiramente típico é o estado raro e solitário.  Já as identidades verticais são etnia, linguagem e a religião que, segundo o autor, é moderadamente vertical. A questão é que, embora muitos de nós sintamos orgulho por sermos diferentes de nossos pais, ficamos infinitamente tristes ao ver como nossos filhos são diferentes de nós. E, conforme fui relendo os 12 capítulos (filho, surdos, anões, síndrome de down, autismo, esquizofrenia, deficiência, prodigios, estupro, crime, transgêneros e pai) me dei conta de que o livro revela a culpa, a vergonha, o luto e a frustração de quem cria que, muitas vezes, confundem-se com alegria, solidariedade e esperança. Querendo compreender as raízes da própria excepcionalidade como homossexual e dislexo, Solomon inicia as pesquisas anos antes da publicação de Longe da Árvore. “Comecei a escrever este livro para perdoar meus pais e terminei-o tornado-me pai. Fui criado com medo de doenças e deficiências, inclinado a desviar os olhos de qualquer pessoa muito diferente – embora sempre soubesse que eu mesmo era diferente.” (pg.784)

Relendo Longe da Árvore aos 51 anos, acabei revisitando debates que tinha com meu pai – ele com 46 e eu com 20 – sobre educação, sociedade e responsabilidades. As conversas que tinha e ainda tenho com ele sempre foram, e continuam sendo,  profundas, não gostamos do raso, o simples não resolve questões complexas e nisso somos parecidos, embora sejamos muito diferentes em tantas outras coisas. Curiosos que somos, amamos refletir. O meu filho de 16 anos, se me ouvisse dizendo que amo refletir, prontamente me perguntaria se sou espelho. Espelho de quem? Só se for de mim mesma em busca de minhas próprias identidades de filha, de mãe e mulher. 

A primeira vez que vi a canoa branca que você imaginou no início deste texto, lembrei-me da pergunta que meus avós me faziam toda vez que eu os questionava algo difícil, sem resposta simples. Com quantos paus se faz uma canoa Paula? Também recordei os ditos populares perpetuados por nossos antepassados sempre que alguém elogiava uma característica que um filho havia puxado (eles diziam) de um dos pais. Claro! pé de laranja não dá abacaxi! Filho de peixe, peixinho é!

Ao contrário, há muitos pés de laranja dando abacaxis no terreno fértil da parentalidade. Precisamos de centenas de milhares de paus para construir essa canoa chamada pessoa e nem sempre filho de peixe, peixinho é. Logo, a responsabilidade sobre a qual falava meu pai, pelo menos 20 anos antes de Solomon publicar a sua tese, recai não exclusivamente sobre os pais , ou majoritariamente sobre as mães como é mais comum do que deveria ser. A responsabilidade da produção , e não da reprodução, de pessoas que compõem uma sociedade, é minha, sua, do seu vizinho solteiro e sem filhos, do seu colega de trabalho, mas é , sobretudo de um estado que tem a responsabilidade de pensar e atuar em políticas públicas de saúde e educação que andem de mãos dadas com mães que carregam sozinhas o peso de fazer florescer o fruto que caiu longe, muito longe da árvore. 

 

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