O mundo parece ter se transformado em um grande provador de vestidos. As noivas entram e saem dos ateliês como personagens de um conto em que o corpo muda de forma a cada capítulo. As tais canetas emagrecedoras, mágicas modernas, fazem com que cada prova seja um novo desafio: costureiras correm atrás de silhuetas que se dissolvem, tecidos que se deformam, contratos que precisam ser reescritos. O vestido, antes símbolo de permanência, torna-se frágil diante da instabilidade dos corpos. Na passarela da Rio Fashion Week, o espetáculo retorna ao velho fetiche da magreza extrema. Modelos desfilam como espectros, lembrando que a moda, tantas vezes anunciada como libertadora, ainda insiste em aprisionar.
Enquanto isso, confecções para homens acima do peso já cogitam um futuro em que sua clientela desapareça — não por escolha, mas por imposição de um padrão que se infiltra como vírus.
Até o Supremo Tribunal Federal, guardião das leis, vê-se obrigado a refazer a biometria de seus funcionários. Rostos emagrecidos, feições alteradas, identidades que se tornam irreconhecíveis. O corpo, que deveria ser morada, passa a ser máscara em constante mutação. É nesse ponto que a lembrança da série See se impõe.
Em seu universo brutal e primitivo, a humanidade perdeu a visão após um vírus devastador. Séculos depois, a cegueira tornou-se hereditária, e os sobreviventes precisaram reinventar sua forma de existir. Casas, armas, rituais, tudo foi reconstruído sem o olhar. Até que nascem gêmeos capazes de enxergar — e o simples fato de ver ameaça toda a ordem estabelecida. A relação entre See e a busca pela magreza está na ideia de um futuro moldado por uma ausência ou por uma obsessão. Em See, a ausência da visão redefine a sociedade. No nosso presente, a obsessão pela magreza ameaça redefinir o corpo humano. Se em See o nascimento de quem enxerga é visto como perigo, aqui poderíamos imaginar o contrário: o nascimento de alguém que não seja magro, que carregue curvas ou excesso de peso, como uma anomalia. Será que caminhamos para um futuro em que todos nasçam magros, como se a diversidade tivesse sido apagada do mapa da carne? Que sociedade seria essa, onde o espelho não devolve diferença, apenas repetição?
Onde a pergunta não é mais “quem sou eu?”, mas “quem é mais magro do que eu?”. O espelho, outrora cúmplice da vaidade, torna-se juiz implacável. Ele não reflete pessoas, mas medidas. Não devolve rostos, mas silhuetas. E nesse reflexo, talvez o maior desaparecimento não seja o da gordura, mas o da própria humanidade.
Mas há uma saída. Assim como em See, onde a cegueira obrigou a humanidade a reinventar sua cultura, nós também podemos reinventar nossa relação com o corpo. A verdadeira transformação não está em canetas milagrosas, mas em escolhas cotidianas: na prática da atividade física, que fortalece não apenas músculos, mas também a mente; na mudança de hábitos alimentares, que devolve ao corpo equilíbrio e energia; na aceitação de que cada forma é única e carrega sua própria beleza.
O futuro não precisa ser uma distopia de silhuetas idênticas. Pode ser um horizonte de diversidade, em que corpos diferentes convivem e se celebram. Onde o espelho não é juiz, mas companheiro. Onde a pergunta deixa de ser “quem é mais magro?” e passa a ser “quem é mais saudável, mais feliz, mais inteiro?”.
No fim, talvez o verdadeiro conto da humanidade não seja sobre desaparecer, mas sobre permanecer. Permanecer em movimento, em equilíbrio, em diversidade. Permanecer humano.