Velas entre elas

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Toda noite ao dormir realizo um ritual: acendo uma vela. Foi uma orientação de uma profissional que me acompanha. Jamais imaginei que um dia se tornaria uma prática de autocuidado para mim e os desdobramentos que tem me gerado.

O objetivo de acender uma vela é expressar ao corpo que é momento de recolher,  desacelerar das atividades do dia, além de acalentar. A chama da vela estimula a atenção, fazendo essa percepção ir para o nosso interior, de como está o nosso estado de presença ali diante dela. 

Na primeira vez que realizei, esparramei-me em lágrimas. Tive várias lembranças da minha história: minha família, minha mãe, minhas irmãs. Quando era criança, ao faltar energia, uma das primeiras coisas que a minha mãe falava: “Cadê a vela?” Eu e minhas irmãs íamos atrás da vela e do fósforo, tropeçando pelos objetos e coisas no meio da casa, em meio a risos. 

Saíamos na rua para ver se tinha faltado em várias casas. Outras famílias faziam o mesmo. Para os adultos, aquilo era um problema. Para as crianças, uma diversão! Víamos somente a pequena luminosidade dentro das casas, os faróis dos carros e as estrelas no céu. Essa era uma parte que me encantava muito, até hoje. 

Nesses momentos, o mais comum era ficarmos na cozinha, conversando, brincando de fazer movimentos com as mãos e gerando sombra, pedindo para a outra irmã adivinhar. Ficávamos a esperar a energia chegar. Escutávamos o silêncio. Nessa época, não tinha celular, e por horas aguardávamos em torno da mesa. Distribuíamos velas pela casa: na cozinha, no banheiro e na sala, isso quando tinha o suficiente. Quando só tinha uma ou duas, tínhamos que partir ou economizar vela, e no outro dia já providenciar mais.

 Lembro quando íamos ao banheiro escovar os dentes. Parece que o gosto da pasta dental era mais apurado à luz de vela. Enquanto finalizava a higiene, olhava para aquela chama tremulando… Minha mãe falava: “Já terminou?”, e rapidamente eu finalizava para outra irmã ir ao banheiro. E se ela [a energia elétrica] não chegava até irmos dormir, minha mãe falava: “Bora dormir que hoje ela não chega mais não.” 

Ao deitar com minha vela acesa, percebo a sombra do meu corpo refletida no teto. Fico a lembrar dessas memórias afetivas entre as mulheres da minha família nuclear, quase 4 décadas após. Hoje, somos mulheres adultas, com famílias, residindo em estados diferentes, cada uma em sua rotina e afazeres. Reflito: quais são as nossas brincadeiras hoje? Como algo tão simples [vela] pode proporcionar momentos de lembranças, emoções e fazer parte da história de uma pessoa?

Os rios superiores querem transbordar… Fico pensando que tudo nessa jornada é semelhante à uma vela: ela é acendida como o nosso nascimento; a cera representa o nosso corpo material; à medida que ela vai queimando, ela nos traz a temporalidade e o percurso da vida, visto que temos um tempo para permanecermos aqui (pelo menos enquanto corpos físicos); a luz nos proporciona guiança em nossos caminhos e de outras pessoas; a forma de se acender uma vela, revelando a intenção com qual estamos aqui; e a chama, que pode ter vários conceitos – alma, espírito, energia, centelha divina. 

Na próxima vez que acender uma vela, tenta observar qual sua intenção e se há algo diferente em você!

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