Cantora, compositora, produtora musical e DJ catarinense aposta nas pistas de dança, na colaboração entre artistas e na autonomia criativa para ampliar sua circulação. Em entrevista à Hora do Sabbat, fala sobre carreira, dinheiro, liberdade e a importância de manter viva a cultura clubber brasileira.

Zaina Woz quer fazer pelo menos um show por semana. O desejo pode parecer simples, mas revela uma das principais dificuldades enfrentadas por quem produz música autoral independente no Brasil: encontrar espaços para apresentar seu trabalho, construir público e transformar criação artística em atividade remunerada. Em vez de esperar que as oportunidades apareçam, a cantora, compositora, produtora musical e DJ catarinense, radicada em São Paulo, decidiu adaptar seu espetáculo à realidade das pistas de dança. O resultado dessa movimentação é { VOL. 01 – CLUB EDITION }, projeto que revisita seu álbum de estreia por meio de remixes e colaborações com artistas da cena eletrônica brasileira.
Em conversa com a Hora do Sabbat, Zaina reconhece que construir uma carreira sustentável continua sendo um desafio. “Eu ainda estou entendendo como construir uma carreira sustentável”, afirma. Sua experiência revela uma das contradições do mercado musical contemporâneo: o reconhecimento artístico, a presença nas plataformas digitais e a sustentabilidade financeira percorrem caminhos que nem sempre se encontram. Mesmo tendo participado do Spotify Fresh Finds, iniciativa voltada à descoberta de artistas independentes, ela continua buscando alternativas para ampliar sua circulação e remuneração. Para Zaina, o próximo passo está na estrada. “A música precisa de estrada pra acontecer.”
Da menina com um violão à mulher que produz o próprio som
Nascida em Santa Catarina, Natalia Hoegen encontrou na música um caminho para construir sua identidade. Aos 15 anos, começou a estudar violão, instrumento que lhe proporcionou os primeiros conhecimentos de teoria musical. Ela lembra, com humor, da adolescente que decidiu aprender um instrumento mesmo que isso significasse manter as unhas curtas. Anos depois, o encontro com os clubes, os sintetizadores e a música eletrônica despertou outros interesses. O violão abriu caminho para as máquinas, os experimentos sonoros e a curiosidade sobre tudo aquilo que acontece até uma música chegar ao público.
Montou um home studio, buscou conhecimentos técnicos em vídeos na internet e passou a estudar produção musical, utilizando o software Ableton Live. O interesse em compreender cada etapa da criação tornou-se parte fundamental de sua construção profissional. “Minha arte é a produção musical”, afirma. Sua caminhada revela como o conhecimento técnico amplia a liberdade de criação e fortalece a capacidade de tomar decisões sobre a própria obra. Compor, produzir, dirigir e experimentar são atividades que se encontram na identidade artística que construiu.
Zaina também compartilha uma experiência positiva sobre seu reconhecimento profissional. Ela conta que seu trabalho como produtora é respeitado por DJs, profissionais da imprensa e responsáveis pela curadoria musical. Esse reconhecimento acompanha uma trajetória de aprendizado, investimento e dedicação. Para a artista, conhecer o próprio trabalho e confiar nos conhecimentos adquiridos fortalece sua postura diante do mercado. Sua experiência acrescenta uma perspectiva importante à discussão sobre mulheres na produção musical: reconhecer os desafios desse campo também significa celebrar quem conquista espaço, desenvolve competências e estabelece relações profissionais de respeito.
A relação entre liberdade e criação aparece também na escolha do nome artístico. Zaina Woz nasceu da vontade de construir uma identidade que expressasse seus ideais e a vida que desejava experimentar. Em Boneca de Porcelana, música que aborda a objetificação feminina nas relações afetivas, essa reflexão encontra expressão artística. Ao pensar sobre as expectativas sociais dirigidas às mulheres, Zaina conta que escolheu conhecer o mundo e a si mesma, experimentar desejos e descobrir possibilidades antes de assumir os caminhos tradicionalmente esperados. Corpo, música e liberdade passaram a integrar esse processo de descoberta.
Quando convidada pela Hora do Sabbat a imaginar um encontro entre a menina que sonhava com os palcos e a mulher que se tornou, Zaina se emocionou. A pergunta, segundo ela, chegou a dar um nó na garganta. A menina que imaginava uma carreira musical como uma realidade distante permaneceu presente durante sua caminhada. Hoje, a artista aconselharia aquela adolescente a estudar os processos envolvidos na criação, praticar, fortalecer o espírito e construir relações de confiança. “Não se faz nada sozinho”, ressalta, reconhecendo a importância das alianças para transformar ideias em realizações.
A gestão de carreira também acontece nos palcos
Lançado em 2025, Zaina Woz { VOL. 01 } apresentou um repertório que transita pelo pop, electropop e dance music, com produção desenvolvida ao lado de Arthur Kunz. Em 2026, a artista decidiu revisitar esse trabalho a partir de uma necessidade concreta: aproximar suas composições dos espaços em que a música eletrônica circula. O espetáculo, até então apresentado em formato de banda, ganhou uma proposta híbrida, combinando discotecagem, canto, sintetizadores e performance.
A mudança representa uma decisão artística que vai além da reinvenção sonora. Zaina identificou uma dificuldade de circulação, estudou o funcionamento dos clubes, adquiriu novas competências técnicas e reformulou o formato de apresentação de seu trabalho. Essa sequência de escolhas revela uma dimensão fundamental da gestão de carreira: compreender o mercado em que se deseja atuar e desenvolver estratégias para alcançar novos públicos e contratantes, preservando a identidade artística.
Ao adaptar o espetáculo à estrutura técnica utilizada nos clubes, com equipamentos como CDJs e sistemas de som já instalados, Zaina amplia suas possibilidades de contratação e circulação. Ela mesma passou a estudar discotecagem para comandar suas músicas durante as apresentações. A proposta permite que dialogue com a dinâmica desses espaços e tenha maior domínio sobre a performance ao vivo. É também nesse processo que o conhecimento acumulado ao longo dos anos encontra novas aplicações profissionais.
E Zaina encara tudo isso com bom humor. Ao explicar que a CDJ se torna mais um elemento sob seu comando durante o espetáculo, brinca: “Acha que sou controladora? hahahah talvez…”. A observação revela uma artista interessada em compreender seus processos de trabalho, da criação à apresentação. Esse domínio técnico fortalece sua capacidade de planejar, negociar e experimentar novos formatos, ampliando as condições para conduzir a própria carreira.
“Eu preciso de mais grana entrando, preciso fazer mais shows e trazer mais pessoas pra perto de mim”, declara, sem rodeios. A fala traz para o centro da conversa uma dimensão fundamental da atividade artística: a necessidade de remuneração. Criar, ensaiar, produzir, distribuir, divulgar e apresentar música exige tempo, conhecimento e investimento. Zaina deseja ocupar esse mercado com uma proposta que define como dance music em português, valorizando uma produção brasileira capaz de dialogar com as pistas e construir sua própria identidade.
Autonomia e colaboração: novos caminhos para a música independente
A transformação do álbum em { VOL. 01 – CLUB EDITION } abriu também uma nova frente de colaboração. A cantora convidou DJs e produtores a reinterpretarem suas composições, mobilizando contatos por meio das redes sociais e de grupos de WhatsApp. Entre as versões está “Nós dois (LYYA Remix)”, lançada em outubro de 2026, que aproxima a canção romântica das referências do funk brasileiro dos anos 1990. A releitura recupera sonoridades associadas aos bailes e ao funk melody, conectando diferentes momentos da música eletrônica produzida no país.
A experiência de Zaina revela uma relação interessante entre autonomia artística e construção coletiva. Ao compartilhar suas composições, ela amplia as possibilidades de circulação da própria obra e reconhece os conhecimentos de quem participa desse processo. A autoria permanece como ponto de partida para novas conexões, interpretações e oportunidades profissionais. Cada participante acrescenta referências de diferentes cenas musicais, fazendo com que o repertório encontre novos ambientes, públicos e formas de expressão.
Esse movimento também fortalece relações profissionais. Artistas que compartilham experiências, repertórios e espaços de circulação ampliam suas possibilidades de atuação e constroem vínculos que podem ultrapassar um lançamento. O projeto de Zaina mostra como a colaboração pode fazer parte de uma estratégia de carreira, reunindo criação, confiança, articulação e reconhecimento das habilidades envolvidas na produção musical.
A colaboração com Malka Julieta também ganhou um lançamento próprio: Bomba (Malka Remix), disponibilizado em 30 de outubro. A faixa reforça a presença de produtoras na reconstrução sonora do álbum e antecipa a apresentação completa do projeto em novembro.
O clube não vai morrer: cultura, economia e pertencimento
A defesa da cultura clubber ocupa um lugar importante nessa nova fase. Para Zaina, os clubes representam espaços de criação, convivência, experimentação e reconhecimento de identidades. São territórios em que a música atravessa outras linguagens artísticas e permite o encontro de comunidades que encontram na noite oportunidades de expressão, pertencimento e liberdade.
Ao refletir sobre a cena paulistana, ela destaca o trabalho de Laura Diaz, uma das criadoras do coletivo Mamba Negra e integrante da banda Teto Preto, como exemplo de uma atuação capaz de reunir música, diversidade e pensamento coletivo. Zaina reconhece nesses movimentos a capacidade de construir ambientes acolhedores para diferentes identidades, ao mesmo tempo que movimentam moda, arte, comércio e uma cadeia de profissionais ligada à economia noturna.
A reflexão de Zaina também coloca em discussão a preservação dos clubes e as condições de trabalho na economia da noite. Diante da especulação imobiliária, da falta de investimentos e do preconceito contra a população LGBTQIAPN+, manter esses espaços em atividade representa um compromisso com a diversidade cultural e com as pessoas que movimentam essa cadeia produtiva. A noite reúne artistas, produtoras, DJs, profissionais de som, equipes de comunicação e diferentes atividades comerciais que contribuem para a vida econômica e cultural das cidades.
Zaina relaciona essa defesa à capacidade de organização coletiva. Ao comentar a mobilização em torno das eleições presidenciais brasileiras de 2026, cita a vitória de Lula como exemplo da força produzida quando pessoas se unem em torno de objetivos comuns. A referência política integra sua reflexão sobre a importância dos vínculos, das alianças e da participação coletiva para sustentar espaços culturais.
“Enquanto estivermos juntos, o clube não vai morrer”, afirma.
Mulheres que movimentam outras mulheres
Na pergunta bônus da Hora do Sabbat, dedicada a ampliar a escuta de outras mulheres, Zaina fez questão de reconhecer profissionais que participam da construção de sua trajetória. Entre elas está Malka Julieta, que destaca como produtora musical, artista e comunicadora. A produtora LYYA também recebeu reconhecimento pelo trabalho desenvolvido no novo disco. São mulheres que movimentam a cena musical a partir de diferentes habilidades, conhecimentos e possibilidades de criação.
Malka tem uma trajetória que reúne produção musical, engenharia de áudio, composição e atuação como DJ. Seu trabalho atravessa diferentes gêneros e artistas, evidenciando a importância das profissionais que constroem a música também nos estúdios e bastidores. Ao indicar mulheres com quem trabalhou, Zaina compartilha referências que podem inspirar outras artistas e aproximar o público de quem participa diretamente da criação musical.
A artista ainda convida o público a conhecer DJ Miss Bellini e o coletivo MAGMA, que movimentam a cena eletrônica. Esse encontro ganhará um novo capítulo em 12 de novembro de 2026, quando Zaina apresenta o show e a festa de lançamento de { VOL. 01 – CLUB EDITION }, no Club Jerome, em São Paulo.
Ao final da entrevista, Zaina deixa um convite que também merece ser compreendido como parte da construção de um mercado musical mais sustentável: “Se interessem pela música brasileira.” Para ela, o público participa diretamente da continuidade da carreira independente. Escutar, compartilhar, acompanhar lançamentos, frequentar apresentações e apoiar financeiramente são atitudes que transformam admiração em participação concreta na vida das artistas.
Em sua caminhada, Zaina Woz mostra como o conhecimento técnico, as decisões de gestão e as redes de colaboração constroem novas oportunidades profissionais. A menina que sonhava com os palcos cresceu, aprendeu a produzir suas músicas e agora desenvolve estratégias para levá-las a novos públicos. A experiência atravessa diferentes dimensões do fazer artístico e reafirma a importância de reconhecer a música como criação, profissão e atividade econômica.
A música precisa de estrada. E essa estrada se constrói com quem cria, com quem trabalha, com quem escuta e com quem decide continuar dançando.
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