Cara leitora e caro leitor, talvez você já tenha notado: as figuras femininas vêm marcando presença constante nas minhas últimas publicações. E isso não é por acaso. Exaltar essas mulheres e dar voz às suas histórias é, para mim, um compromisso.
É a partir desse compromisso com as vozes femininas que nasce tudo o que compartilho aqui. São histórias que reverberam em mim e que, quem sabe, despertem algo em você também.
Foi assim com a força e o legado das paneleiras, mulheres com mais de 50 anos que abriram o coração para falar de ofício, tradição e resistência. A mesma força aparece nas lideranças femininas do congo, onde mulheres vêm ocupando espaços antes restritos aos homens, ressignificando a cultura e a história por meio da música e da dança. E ressoa, ainda, na expressão criativa de uma jovem artista que transforma sua vivência em arte.
O que une todas essas trajetórias? Coragem. A coragem de ser quem se é. De enfrentar os desafios que surgem depois de um salto de fé.E não à toa, coragem é um substantivo feminino.
É preciso coragem para subverter um sistema que tenta nos silenciar o tempo todo. Que insiste em nos dizer que não podemos. Que não somos suficientes. Que sequer temos o direito de existir plenamente. Na infância, na adolescência, na vida adulta ou na velhice.
Essa não é apenas uma sensação. É uma realidade brutal.
O Brasil registra, ano após ano, números alarmantes de violência contra mulheres. De acordo com o Mapa da Violência de 2025, o país alcançou o maior índice de feminicídios desde que o crime passou a ser monitorado oficialmente. Quatro mulheres são assassinadas por dia, vítimas da violência de gênero.
É por isso que contar essas histórias importa. Porque resistir também é semear memória. E, desta vez, vamos conhecer a trajetória de Thais Apolinário, uma artista capixaba, educadora social, grafiteira, DJ, figurinista e cabeleireira. A multiplicidade, aqui, não é exceção: é potência.
O universo artístico esteve presente desde cedo na vida de Thais. Filha de artista, encontrou em casa o incentivo para experimentar o mundo das imagens. “Comecei desenhando e pintando de forma livre. Depois, na universidade, tive acesso a outras técnicas que ampliaram meu repertório artístico”, contou.
Ela se formou em Artes pela UFES, especializou-se em Arte Contemporânea na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e também em Educação Social, novamente pela UFES, com a professora Jaciara Paiva.
Hoje, sua atuação vai além da arte. É educadora social no Serviço de Convivência da Prefeitura de Vitória, grafiteira no coletivo Rede de Mulheres Urbanas (@redemulheresurbanas), além de trabalhar como DJ, cabeleireira, cenografista e figurinista.

Inspiração: arte que nasce da vida
Artistas como Jean-Michel Basquiat, Lygia Pape e Cecily Brown também compõem seu repertório estético, junto das experiências acumuladas desde a infância. “A vida sempre foi minha maior fonte de inspiração. As sutilezas do cotidiano, as relações interpessoais, a natureza, a espiritualidade.Tudo isso foi somando nessa pulsão artística que me move”, compartilhou.
Seu processo criativo segue três etapas: coletar (imagens, referências, experiências), experienciar (testar e criar) e, por fim, formatar (entender como o trabalho vai ocupar e dialogar com o espaço).
Parte de sua produção acontece de forma coletiva, especialmente com o coletivo Rede de Mulheres Urbanas, que atua em diversas comunidades. “Usamos a arte urbana como ferramenta de transformação social”, explicou.
Mas há também uma dimensão íntima da criação. “Quando exponho em galerias ou outros espaços, é algo mais pessoal. Gosto de observar as reações das pessoas sem me apresentar, apenas sentir como elas interagem com o trabalho”, contou.
Há mais de dez anos, Thais atua como educadora social e, hoje em dia, dedica-se ao Território do Bem, em Vitória. O impacto do seu trabalho vai muito além da sala de atividades, e isso porque transitar por diferentes espaços, da rua aos museus, também inspira quem acompanha sua trajetória.
“Estar nesse território, empoderando pessoas negras, mostrando que é possível sonhar e realizar, fortalece a imagem que queremos construir. A nossa presença nesses lugares mostrou que podemos ocupar tudo”, completou.

Conexões reais e virtuais
Para ela, as redes sociais têm duas perspectivas. “Por um lado, ampliaram nossos repertórios e nos conectaram com artistas do Brasil e do mundo. Por outro, geram um distanciamento real”, avaliou.
Para ela, essa troca direta é fundamental.“É preciso buscar mais encontros presenciais, olho no olho. Precisamos nos fortalecer como uma rede viva. Isso é saúde, é felicidade, é criação pulsante”, refletiu.
Quebrando padrões desde cedo
Com as raízes fincadas em Conceição da Barra e a adolescência vivida em São Mateus, ela recorda: “Na minha infância, as meninas acreditavam que o objetivo de uma mulher era apenas ser mãe e ter uma família. Desde muito nova, questionei isso”.
Seguir outro caminho exigiu coragem. E ainda exige. “Todas essas escolhas pediram enfrentamento. Mas a gente sempre precisou acreditar que podia realizar”, concluiu.
Antes de terminar, ela deixa uma mensagem para quem também sonha com caminhos alternativos: “Não desista. Busque relações que te fortaleçam. Isso é essencial. Acredite no seu corre e persista. Porque é possível, sim”, finalizou.

Jornalista com formação em Rádio e TV, entrelaço rascunhos aqui, dou vida a textos ali, escuto histórias acolá. Emaranhada na criatividade, navego pela comunicação em suas variadas formas.
Respostas de 9
Parabéns tia
Ótima escrita!!!!
Mais uma vez, Shirlane fazendo seu nome!
Texto e tema excepcionais, com uma conclusão impecável. Parabéns! 👏🏽👏🏽
Que maravilha se tornar sua leitora, Shirlane!
Espero que você continue cruzando o caminho de mulheres incríveis do nosso ES e dando voz às histórias delas de uma forma tão sensível, bonita e inspiradora. Não vou deixar de exaltar o seu trabalho que é uma verdadeira fonte de inspiração para outras mulheres!
Que trajetória emocionante e que forma linda de contar! Parabéns Shi
Ótima escrita ! Todos os temas são muito interessantes
Muito bom o conteúdo
Que delícia de leitura! Bom demais!
A sua escrita é um abraço em forma de palavras. Você escreve com tanto amor que a gente se sente parte de cada linha. É envolvente, delicada e, ao mesmo tempo, potente. E o mais lindo de tudo: você exalta a força, a beleza e a essência das mulheres de um jeito que inspira, acolhe e empodera. Obrigada por transformar sentimentos em palavras tão verdadeiras.