Paneleiras de Goiabeiras: memória, afeto e resistência

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Paneleiras de Goiabeiras: memória, afeto e resistência

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Tânia, 62 anos, carrega nas mãos as marcas do tempo e da lida com o barro. “A minha arte é parte de mim”, diz, sorridente, enquanto coloca para secar duas pequenas panelas recém-moldadas no galpão das paneleiras, em Goiabeiras, bairro de Vitória, capital do Espírito Santo.

Ela fala sobre o ofício com a serenidade de quem testemunhou as mudanças geracionais, mas com a firmeza de quem compreende a importância do que faz. Para Tânia, a confecção das panelas vai muito além da tradição: “Esse trabalho me sustenta e, com ele, mantenho viva a memória das mulheres que vieram antes de mim”.

A arte de moldar o barro atravessou gerações em sua família, tornando-se um aprendizado natural. Quando criança, Tânia observava atentamente as tias, já experientes no ofício. Na etapa de acabamento, as crianças eram convidadas a colaborar, “polindo” a panela recém-moldada.

Pergunto à Tânia o que é necessário para produzir panelas tão bonitas. Ela sorri e brinca: “A primeira coisa é amor, depois dedicação e um pouco de técnica”. E completa: “Se você observou com atenção e teve vontade de aprender, isso já é um bom começo”.

Quando cheguei para conversar com Tânia, ela acabara de ensinar pacientemente a dois jovens visitantes o manuseio correto do barro. Não hesitou em partilhar seu conhecimento. Explicava que era preciso sujar as mãos, sentir o barro. Uma peça nasce sem forma e, com insistência, vai se moldando.

A experiência de Tânia é marcada pelo trabalho árduo para garantir o sustento da família. Embora o ofício sempre tenha sido sua paixão, precisou complementar a renda com outros trabalhos. Ao lembrar das dificuldades enfrentadas no passado, a desvalorização do trabalho artesanal ainda é motivo de preocupação para ela. Explica que a concorrência com panelas industrializadas, de produção mais rápida e barata, tem impactado as vendas dos produtos artesanais.

Histórias como a de Tânia ecoam pelo galpão das paneleiras. Hoje, a produção das panelas representa a fonte de sustento para mais de 80 famílias, mantendo viva uma tradição ancestral repleta de história, afeto e coletividade.

Tânia – Paneleira em Goiabeiras

Do outro lado do galpão, Luciete, 43 anos, observa atentamente o movimento dos visitantes. Parte da quarta geração de paneleiras da família, aprendeu o ofício com a avó falecida e seguiu os passos junto com a mãe. “Tenho muito carinho e cuidado com as peças que faço. Isso aqui é a minha história e a da minha família”, diz, com a mesma paixão que Tânia demonstra.

Viu na arte uma forma de criar os filhos. “Meus três filhos foram cuidados, alimentados e amparados pela venda das minhas panelas”, conta, orgulhosa, olhando para algumas peças que secam na prateleira no canto do galpão.

Para ela, esse ofício é um caminho de pertencimento e memória. “Minha avó, até os últimos dias de vida, me pedia para fazer panelas para ela. Como pode, né? Ela me ensinou tudo desde o início e, no fim, lá estava eu, moldando algumas peças para ela”, relembra, com carinho.

Luciete – Paneleira em Goiabeiras

Embora Tânia e Luciete tenham se tornado paneleiras em momentos diferentes, compartilham o mesmo propósito: manter viva a tradição da panela de barro, garantindo que seu valor cultural seja preservado e transmitido às futuras gerações. 

Apesar de ser uma herança ancestral — a técnica cerâmica utilizada na confecção das panelas remonta aos povos Tupi-Guarani e Una —, o reconhecimento oficial só veio em dezembro de 2002, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registrou o ofício das paneleiras do como Patrimônio Imaterial no Livro de Registro dos Saberes, tornando-se o primeiro do Estado.

Tradições como a das paneleiras enfrentam inúmeros desafios, especialmente diante da modernização e da consequente desvalorização do trabalho artesanal. Muitas artesãs, para complementar a renda, precisam recorrer a outras atividades, o que acaba enfraquecendo a continuidade da prática. Nesse contexto, o incentivo à capacitação e à comercialização das panelas não apenas gera renda, mas também fortalece a identidade cultural e cria novas oportunidades para que mais mulheres possam ingressar e permanecer no ofício.

O barro é a alma da arte de Tânia e Luciete. Mas engana-se quem pensa que transformar a matéria-prima em panela é simples. Pelo contrário, o processo exige tempo e técnica. O primeiro passo é a escolha do barro, que deve ser de boa qualidade e estar bem misturado à água. No galpão das paneleiras, usa-se a argila extraída do Vale do Mulembá, uma unidade de conservação de Mata Atlântica também situada em Vitória.

A cava do barro é feita por profissionais conhecidos como “barreiros”, que utilizam apenas enxadas na extração. Em seguida, o barro é molhado e pisado até ganhar liga. Transportado para o galpão, é moldado e polido à mão pelas paneleiras.

Após a moldagem, vem a secagem, um processo lento e meticuloso. Luciete ensina que a secagem pode levar dias, dependendo do clima. Esse é um momento crucial para garantir a resistência da peça.

Depois, a panela é queimada a céu aberto por horas. O fogo deve ser controlado com cuidado para atingir a temperatura ideal. Ainda quente, é tingida com tanino, extraído da casca do mangue vermelho,após maceração feita pelos casqueiros, conferindo-lhe cor e resistência.

Com esses passos, nasce a tradicional panela de barro capixaba, que carrega a memória de gerações de muitas Tânias e Lucietes, sobretudo, de sua força e resistência.

Quando a panela finalmente está pronta, é exposta para venda no galpão das paneleiras. Mas ainda falta um último ritual: o batismo da panela.Esse momento é visto como uma cerimônia, na qual a panela recebe, simbolicamente, um propósito. “É nesse momento que a panela ganha vida”, explica Tânia, como quem conta um segredo ancestral.

Ao ser adquirida, deve-se untar seu interior com óleo e queimá-lo no fogo pela primeira vez. Feito isso, a panela está pronta para acolher o alimento e se tornar parte da história de quem a levar para casa. Está batizada!

E assim, como todas as panelas que Tânia e Luciete fazem, ora deixam de ser apenas utensílios de cozinha e se tornam parte da história. Está batizada!

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Respostas de 23

  1. Como é bom ler um texto tão bem escrito e cheio de detalhes que tornam a leitura fluida e faz com que a gente se sinta conversando com a entrevistada. Que essa cultura seja perpetuada ao longo dos próximos anos e que sempre haja profissionais como a Shirlane dando voz e vida à história de mulheres como Tânia e Luciete.

    1. Texto incrível! Leitura simples, fluída interessante, e detalhada. Amei saber mais sobre essa cultura linda !

  2. Que texto maravilhoso, Shirlane! Fiquei emocionada, pois a figura da panela de barro me lembra minha avó, que praticamente todos os sábados fazia moqueca de cação. Como bem dito: é memória e afeto. 💜

  3. Eu amei a matéria Shirlane, parabéns!
    Que Deus continue te abençoando e você cresça dentro dessa profissão que é tão linda.

  4. Eu amei a matéria Shirlane, parabéns!
    Que Deus continue te abençoando e você cresça dentro dessa profissão que é tão linda.

  5. Que nostalgia que eu tive ; Acabei me lembrando do tempo que a minha mãe uma vez fez uma moqueca de peixe em uma das panelas de barro dela.
    Que a cultura das paneleiras de barro só se estende !!

    E fico mais orgulhoso em poder acompanhar o trabalho impecável de shirlane .
    Sucesso Leda !!

  6. Muito lindo a história da Tânia, uma pena a desvalorização de algo tão incrível e feito com amor, amei saber e descobrir coisas que eu n imaginava por trás de uma panela tão incrível, texto incrível ❤️

  7. Texto excelente e bem detalhista. Nos coloca dentro de nossas próprias histórias quando remetemos às lembranças das comidas preparadas na Panela de Barro e de seu companheiro: o fogão a lenha; bem quentinho e com comidas gostosas.
    Eterno patrimônio capixaba, viva!👏

  8. Que texto lindo, tocante e envolvente! Quanta sensibilidade para escrever sobre as histórias lindas dessas mulheres!

  9. Ótima análise de toda trajetória de uma parte da nossa cultura. Parabéns e obrigada por trazer mais informações.

  10. Parabéns, queen! 👏🏽
    Texto maravilhoso, com uma leitura extremamente fluida, cativante e importante.
    Já temos um gostinho de como serão os próximos. 🚀

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