Recentemente, a ativista ambiental Greta Thunberg foi interrompida durante um discurso em um evento sobre preservação ambiental ao citar o genocídio acontecendo na Palestina, o homem que a interrompeu disse que estava ali para ouvir sobre pautas climáticas, e não visões políticas. Acontece que, ações climáticas são ações políticas. Na verdade, quase todas as ações e visões de um indivíduo embasam uma ação ou visão política.
Todo nosso estilo de vida, experiências e visão de mundo são moldados por ações e movimentações políticas. É difícil ser consciente das nossas decisões e de como moldar nossa vida, sem seguir a correnteza, sem se adequar ao que já foi escolhido para você.
Nos antigos cultos à natureza, pagãos comemoravam seus sabaths e esbathas saudando os ciclos da terra. Seu momento mais fértil, seu momento frutífero, de recolhimento. E de outros aspectos naturais que tinham ligação com esses ciclos da terra: quando o sol estava mais ou menos presente, as noites mais longas e as épocas de frio intenso.
Esses ciclos não só faziam parte da sociedade de forma religiosa, era importante entender os ciclos da terra pois isso definia todo o estilo de vida daqueles povos… quanto e o que iriam comer, até quando e se poderiam ficar longas horas fora de casa, quando e o que armazenar para os tempos de mais ou menos frio. A alimentação, interações sociais, arquitetura, vestimenta, tudo girava com essa “Roda do Ano”. Era política.
Com o tempo, a ascensão de outras práticas religiosas e do capitalismo em si, a conexão com os ciclos da natureza se tornou obsoleta para a sociedade. Independente do clima, as pessoas têm que ir trabalhar; independente da época, temos frutos e vegetais, carnes e vestimentas à disposição; as celebrações têm pouco significado, e muitas formas de consumo ($). A vida deixou de ser cíclica, e passou a ser linear, com fim e começo, sem possibilidade de novos aprendizados e diferentes tentativas.
Mas será que ignorar a Roda faz que ela suma?
Ainda temos um calendário anual, ele acaba dia 31 de dezembro e retorna em 1 de janeiro… isso não é um ciclo?
A lua continua tendo 4 grandes fases, definido entre outras coisas as altas das marés e a claridade (natural) das noites.
As mulheres também passam por 4 fases do Ciclo Menstrual, que definem mais do que só nossa fertilidade, também influenciam nosso humor e até condição e disposição física.
Mesmo que a sociedade à nossa volta esteja correndo, é preciso parar, refletir e conectar-se com nossos ciclos internos. Nossos momentos de expansão ou introspecção. As altas e baixas dos dias, semanas, meses e anos… o processo não linear de desenvolvimento, dar tempo ao nosso corpo e espírito para se adaptar às novas circunstâncias.
Com a aproximação do solstício de inverno (20 a 23 de junho) na Roda Sul, a natureza nos convida a diminuir o ritmo e refletir sobre as conquistas e perdas do ciclo passado. É um momento de introspecção e conexão com nossas emoções, idealizações e espiritualidade.
No folclore Wiccano acredita-se que a Deusa está prestes a dar a luz, por isso está mais frágil e reclusa, ela dará à luz ao Sol, que traz todas as possibilidades e vitalidade de volta para a terra e para as pessoas que precisam dela. É um conto de esperança e renovação.
Nesse momento, os que acreditam nos ciclos da natureza e da própria vida, tem a oportunidade de se aquecer com a amor paciente da Deusa e banhar-se na força e esperança que o pequeno Deus traz ao nascer, com a certeza de uma nova fase.
Os ciclos infinitos da vida são a conexão ancestral do bem estar e do desenvolvimento físico, social e espiritual. Não podemos perder a esperança que o tempo de bons frutos ainda vai chegar; que para essa colheita é preciso plantar e aguardar a semente germinar; que depois disso, o solo precisa descansar, para continuar a ser fertil. E principalmente, que nada disso é feito por apenas 1 pessoa, é o trabalho conjunto que permite a prosperidade de uma sociedade.
Respostas de 2
Adorei a sua reflexão e linha de raciocínio!
Existem muitas questões que a sociedade precisa correlacionar e rever!
Achei o texto muito rico e cheio de camadas, essa conexão entre natureza, espiritualidade e política foi feita de um jeito muito sensível. Gosto como ele nos convida a parar e refletir, algo que a correria do dia a dia apaga. É uma leitura que inspira e provoca de forma leve e profunda ao mesmo tempo.
Parabéns!