Eu queria ter sido artista

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Eu queria ter sido artista

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Ela me olha, quase sem querer me ver, e diz “Eu queria ter sido artista”. Fiquei sem palavras, nunca tinha passado pela minha cabeça em anos de convívio que esse era seu desejo, se tivesse podido escolher. Ela usa um daqueles vestidinhos surrados de tecido fino e estampado. É mais uma dessas tardes calorentas, que deixam o juízo um pouco alterado. Sobe por meu corpo uma vontade que me move. Eu a olho, tento enxergá-la, estendo a mão e de mãos dadas começamos a correr. Abro a porta de madeira antiga, depois tiro o cadeado do portão de ferro. A pressa não me permite trancar a casa, logo subimos a rua de asfalto já corroído.

A artrose nos dois joelhos não a impede de seguir ao meu lado. “O tempo é muito meu amigo”, digo ofegante, “ele vai abrir uma exceção para um desejo”.  Corremos tanto ao ponto de voltarmos 60 anos atrás. Pisamos agora em terra batida, um lago surge à nossa esquerda e várias das casas humildes desaparecem. 

Tomamos a primeira avenida grande à esquerda, sabíamos que ela nos levaria até o imponente centro fortalezense dos anos 1960. Um dos únicos lugares de exposições e obras de arte da cidade. Debaixo dos nossos braços levávamos todos os bordados que ela tinha criado. Trama por trama, cor por cor. Arranjos de flores, passarinhos, pés de plantas, casas, riachos, memórias e as histórias tecidas em algodão cru e etamine.  

Por onde íamos, nos perguntavam “É pra vender?” ou “Quanto custa o pano de prato?”. Ela logo respondia com a boca cheia de orgulhos “É minha arte e estou levando-a para junto de outras artes”. Eles nos olhavam de cima abaixo em nossas roupas comuns nos achando nenhum pouco artistas. Não damos trela.

Então, uma música do Nelson Gonçalves passou a ecoar no céu muito azul. Já não corríamos mais, sapateávamos. Abríamos um caminho só nosso pelas ruas abarrotadas de transeuntes e Kombis, Fuscas, Aero Willes, Simcas Jangadas, Rurais em verde claro, amarelo e vermelho. 

O longo arco entre as quatros colunas marfim do Museu do Ceará nos esperava. Reluzentes, ofegantes, entramos e exigimos uma parede para expor as obras da artista Luzanira Pinheiro. Eles nos responderam “Esperávamos por esta grande honraria, senhoritas”. 

Num piscar de olhos, o lugar enche de gente. Eles vieram do maciço de Baturité, do Saco Verde, de Campina Grande e aos montes do Montese, Expedicionários, Serrinha e Damas. Todos ansiosos para prestigiá-la. 

Os bordados estampam cada centímetro do museu. Crescem em grandes panos a história de uma mulher que se encontrou na arte. A história das férias no Pacoti. A história de tudo que o olho foi capaz de capturar. A história da sua pele em tecido e do seu bordado em caminhos que pôde seguir.

No meio de tantas texturas, ela surge em um vestido vermelho de fuxico, que guardava há anos em seu armário abarrotado de roupas para momentos que nunca chegavam. Os aplausos ressoam em felicidades. O vermelho realça seus olhos castanhos escuros e seus cabelos ondulados amendoados. Por mais bela que estivesse, nada resplandecia mais do que suas mãos artesãs. 

Vou ao encontro delas, quero guiá-la ao início do desejo de ser artista. Mas, ao simples contato entre nós duas, o calor nos atinge. Janelas, cadeiras riscadas, paredes em cal rosa, quadros com fotos antigas e arranjos empoeirados nos envolvem. Estamos em casa mais uma vez, de mãos dadas. E só consigo dizer “A senhora sempre foi artista, vó”.

 

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